A política brasileira viveu, em menos de 48 horas, a síntese perfeita de seu antagonismo de classes. No dia 27 de maio de 2026, a Câmara dos Deputados aprovou de forma esmagadora a PEC pelo fim da escala 6x1, uma vitória histórica dos movimentos sindicais e da luta por redução da jornada sem perda salarial. No dia seguinte, 28 de maio, um grupo de 41 senadores, liderado por Rogério Marinho (PL-RN) e com a assinatura do pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apresentou a PEC 12/2026. O objetivo era claro: responder à conquista popular com um golpe ainda mais violento contra os direitos trabalhistas.Apelidada de PEC da Escravidão, PEC 7x0 ou PEC das Horas Trabalhadas, a proposta não apenas elimina o descanso semanal remunerado, permitindo jornadas contínuas de sete dias, como também rebaixa o salário mínimo a valor-hora, reduz verbas rescisórias (férias, 13º, FGTS) e, o mais perverso, substitui a negociação coletiva por acordos individuais entre patrão e empregado. Sob a retórica da "liberdade" e "flexibilização", o que se esconde é a tentativa de legalizar, com caneta e Constituição, o regime de exaustão que já escraviza milhares de trabalhadores neste país.

Para entender o que isso significa na pele de quem trabalha, trago também a perspectiva indígena. Os povos originários nunca tiveram o direito de "escolher" sua exploração. Durante séculos, o Brasil justificou o trabalho forçado indígena como "integração" ou "oportunidade", sequestrando crianças classificadas como "órfãs" mesmo com pais vivos para alimentar o criadismo. Hoje, essa mesma lógica se repete nas safras de uva, maçã e cana: indígenas são recrutados com promessas, endividados e submetidos a jornadas exaustivas sem folga, alojamentos precários e exposição a agrotóxicos.