Áreas verdes podem mitigar quase metade (48,6%) do efeito das ilhas de calor urbanas, fenômeno causado pela absorção da radiação solar ao longo do dia por superfícies como concreto e asfalto, o que deixa as cidades mais quentes do que as áreas próximas não urbanizadas. Um estudo que acaba de ser publicado na revista científica Nature Communications comprovou algo que já era observado de forma empírica: as árvores ajudam a diminuir a temperatura ao gerar sombra e refrescar o ambiente naturalmente, agindo como um ar-condicionado natural. A diferença na temperatura entre áreas urbanas com e sem árvores é, na média, de 0,5 °C. A pesquisa, liderada pela ONG The Nature Conservancy (TNC), analisou dados de quase 9 mil grandes cidades em todo o mundo, onde vivem cerca de 3,6 bilhões de pessoas. E, apesar de as cidades tropicais, incluindo as do Brasil, registrarem temperaturas mais altas, os impactos das ilhas são semelhantes em todas as regiões. “O efeito de ilha de calor urbana, que pode ser considerado como um efeito aditivo à temperatura média de uma região, não é necessariamente maior nas cidades tropicais", afirma Rob McDonald, cientista-chefe da TNC para soluções baseadas na natureza. A pesquisa chama a atenção para a desigualdade no acesso às áreas verdes, que pode ser vista tanto em nível local (bairros) quanto nos países, aponta McDonald. "Sistematicamente, as economias de baixa e média renda têm menos cobertura arbórea urbana do que as economias de alta renda. E, dentro das cidades, as áreas mais densamente povoadas têm menos cobertura arbórea e, portanto, menos resfriamento do que outras áreas", explica. O estudo sugere a arborização em larga escala como política pública capaz de mitigar 19% do aumento de temperatura causado pelas mudanças climáticas, e recomenda que os esforços sejam direcionados para regiões sem cobertura adequada e onde os moradores são particularmente vulneráveis, como os bairros com uma proporção maior de idosos. Mapeamentos térmicos em metrópoles brasileiras indicam que a desigualdade na arborização influencia diretamente a temperatura dos bairros. A diferença nos termômetros entre bairros de Salvador pode chegar a 6,5°C durante a tarde, conforme pesquisa da Universidade Federal da Bahia (UFBA) com apoio da prefeitura e da Administração Oceânica e Atmosférica (Noaa, na sigla em inglês), agência de pesquisa científica sobre clima dos Estados Unidos. Regiões com mais vegetação e próximas de áreas verdes ou corpos d’água registram temperaturas mais amenas. Já bairros densamente urbanizados, com pouca arborização e grande concentração de asfalto, apresentam temperaturas mais elevadas. A expansão urbana desordenada da cidade, especialmente entre as décadas de 1960 e 1980, contribuiu para uma distribuição desigual da arborização, com bairros de maior poder aquisitivo, geralmente próximos à orla, com mais verde do que as áreas periféricas, diz Antonio Lobo, coordenador de meio ambiente da UFBA. “Há uma desigualdade muito grande no acesso à arborização e aos benefícios ambientais que ela traz, como o ar de qualidade e proteção contra ilhas de calor e ventos fortes”, diz Lobo. Essa divisão se traduz em uma pior qualidade de vida. A capital baiana é a segunda menos arborizada do país, segundo o Censo 2022, do IBGE. Praticamente dois em cada três soteropolitanos — cerca de 1,57 milhão de habitantes — vivem em vias onde não há uma única árvore. A Prefeitura de Salvador afirma que o levantamento, que investiga a presença de árvores nas vias, não reflete a realidade de toda a cidade. "Quando se olham imagens e dados de satélites, se percebe que Salvador é uma cidade arborizada. A metodologia do IBGE não considera áreas verdes e de preservação, apenas as calçadas", diz Ivan Euler, secretário de Sustentabilidade e Resiliência do município. De acordo com o secretário, os dados de satélites da plataforma MapBiomas registraram uma cobertura vegetal de 26,2% na capital baiana, o que a coloca como a segunda capital com maior presença de áreas verdes do Brasil, na direção oposta da conclusão do Censo de 2022. A análise do MapBiomas soma parques, praças, manguezais, mas também fragmentos de Mata Atlântica em áreas privadas. “O que temos é uma má distribuição da cobertura vegetal, especialmente nos bairros adensados e favelas", diz Euler.