Ela parece operar sob a lógica de Procusto: tudo o que escapa ao molde precisa ser extirpado. E, para Procusto, o molde jamais representou justiça: apenas a racionalização de uma conclusão já escolhida O Palácio do Itamaraty, em Brasília — Foto: Pablo Jacob / Agencia O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 05/06/2026 - 09:56 Críticas à Diplomacia Brasileira por Seletividade e Inconsistência A diplomacia brasileira é criticada por sua seletividade, operando sob uma lógica de Procusto, onde tudo fora do molde é eliminado. O caso de Rasha Athamni, diplomata israelense no Brasil, ilustra essa complexidade. A convocação do Itamaraty sobre um incidente com ativistas pró-Gaza destacou a falta de diálogo efetivo. A seletividade é evidente na atitude do Brasil em relação ao Irã, mostrando inconsistência nos critérios aplicados, sugerindo uma ausência de universalismo moral. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Rasha Athamni é a Encarregada de Negócios de Israel no Brasil. Mulher negra, palestino-israelense, muçulmana, mãe e casada com um coreano, sua trajetória desafia os estereótipos sobre Israel e expõe a complexidade frequentemente negada por seus antagonistas. Segundo a imprensa internacional, ela nasceu numa cidade árabe no centro de Israel, formou-se pela Universidade Hebraica de Jerusalém e descobriu sua vocação diplomática em simulações da ONU. Tornou-se a primeira mulher muçulmana diplomata do Estado israelense. Uma experiência marcou sua formação: assistir, na ONU, a países árabes condenando Israel por desigualdade de gênero, enquanto muitos deles não garantiam direitos equivalentes às próprias mulheres e às populações judaicas em seus territórios. A contradição a impulsionou à busca de um espelho corrigido dos defeitos e dos méritos de seu país. Em 21 de maio, a imprensa internacional divulgou imagens do ministro israelense Itamar Ben-Gvir exibindo ativistas pró-Gaza ajoelhados e algemados após a interceptação da flotilha Sumud. As imagens provocaram indignação internacional. O chanceler israelense Gideon Saar classificou o episódio como um “espetáculo vergonhoso”. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, criticou a forma da ação, embora mantivesse a política de bloqueio que lhe deu origem. Países europeus reagiram diplomaticamente. No mesmo dia, o Itamaraty a convocou para prestar esclarecimentos. O gesto é previsível, legítimo e integra o protocolo internacional. O que chama a atenção é o silêncio posterior: não houve manifestação pública reconhecendo as vozes israelenses que criticaram o episódio, sugerindo a ausência de um diálogo efetivo com uma diplomata cuja biografia simboliza a convivência entre civilizações que o Brasil afirma defender. Uma mulher palestina representando Israel despertaria curiosidade política. Pelo que se infere da falta de nota pública posterior, pode ter sido tratada apenas como destinatária de cobranças. Quatro dias depois, a imprensa internacional divulgou outro vídeo: policiais da Comunidade Autônoma do País Basco espancando e detendo ativistas da mesma flotilha no aeroporto. Não há notícia de convocação do embaixador espanhol ao Itamaraty. A seletividade não é nova. O Brasil evita condenações ao Irã no Conselho de Direitos Humanos da ONU, sob argumentos conhecidos: objeção a isolar o país, não intervenção, autonomia estratégica, resistência à seletividade ocidental e preservação de relações com o Sul Global. Os critérios não são aplicados de forma consistente. Organizações de direitos humanos documentaram milhares de mortes durante a repressão iraniana aos protestos de 2022 e 2023. Reiteradamente, mulheres e integrantes da comunidade LGBTQIA+ são condenados à morte no país persa. Por consistência, a mesma lógica vigente quanto ao Irã deveria ser aplicada a Israel. A assimetria sugere a inexistência de um universalismo moral. O problema pode ser mais profundo: Israel dificilmente encontra espaço num país que parece ter decidido o papel de cada ator na sua agenda política. Nesse cenário, nem mesmo uma diplomata que simboliza as contradições e potencialidades da região consegue ser vista como interlocutora de fato, apenas como destinatária de reclamações. A diplomacia brasileira parece operar sob a lógica de Procusto: tudo o que escapa ao molde precisa ser extirpado. E, para Procusto, o molde jamais representou justiça: apenas a racionalização de uma conclusão já escolhida. *Clarita Costa Maia é advogada, doutora em Direito Internacional pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Suíça de Direito Internacional
A seletividade da diplomacia brasileira
Ela parece operar sob a lógica de Procusto: tudo o que escapa ao molde precisa ser extirpado. E, para Procusto, o molde jamais representou justiça: apenas a racionalização de uma conclusão já escolhida









