Rafaella Steenhagen, de 28 anos, é formada em Relações Internacionais, mas não atua na área. Fluente em quatro idiomas, trabalha como assistente administrativa. Apesar de empregada, não teve o retorno financeiro que esperava do grande investimento que fez em educação. O mal-estar aumenta quando ela compara sua situação financeira com a dos pais, ambos advogados. Ela se vê distante do que eles já tinham conquistado perto dos 30 anos, a começar pela casa própria para criar dois filhos. Solteira, Rafaella ainda mora com os pais e usa essa base para sua nova jornada universitária: está cursando Direito. — Eu me sinto frustrada quando vejo que ainda não alcancei o padrão de vida e a estabilidade que planejava, apesar de trabalhar em uma ótima empresa, que oferece salário e benefícios acima do mercado para a função em que atuo — diz. — É como se diz nas redes sociais: na minha vez de ser adulto, está tudo bem mais caro do que há 30 anos. Apesar de eu ter tido maior acesso a educação e tecnologia, meus pais tiveram mais conquistas financeiras na minha idade. A decepção de Rafaella é comum entre brasileiros na faixa dos 30 anos, em todas as classes. A educação avança, mas a renda não cresce o suficiente para que eles superem o padrão de vida dos pais. A sensação de não sair do lugar é respaldada por números. Um estudo realizado pelos pesquisadores do Insper Daniel Duque, Michael França e Fillipi Nascimento comparou a situação econômica e o acesso a bens das gerações X (nascidos entre 1965 e 1980 ) e Millennial (de 1981 a 1996 ) no Brasil aos 30. Concluiu que a geração que chega à fase adulta agora tem renda maior que a anterior nessa idade, mas o avanço é aquém do esperado e insuficiente para que os trabalhadores se sintam num degrau acima. Para a análise, os pesquisadores isolaram um grupo de integrantes da geração X nascidos entre 1967 e 1969 e outro de Millennials no intervalo entre 1992 e 1994. Então compararam dados socioeconômicos por faixa de renda dos dois grupos aos 30, idade que o primeiro atingiu entre 1997 e 1999, e o segundo, entre 2022 e 2024. Dos mais pobres aos mais ricos, nenhum segmento de Millennials teve alta da renda acima de 2% ao ano em relação à geração anterior. Melhora maior na base Os maiores avanços foram na base da pirâmide social, principalmente entre os 25% mais pobres. Nessa faixa, Millenials tiveram um avanço de 2% ao ano em média. Já entre os 5% mais pobres, o avanço anual ficou em torno de 1,3%. Inércia intergeracional — Foto: Criação O Globo Na classe média alta, os ganhos foram ainda menores. Entre os 25% mais ricos, a renda cresceu menos de 0,5% ao ano, enquanto nos 10% mais ricos o avanço foi próximo de zero. Por outro lado, quando se isolam os 5% no topo, há alguma diferença: melhora pouco acima de 0,5% ao ano. Para Duque, um dos autores do estudo, a variação em geral é pequena, retrata a baixa mobilidade social no país. Mesmo os grupos que tiveram maior avanço na renda não conseguiram mudar de status, e a evolução de seu nível de consumo foi menor que o previsto. Segundo o pesquisador, para haver mobilidade efetiva entre gerações, seria necessária uma alta em torno de 3% ao ano — variando entre 2% e 4% — na comparação da renda de X e Millennials, acompanhada por um avanço nas camadas mais baixas em ritmo ao menos duas vezes o observado entre os mais ricos da geração anterior. A estagnação tem relação com os ciclos econômicos do país, explica Duque: — Nesse período, entre a fase adulta da geração X e a dos Millennials, passamos por vários momentos de crise no mercado de trabalho, tanto a crise de 2015 e 2016, quanto a pandemia, e tudo isso comprimiu muito os rendimentos. Além da conjuntura, Duque ressalta que há questões estruturais que impedem maior mobilidade socioeconômica entre as gerações no Brasil, o que explica a frustração atual. Presidente do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) e colunista do GLOBO, Paulo Tafner concorda. O economista defende políticas públicas para dinamizar a economia e fortalecer a competitividade das indústrias brasileiras no mercado global, como forma de impulsionar o crescimento do país e, consequentemente, a mobilidade: — O nosso processo econômico não está sendo capaz de gerar mobilidade social e eliminação da pobreza. Significa que temos que fazer um esforço monumental de transferir renda. Mas o melhor jeito é no processo de desenvolvimento econômico, ter oportunidades para todo mundo. Para Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, o