O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não foi à 34ª Marcha para Jesus, realizada nesta quinta-feira (4) de Corpus Christi em São Paulo, mas enviou uma mensagem aos organizadores em uma ligação para o ministro da advocacia-geral da União (AGU) Jorge Messias, presente no maior evento evangélico do país. Messias estava ao lado do apóstolo Estevam Hernandes, organizador da Marcha. Por telefone, o presidente mandou um recado aos fiéis e explicou sua ausência: disse que não participa de eventos do gênero em época de eleição para não dar a impressão de que tira proveito político de algo sagrado. "Eu não participo de nada da religião em época de eleição, porque eu não quero passar a ideia de que estou tentando ter proveito político de uma coisa sagrada", afirmou o presidente na ligação, recebida por Messias. A declaração foi feita enquanto representantes do governo e da oposição dividiam o mesmo trio elétrico no evento. No trio principal, Messias manteve postura discreta e ficou distante de Flávio e Tarcísio. Na mesma ligação, Lula afirmou estar "muito feliz" com a Marcha e evocou sua trajetória com a data. "Eu estou muito feliz porque é uma coisa que eu sancionei há tanto tempo atrás. É uma coisa muito importante", disse o presidente. Em setembro de 2009, Lula sancionou a lei que criou o Dia Nacional da Marcha para Jesus. Messias representa Lula no evento pelo quarto ano consecutivo desde o início do governo, em 2023. "A minha presença, a pedido do presidente, teve um único propósito: louvar e engrandecer a Deus", escreveu o ministro em suas redes sociais. Marcha para Jesus reúne milhares de evangélicos nas ruas de SP — Foto: Reprodução/Youtube Messias rebate Flávio Essa é a primeira vez que o ministro encontra o público depois de ter a nomeação ao STF barrada pelo Senado, em um revés para o governo com a digital do presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Lula avalia reenviar a indicação, mas a estratégia gera debate interno do ponto de vista político e jurídico. Pela sua proximidade com o segmento — ele frequenta a Igreja Batista desde a infância —, o chefe da AGU recebeu o apoio na empreitada de bispos com milhares de fiéis em suas congregações. Parte deles reforçaram, inclusive, o corpo a corpo final com os senadores antes da derrota histórica. Outro entusiasta da entrada de Messias na Corte era André Mendonça, ministro do STF indicado por Bolsonaro sob a credencial de "terrivelmente evangélico". Reencontro entre Flávio e Tarcísio A edição marca ainda o reencontro entre Flávio e Tarcísio após a operação da Polícia Civil de São Paulo contra Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora de "Dark Horse", filme que enaltece a trajetória política de Jair Bolsonaro misturando fatos com ficção. O governador fez um breve discurso no meio da caminhada em que declarou que "São Paulo é do Senhor Jesus Cristo". A maior parte do público celebrou a fala, inclusive Hernandes. Mas a reportagem também viu um homem protestar contra a participação dele e de Flávio. Nunes falou a seguir, mantendo o protocolo e sem direcionamento político explícito. A polícia investiga se, no contrato de R$ 157 milhões da prefeitura de São Paulo com a ONG Instituto Conhecer Brasil, presidida por ela, para instalação de pontos de wi-fi na capital, houve direcionamento de licitação, sobrepreço e desvio de dinheiro público para a obra. Segundo apurou o GLOBO, a operação provocou incômodo nos bastidores da direita. Além de trazer de volta à pauta as polêmicas sobre "Dark Horse", que envolvem ainda uma contribuição de R$ 61 milhões do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a pedido de Flávio Bolsonaro, a ação da polícia mirou a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), responsável pelo contrato com o ICB. Nunes também participa do evento desta quinta, como costuma ocorrer todos os anos. – A operação da polícia é uma coisa que a gente não interfere. A polícia tem autonomia para fazer as suas investigações e operações. Havia uma investigação em curso, uma demanda do Ministério Público, e a polícia cumpriu essa demanda. Sempre vai ser assim. A polícia vai ser e sempre será uma instituição de Estado — afirmou Tarcísio, depois do episódio. Um dia antes, Flávio alegou que a investigação não diz respeito ao filme, o que ainda não foi descartado pela polícia: — Eu só não quero crer que a gente está sendo vítima, mais uma vez, de uma pescaria probatória, de uma perseguição, porque, se vão fazer uma operação para investigar irregularidades em um determinado contrato, que é de um ano e meio, dois anos para trás, tudo bem, as pessoas vão ter que explicar, o que não tem absolutamente nada a ver com o filme — declarou o filho de Bolsonaro. Até o fim da semana passada, o entorno de Flávio dava como certa a ausência do senador na Marcha para Jesus de São Paulo, assim como ocorreu na edição do Rio de Janeiro. A mudança nos planos ocorreu após o anúncio, pelos Estados Unidos, da classificação do PCC e Comando Vermelho como organização terrorista, uma das bandeiras de Flávio e uma das tentativas de sua campanha para "virar a chave" e mudar a agenda. Nas últimas semanas, após a divulgação da visita de Flávio a Vorcaro, ocorreu uma espécie de "guerra fria" entre os núcleos de Flávio e Tarcísio. De um lado, o governador reforçou o distanciamento estratégico da campanha do aliado com receio de se "contaminar" com "encrencas de terceiros", nas palavras de um aliado. A postura deu resultado perante a opinião pública, segundo avaliações internas, mas gerou novos focos de reclamação no grupo bolsonarista. Do outro lado, segundo um amigo do senador que também é próximo do governador, o entorno de Flávio ficou incomodado com a falta de apoio do Tarcísio no caso. Viram nas falas de Tarcísio, nas últimas semanas, um “zagueiro que chuta a bola para a torcida, em vez de tocá-la e segurar o jogo”. Eles não vinham se falando desde o evento de lançamento da campanha ao Senado do deputado federal Guilherme Derrite (PP), no dia 15 de maio, por falta de iniciativa de ambos. Ainda assim, a perspectiva das duas campanhas é de que essa distância seja pelo menos encurtada com o início oficial do período eleitoral — e Tarcísio cumpra a promessa pública de organizar o palanque do senador contra Lula em território paulista. 33,8 mil pessoas A Marcha para Jesus chega à 34ª edição em São Paulo. Considerado o maior evento evangélico do país, adota um versículo bíblico como lema e projeta a participação de 2 milhões de pessoas na caminhada de três quilômetros entre o Metrô da Luz até a Praça Heróis da FEB, próxima do Campo de Marte, acompanhada por oito trios elétricos. Após os discursos de autoridades, uma série de shows de artistas gospel, como Aline Barros e Thalles Roberto, ocorrem até o anoitecer. Com a presença de líderes religiosos e dos políticos, a edição deste ano reuniu um público de 33,8 mil pessoas (+-4 mil pessoas) nesta quinta-feira, estimam o Monitor do Debate Político da USP/CEBRAP e a ONG More in Common. Como a margem de erro é de 12%, isso quer dizer que havia entre 29,8 mil e 37,8 mil participantes às 10h20, horário de pico entre a concentração e o deslocamento. O evento começou por volta das 10h na estação da Luz, no Centro. O percurso tem cerca de 3,5 quilômetros e conta com oito trios elétricos. O destino final é a Praça Heróis da Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Zona Norte da capital, onde serão feitas apresentações de artistas da música gospel até as 21h.