Imaginem-se os aposentos de um pintor e cientista dos séculos XV/XVI que obsessivamente tomava notas dos seus pensamentos e dúvidas, das experiências que criava para provar teorias capazes de antecipar o futuro, que descrevia em pormenor (texto e desenho) as suas ideias sobre óptica e meteorologia, que registava os seus projectos para máquinas fantásticas e as suas observações meticulosas do funcionamento do coração e do sistema vascular. Imaginem-se, agora, os papéis manuscritos que deixou e a informação que podem conter sobre o homem e a sua vastíssima e multifacetada obra.A Leonardotheka, iniciativa do Museu Galileu, de Florença, que junta as colecções reais britânicas, com sede no Castelo de Windsor, a Veneranda Biblioteca Ambrosiana, em Milão, e a Biblioteca Leonardiana, em Vinci, deu esta segunda-feira mais um passo para disponibilizar online um maior número de páginas destes documentos de Leonardo da Vinci (1452-1519), reunindo digitalmente desenhos, esboços, planos e notas que estavam separados há 400 anos. Separados, como?Quando Leonardo da Vinci morreu, em 1519, no pequeno palácio de Clos Lucé, não longe do Castelo de Amboise, casa do rei de França, Francisco I, seu patrono e amigo, tinha consigo o mais dedicado dos seus aprendizes.Francesco Melzi, 40 anos mais novo e membro de uma importante família da nobreza lombarda, conheceu o mestre do Renascimento em Milão e, ainda adolescente, começou a estudar pintura no seu atelier. Estando entre os seus alunos mais talentosos, Melzi, descrito como bonito e encantador, foi o único que ficou com ele até ao fim. Não é, por isso, estranho que tenha funcionado como seu testamenteiro, calhando-lhe em herança não as três pinturas que Leonardo fez questão de conservar até morrer — Mona Lisa, São João Baptista e A Virgem e o Menino com Santa Ana, entregues a outro dos seus discípulos, Andrea Salaì —, mas os manuscritos que reuniam todo o conhecimento que acumulara nas mais diversas áreas ao longo de 67 anos de intensa actividade intelectual.
Manuscritos de Leonardo da Vinci sobre arte e ciência de novo juntos, 400 anos depois
Projecto do Museu Galileu reúne digitalmente fólios de documentos de Leonardo que foram separados no final do século XVI. Uma ferramenta útil para os investigadores.









