Durante décadas, traders, executivos e analistas de petróleo alertaram que o fechamento do Estreito de Ormuz seria uma catástrofe econômica global. Já se passaram mais de três meses desde que a via marítima foi efetivamente bloqueada, criando o pior choque de oferta da história moderna. Mas uma série de soluções alternativas está mantendo o petróleo bruto abaixo de US$ 100 por barril, contrariando muitas das previsões mais pessimistas do setor, que apontavam preços de até US$ 200. Uma combinação de exportações recordes dos EUA, uma desaceleração acentuada e inesperada na demanda chinesa e um fluxo contínuo — ainda que limitado — de petróleo que continua passando pelo estreito ajudou a absorver grande parte do impacto da perda de mais de 10 milhões de barris por dia do Oriente Médio. Um excedente pré-guerra também ajudou a amenizar o choque. “As pessoas achavam que seria muito pior”, disse o presidente Donald Trump na sexta-feira. “Hoje vi o preço a US$ 96 por barril; as pessoas achavam que chegaria a US$ 300.” Agora, todas as atenções estão voltadas para quanto tempo esses “amortecedores” conseguirão segurar a situação, enquanto a questão de quando o fluxo pelo estreito será retomado — e para onde os preços do petróleo irão — se tornou uma das maiores incógnitas para a economia global. China reduz importação em quase 40% Uma das maiores surpresas para o mercado de petróleo tem sido a China, o maior importador do mundo. Segundo a Vortexa Ltd., o país reduziu as importações em quase 40% em maio em comparação com a média do ano passado. Essa redução é suficiente para compensar entre um terço e um quinto dos barris perdidos devido à guerra, dependendo das estimativas. Ao mesmo tempo, as exportações americanas de petróleo e combustíveis em maio ficaram mais de 2 milhões de barris por dia acima da média de todo o ano passado. Liberação de reservas Outras medidas emergenciais também aliviaram a pressão. Governos ao redor do mundo coordenaram uma liberação histórica de reservas estratégicas, enquanto produtores do Golfo redirecionaram carregamentos por rotas alternativas. Alguns navios-tanque continuaram atravessando o estreito apesar dos riscos, utilizando métodos cada vez mais opacos para evitar ameaças militares. “Mais de três meses após o início do conflito, o mundo se mostrou surpreendentemente resiliente”, disse Maria Angelicoussis, CEO do Angelicoussis Group, o maior armador grego em número de embarcações. “Os preços das commodities subiram 50% ou 60%, o GNL asiático 90%, mas não chegaram aos níveis extremamente altos que eu, pessoalmente, esperava.” Por enquanto, o petróleo sendo negociado bem abaixo de US$ 200 por barril — nível que muitos analistas temiam inicialmente — deu margem de manobra a Trump nas negociações com o Irã, mesmo enquanto ele insiste que um acordo de paz está próximo. Mas uma nova disparada sustentada nos preços aumentaria a pressão sobre a Casa Branca para fechar um acordo rapidamente e evitar impactos maiores na economia global. Os estoques globais estão sendo reduzidos em ritmo recorde, deixando o mercado cada vez mais vulnerável a novas interrupções. Com a oferta disponível diminuindo, até pequenas falhas podem provocar fortes aumentos de preço. “A cada semana que passa, o sistema se aperta em 70 a 80 milhões de barris. Isso não pode continuar para sempre”, disse Greg Sharenow, gestor da equipe de commodities da Pacific Investment Management Co. “Nos próximos meses, você provavelmente verá um sistema com pouca flexibilidade, porque os amortecedores foram praticamente esgotados.” O boom americano A produção de petróleo dos EUA atingiu níveis recordes nos últimos anos graças à revolução do shale, iniciada há mais de uma década, transformando o país em exportador líquido de petróleo e derivados. Essa abundância energética permitiu que o presidente Trump tomasse decisões geopolíticas antes consideradas impensáveis — não apenas iniciar uma guerra contra o Irã, mas também a apreensão do presidente venezuelano Nicolás Maduro. Washington também usou seu poder energético para estabilizar mercados. O governo prometeu liberar 172 milhões de barris da Reserva Estratégica de Petróleo como parte de um esforço mais amplo das economias avançadas para compensar a perda de oferta. Até agora, isso vem sendo feito em um ritmo que poucos consideravam possível — em uma semana do mês passado, o estoque caiu 1,4 milhão de barris por dia. Quase metade desse volume foi enviado à Europa e outros destinos. A combinação de exportações dos EUA e da queda na demanda chinesa ajudou a reduzir o preço do Brent (referência global) para abaixo de US$ 100 por barril, após ter ultrapassado US$ 140 no início da guerra. O período mais recente de vencimento de contratos mostrou poucos sinais de escassez real. No entanto, os limites dessas soluções começam a aparecer. Os estoques de petróleo dos EUA caíram para o menor nível em mais de duas décadas. As reservas emergenciais estão quase esgotadas, e os estoques de combustíveis enfrentam níveis críticos com a chegada do pico de demanda do verão. O governo Trump também tomou outras medidas estratégicas, como flexibilizar restrições sobre parte do petróleo russo sancionado, facilitando compras por países como a Índia. O retorno da China Muitos traders veem o eventual retorno da China aos níveis anteriores de compra de petróleo como o principal fator para prever quando os preços voltarão a subir. A enorme demanda do maior importador do mundo — acima de 10 milhões de barris por dia desde a guerra na Ucrânia — foi reduzida, em parte porque o país parou de expandir seus estoques estratégicos. Além disso, a China vem substituindo o petróleo por carvão na produção de químicos, e o crescimento das vendas de veículos elétricos também está reduzindo o consumo de gasolina. A produção das refinarias chinesas em maio e junho gira em torno de 13 milhões de barris por dia — nível visto pela última vez no início da pandemia em 2020, abaixo dos 14,8 milhões do ano passado. “A retração da China foi crucial para reequilibrar o mercado global e limitar os preços”, disse Warren Patterson, do ING. “A magnitude disso surpreendeu a maioria do mercado.” Redução nas travessias Produtores do Golfo encontraram alternativas rapidamente. A Arábia Saudita usou seu oleoduto leste-oeste para enviar petróleo ao Mar Vermelho, enquanto os Emirados Árabes Unidos redirecionaram exportações para Fujairah. Ainda assim, alguns navios continuam atravessando o estreito — por acordos governamentais, risco comercial ou apoio dos EUA. Mas o número de travessias caiu drasticamente: de cerca de 100 por dia antes do conflito para apenas 2 ou 3 atualmente, segundo dados de rastreamento. Outro fator que ajuda a conter os preços é a retórica constante de Trump, que dificulta apostas de alta prolongadas por parte dos traders. A volatilidade elevada reduziu o interesse em contratos futuros, levando investidores a diminuir riscos. Muitos operadores preferem manter posições menores e por períodos curtos. A falta de apetite ao risco limitou os fluxos financeiros, enquanto medidas do lado da oferta evitaram um colapso maior. A questão agora é quanto tempo isso pode durar sem um acordo de paz. “É basicamente essa expectativa de que uma solução está próxima”, disse Tom Baker, da Vitol. “Mas, independentemente da rapidez da recuperação, ainda haverá um buraco — algo como um bilhão de barris de petróleo que simplesmente não estão lá.”