Presidente do TSE atendeu a representação do PL de Flávio Bolsonaro que questionou metodologia de levantamento que indicou avanço de Lula O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, durante sessão plenária no último dia 19 — Foto: Luiz Roberto/TSE A decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, de suspender a pesquisa do instituto AtlasIntel que mostrava a queda nas intenções de voto de Flávio Bolsonaro (PL) após a divulgação dos áudios que ele enviou a Daniel Vorcaro provocou controvérsia no setor. Mas um trecho em especial deixou todos os outros institutos em estado de alerta. A pesquisa, divulgada no último dia 19, mostrou que a intenção de voto de Flávio caiu seis pontos percentuais no segundo turno, cenário no qual pontuou 41,8% contra 48,9% de Lula. Na ação, os advogados de Flávio questionaram a redação das perguntas e a exibição do áudio em que ele pede dinheiro a Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse” – apesar de o material só ter sido exibido depois do preenchimento dos questionários de intenção de votos, que no caso da AtlasIntel ocorre online. Mas, em sua decisão, além de ver "indícios relevantes de comprometimento" da neutralidade no método da pesquisa, Nunes Marques foi além. Ele considerou que também a entrevista que o CEO do instituto, Andrei Roman, deu à CNN Brasil sobre os resultados, corrobora o argumento de Flávio Bolsonaro. Para o ministro, em sua análise Roman “externou juízo valorativo acerca do potencial de desgaste eleitoral do pré-candidato” , por ter dito que o áudio envolvendo Flávio foi “muito problemático para a imagem dele” e que revelava “fatos extremamente graves”, capazes de comprometer a viabilidade de sua candidatura. Na entrevista, que tem cerca de 30 minutos e está disponível no YouTube, Roman também afirma que, a partir da pesquisa, é possível concluir que o áudio “não repercutiu de forma tão negativa em relação ao eleitorado [bolsonarista]. A tese dele de que estava pedindo dinheiro privado para um projeto privado é uma tese que parece ter sido acolhida por uma maioria do seu eleitorado. Outra coisa é o eleitorado brasileiro”. Na entrevista, Roman também mencionou as acusações de corrupção contra Lula no passado e disse que o eleitor também não tinha esquecido. A liminar de Nunes Marques ainda será julgada no plenário do TSE, mas esse ponto causou especial preocupação entre os institutos de pesquisa porque a análise dos cenários por seus representantes não só é recorrente na imprensa como faz parte da contextualização dos resultados, especialmente em comparação com levantamentos anteriores. À equipe do blog, o presidente do conselho de Opinião Pública da Associação Brasileira de Pesquisas Eleitorais (Abep), João Francisco Meira, avaliou que a interpretação dos números de pesquisas é uma “leitura válida” dos dados e não implica na distorção dos resultados. “Pesquisadores comentam dados, não fazem juízo de valor”, declarou Meira, que considerou a decisão de Nunes Marques um ato de censura. “A análise do pesquisador, em especial quando referente a um trabalho específico pelo qual é responsável, constitui uma leitura válida dos dados. Essa interpretação é necessariamente baseada nos dados obtidos. Não os modifica nem os distorce. Extrair implicações políticas desses resultados é tarefa do jornalismo”. Já o dono de um importante instituto de pesquisa alertou sob reserva sobre possíveis reflexos na jurisprudência eleitoral durante a corrida presidencial: “Discutir o questionário e sua aplicação é um debate válido, mas com argumentos técnicos. Quando vai além e entra na seara da liberdade de expressão, o presidente do TSE incorpora um elemento de incerteza aos julgamentos sobre pesquisas que pode tumultuar todo o processo eleitoral. E se o PL estava preocupado em desqualificar a pesquisa da Atlas, conseguiu o contrário, porque estão todos defendendo”. O levantamento da AtlasIntel suspenso por Nunes Marques apontava um recuo de seis pontos percentuais nas intenções de voto de Flávio em um segundo turno contra Lula. O filho 01 de Bolsonaro marcou 41,8% contra 48,9% de Lula. Na primeira rodada, o petista teria 47% contra 34,3% do rival. Pesquisas realizadas pela Quaest e pelo Datafolha após o levantamento do instituto de Roman também indicaram cenário de queda nas intenções de voto do bolsonarista. O CEO de um instituto responsável por sondagens eleitorais frisou ainda que os questionários de outras pesquisas formalizadas junto ao TSE após a do AtlasIntel também usaram termos como “escândalo” e “fraude financeira” e mediram a avaliação dos entrevistados sobre o impacto da revelação dos negócios entre Flávio e Vorcaro, sempre após a aferição da intenção de voto para presidente. Em nota divulgada após a liminar de Kassio Nunes Marques, a AtlasIntel afirmou que respeitará a decisão do presidente da Corte Eleitoral e que o instituto confia “no colegiado do TSE para afirmar a robustez técnica e a legalidade do estudo”. No comunicado, Andrei Roman afirmou não ter reconhecido “qualquer viés político” na elaboração ou aplicação da pesquisa. Indicado por Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal (STF) em outubro de 2020, Nunes Marques ingressou no TSE em maio de 2023 e assumiu a presidência da Corte Eleitoral no mês passado, cargo que ocupará durante a corrida presidencial ao lado de outro ministro indicado por Bolsonaro, André Mendonça, vice-presidente do Tribunal.