Brasil dá menos atenção que deveria a reformas estruturais para elevar a produtividade e a renda e melhorar as perspectivas das próximas gerações: Perto dos 30, Rafaella Steenhagen é formada em Relações Internacionais e fala quatro idiomas. Apesar de ter estudado mais que os pais, ela ainda vive com eles porque não conseguiu um trabalho equivalente à graduação e não tem uma renda suficiente para ter o próprio apartamento — Foto: Guito Moreto/Agência O Globo — Não adianta só melhorar a composição da economia pelo lado do trabalho. Deveríamos estar olhando pelo lado do capital, do investimento, das tecnologias. Nisso, o Brasil peca e sempre pecou. O economista pontua que, embora a geração X tenha vivido a hiperinflação no início dos anos 1990, quando chegou aos 30 anos o Plano Real já havia trazido estabilidade aos preços. Naquela época, a população era menor e havia menos formados no ensino superior, o que reduzia a concorrência para cargos de renda mais alta. Ele destaca avanços em indicadores sociais e de saúde que melhoraram a qualidade de vida no país ao longo de décadas, permitindo inclusive que trabalhadores de gerações mais antigas permaneçam mais tempo no mercado. — Eles continuam sendo os principais nas vagas mais seniores, que tendem a ser mais bem remuneradas, não abrem espaço para que os jovens consigam se inserir como gostariam — diz o economista, para quem o acesso mais amplo ao ensino superior veio acompanhado de um descompasso entre as habilidades adquiridas e as exigidas pelo mercado de trabalho, dificultando ainda mais a inserção dos jovens. A economia brasileira cresceu nos últimos anos e o mercado de trabalho está aquecido, mas a geração de vagas é de baixa remuneração. Imaizumi observa que mudanças nos padrões de consumo, impulsionadas pelas novas tecnologias, e o nível elevado dos preços, que não voltaram ao patamar pré-pandemia, minam o poder de compra e a qualidade de vida, ainda que, em valores absolutos, a renda tenha subido. Acesso a bens aumentou Ainda assim, o estudo do Insper aponta aumento do acesso a bens duráveis, como carros, motos e eletrodomésticos em todas as faixas de renda, com destaque para itens como geladeira, fogão e máquina de lavar. O avanço intergeracional foi mais forte entre as famílias de faixa intermediária de renda, onde o acesso subiu de pouco mais de 30% para cerca de 75%. Duque explica que bens duráveis ficaram relativamente mais baratos nas últimas décadas com o avanço tecnológico e a produção em escala. Além disso, a ampliação do crédito favoreceu o acesso. Mas isso não é indicativo de um maior status social. — Hoje, o acesso, por exemplo, a motocicletas deixou de ser um ponto de distinção social e passou a ser quase um bem de fácil acesso — diz. Outro aspecto é que entre os “trintões” da geração X, quanto mais alta fosse a classe, maior era a chance de morarem fora da casa dos pais. A independência residencial ia de 30% entre os de menor renda para mais de 80% entre os mais ricos, e a propriedade da casa crescia com a renda. Entre Millennials, o padrão se inverte. Aos 30, deixar o lar da família e ter um imóvel são fatores mais prevalentes entre os de menor renda, enquanto os mais ricos tendem a ficar mais tempo com os pais, possivelmente para investir em estudos diante do alto custo de moradia. Em famílias mais pobres, a possibilidade é mais limitada, o que se torna mais um fator de desigualdade. — Mudaram as estratégias de investimentos da vida adulta. Para as populações de renda média e os mais vulneráveis, ter moradia própria é considerado um investimento importante. Crédito e programas sociais ajudaram. Antes, quem não tinha uma renda maior não tinha acesso nem a financiamento. Não conseguiam casa própria, a não ser que construíssem do zero, o que acontecia muito — diz Duque. Desigualdades históricas Outras estruturas que impedem avanços são as desigualdades raciais e de gênero. Embora tenham diminuído, a renda dos homens brancos da geração X aos 30 anos era maior que a de todos os outros grupos identitários de Millennials hoje. Para Tafner, é reflexo da dinâmica econômica do país, moldada para manter a distinção dos grupos hegemônicos: — O crescimento econômico não é capaz de gerar emprego e renda para aqueles que estão mais abaixo na pirâmide e há, entre os mais pobres, uma concentração maior de pardos e pretos. Então obviamente que isso vai se refletir. *Estagiária sob supervisão de Alexandre Rodrigues