Em poucos anos, verificou-se uma mudança profunda na carteira de crédito à habitação. Da excessiva dependência da Euribor, que historicamente superava os 90% do stock, para uma posição que já ficou, em Abril, abaixo dos 50%.A forte subida das taxas Euribor em 2022 e 2023, que as descidas a partir de 2024 não anularam totalmente, abriu a porta ao crescimento das taxas mistas (que têm uma componente inicial fixa, podendo depois transitar para variável, ou renegociar novo período fixo), tornando-as claramente dominantes nos novos contratos, com reflexos no conjunto da carteira.Em Abril, a totalidade dos créditos já concedidos no regime de taxa variáveis (Euribor) caiu, pela primeira vez, para 49,49%. Já os empréstimos a taxa mista atingiram o peso mais alto de sempre, nos 45,42%, e a taxa fixa ficou nos 5,09%, o que, em conjunto, destrona a Euribor, segundo os dados divulgados esta sexta-feira pelo Banco de Portugal (BdP).Em flagrante contraste com estes dados, em Dezembro de 2021, quando as taxas Euribor ainda se encontravam negativas, o peso destas taxas ascendia a 90,17%, relegando as taxas mistas para apenas 7,6% da carteira. Mas foi precisamente a partir de 2022 que se começou a der a afirmação deste regime.Considerando apenas o montante de novos empréstimos contratados no passado mês de Abril, o peso do contratado a taxas mistas ascendeu a 85%, a percentagem mais elevada de sempre, enquanto o peso das taxas variáveis se ficou por 13,92%, a mais baixa de sempre, e o das taxas fixas durante todo o período contrato se ficou por 1,57%. O montante elevado dos empréstimos mais recentes, devido à subida do preço dos imóveis, também ajuda a explicar as alterações no conjunto da carteira.Actualmente, a diferença entre as taxas variáveis e mistas nem sequer é muito expressiva, 0,22 pontos percentuais em Abril (2,74% a taxa média mista e 2,96% a variável). Mas a recente inversão das taxas Euribor, antecipando uma provável subida de juros por parte do Banco Central Europeu (BCE), já na próxima semana, para travar a subida da inflação (provocada pela subida dos preços da energia, na sequência do conflito no Médio Oriente), volta a empurrar os particulares para o crédito a taxas mistas, essencialmente pela estabilidade da prestação durante os primeiros dois, três ou cinco anos.O período de fixação inicial da taxa por períodos curtos, maioritariamente entre dois e cinco anos, contribui para que os contratos neste regime sejam renegociados mais vezes. Ou seja, findos os períodos de taxas fixas são negociados novos períodos de fixações, em vez de transitarem imediatamente para o regime variável. E as taxas Euribor em novo ciclo de subida pressionam essas renegociações, que no passado só aconteciam quando as famílias tinham dificuldades em pagar os seus créditos.Taxas a subirSe as taxas variáveis estão a subir, as fixas (usadas nos primeiros anos da mistas) também começam a dar os primeiros sinais nesse sentido.A taxa média da totalidade dos novos contratos de crédito à habitação subiu 0,05 pontos percentuais em Abril, para 2,96%, com um contributo menos expressivo das taxas mistas, que subiram 0,03 pontos percentuais, para 2,74%, e maior das variáveis, que aumentaram 0,14 pontos percentuais, para 2,80%. Também nos contratos renegociados, a taxa aumentou, embora muito ligeiramente (0,01 pontos percentuais) para 2,86%, enquanto as taxas fixas para toda a maturidade do contrato desceram ligeiramente, de 3,72% em Março, para 3,70% em Abril.No mesmo mês, a taxa de juro média das novas operações na zona euro aumentou 0,08 pontos percentuais, para 3,43%. Face a este valor, Portugal apresentou a quarta taxa de juro mais baixa entre os países da área do euro, a mesma posição que ocupava no mês anterior.De acordo com os dados do BdP, os novos contratos de empréstimos a particulares atingiram 2988 milhões de euros, uma queda de 336 milhões de euros em relação a Março. A redução verificou-se em todas as finalidades: os empréstimos para habitação caíram 203 milhões de euros, para 2053 milhões de euros; os empréstimos ao consumo diminuíram 78 milhões de euros, para 657 milhões de euros; e os empréstimos para outros fins recuaram 55 milhões de euros, para 278 milhões de euros.Nos empréstimos ao consumo, a taxa de juro média das novas operações situou-se em 8,98%, mais 0,21 pontos percentuais do que em Março.