Há 20 anos, a arquiteta recém-formada Francine Ferrari baseou sua tese de pós-graduação em Gestão Empresarial no uso do bambu como alternativa à madeira na construção civil e na decoração. Na época, o tema da sustentabilidade era pouco debatido no mercado, e o documento gerou controvérsia. Ela insistiu em difundir a matéria-prima no país, inaugurando a Neobambu, ao lado de Marco Nery. Hoje, com a sustentabilidade na nova ordem do dia, a empresa é referência em revestimentos sofisticados de baixo impacto ambiental. Neste ano, a marca virou grupo e passou a atuar também na incorporação e no segmento de “wellness”. Como surgiu a ideia da empresa? Francine Ferrari — Quando defendi a tese, fiquei com aquela ideia na cabeça e investi na empresa com meu sócio para oferecer materiais alternativos e mais duráveis ao mercado de arquitetura. Fomos pioneiros em trazer o piso de bambu da China para o Brasil e, depois, começamos a importar materiais da Finlândia, da Bélgica, da Suécia e dos Estados Unidos, que usam tecnologia para desenvolver pisos e revestimentos à base de madeira termotratada e de plásticos retirados dos oceanos. Prédios comerciais têm utilizado o piso de bambu em vez de granito. Qual a vantagem? O bambu tem uma durabilidade extraordinária, é renovável e seu apelo estético é semelhante ao da madeira, criando uma sensação mais agradável. É um material que pode ser usado em áreas externas também, como brises, fachadas de prédios e até em píer de barcos. A demanda por materiais sustentáveis aumentou nesses 20 anos? Sem dúvida, as pessoas têm buscado materiais mais perenes, e a sustentabilidade ganhou força entre os arquitetos, que têm exigido mais insumos sustentáveis para obtenção de certificações que qualifiquem seus projetos. Lá atrás, a sustentabilidade era um “plus”. Hoje, é um dos pilares essenciais dos projetos. E tem muito cliente final que já questiona a origem do que foi usado na sua casa ou escritório. Esse é o futuro do alto padrão? O alto padrão precisa ser mais sustentável. É uma necessidade, não uma tendência apenas. Madeira natural, como o cumaru, já tem restrição de extração e será um tipo de matéria-prima cada vez mais escassa, obrigando o setor imobiliário e a arquitetura a encontrar soluções. Profissionais e empresas devem considerar esse cenário na hora de criar seus empreendimentos. Showroom da Neobambu em São Paulo: duas décadas oferecendo soluções sustentáveis de pisos e revestimentos — Foto: NEOBAMBU/DIVULGAÇÃO Vocês estão lançando a Neobambu Inc., uma empresa de incorporação. Por que a decisão? Entendemos que era o caminho natural de expansão da empresa: unir nossa expertise de 20 anos à materialidade e ao conhecimento que temos do cliente de alta renda, para oferecer casas com apelo sustentável e que colocam o bem-estar no centro do projeto. Começamos com uma experiência na Riviera de São Lourenço, no litoral de São Paulo, com projeto de Roberto di Pace, que foi muito bem recebido e já está vendido. Depois, passamos a investir também em projetos aqui na região dos Jardins, em São Paulo. No total, temos seis residências na capital e litoral, entre prontas e em construção. As casas em São Paulo são entregues com infraestrutura técnica, pisos e revestimentos. Na praia, vêm completas, até com enxoval de cama, mesa e banho. Qual é o conceito? Partimos da materialidade aliada ao “wellness”, em que o deque externo é o início de um circuito de experiências de bem-estar e autocuidado, que termina no rooftop da casa. Ali teremos piscina, banheira de “recovering” e ducha. Propomos também que o living esteja conectado ao conceito de saúde e longevidade, assim como levamos a sauna — que costuma ficar fora da casa e distante das pessoas — para a varanda ou o banheiro, fazendo parte da rotina das pessoas. A ideia é que a casa estimule os cuidados com a saúde física e mental dos moradores. Residência Neobambu em São Paulo: decks de madeira termotratada criam circuito de bem-estar — Foto: NEOBAMBU/DIVULGAÇÃO Sauna para o dia a dia funciona? Sim! Em diversos países, ela faz parte da rotina de autocuidado diário das pessoas. Aliás, foi por conta de uma viagem que fiz à Estônia — onde a sauna tem a mesma importância que a varanda gourmet no Brasil, por exemplo — que decidi criar uma marca: Saunarium. Será uma linha de produtos associados ao ambiente, incluindo cabines feitas em madeira termotratada, com luz infravermelha, som ambiente, parede com sal do Himalaia e “chaises” no lugar das arquibancadas. E podemos customizar a sauna, criando um espaço maior e com recursos exclusivos. Como será o impacto disso nos projetos imobiliários? Há duas décadas, a arquitetura dos apartamentos e das casas de alto padrão passou por uma grande transformação, que foi a inclusão da área gourmet como espaço central da planta. Da pandemia para cá, as pessoas perceberam o custo disso: os ambientes privativos ficaram menores. Mais além, elas aderiram aos rituais de autocuidado também, indo mais à academia e investindo em “skincare”, suplementos, etc. A soma dessas percepções levou as pessoas a desejarem uma casa que estimule o bem-estar íntimo e familiar. É nisso que estamos apostando. Saunarium: nova marca do grupo traz saunas compactas para serem integradas ao banheiro ou varanda — Foto: NEOBAMBU/DIVULGAÇÃO