Adaptação do longa de 1982, espetáculo tem direção de Charles Möeller e Cláudio Botelho Alessandra Verney e Miguel Falabella em cena durante ensaio de 'Victor e Victoria', no Teatro Claro — Foto: Dan Coelho / Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A trama se passa na Paris dos anos 1930, em meio à crise econômica. A história acompanha uma cantora lírica desempregada que se disfarça de homem para conseguir trabalho. Com direção de Cláudio Botelho, o espetáculo em Copacabana traz Miguel Falabella e Junno Andrade no elenco. Esta é a segunda montagem brasileira do clássico musical. Detentora dos direitos autorais, a estrela britânica Julie Andrews exige avaliar pessoalmente os currículos e as audições. A aprovação de Alessandra Verney levou três meses. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Passados les années folles — “os anos loucos”, na tradução — da década de 1920, quando a capital francesa se tornou centro da vanguarda artística, Paris ainda era uma festa no começo dos anos 1930. Os cabarés explodiam numa noite interminável, mesmo com uma baita ressaca econômica causada especialmente pela Grande Depressão de 1929. É neste contexto que se desenvolve a trama de “Victor ou Victoria”, musical de Charles Möeller e Cláudio Botelho que estreia hoje no Teatro Claro, em Copacabana. O espetáculo, que tem Miguel Falabella, Alessandra Verney e Junno Andrade nos papéis principais, é uma adaptação do clássico homônimo do cinema, de 1982, estrelado por Julie Andrews. Um musical com cara de musical. Espécie de remake de um filme alemão de 1933, o longa americano dirigido por Blake Edwards (1922-2010), então marido de Andrews, põe a lendária estrela de “Mary Poppins” e “A noviça rebelde” no papel de Victoria Grant, uma soprano decadente que busca emprego pela noite parisiense. Seu caminho se cruza com o de Toddy (Robert Preston), outro cantor boêmio, que lhe acolhe e propõe uma ideia: que ela se finja de homem, mas um homem que se finge de mulher para cantar. Nasce ali a persona do Conde Victor Grazinski, um performer polonês que rouba a cena, agenciado por Toddy. As coisas se embolam quando Victoria se apaixona pelo mafioso Rei Marchand (James Garner). Julie Andrews (centro), James Garner (esq) e Robert Preston (dir) no filme 'Victor ou Victoria', de Blake Edwards — Foto: Divulgação ‘She is perfect’ Esta é a segunda montagem de “Victor ou Victoria” para o teatro no Brasil — a primeira foi em 2001, com Marília Pêra no papel principal, direção de Jorge Takla e adaptação de Cláudio Botelho. Antes disso, já havia sido sucesso na Broadway, num retorno triunfal de Julie Andrews aos palcos em 1995, também sob a batuta de Blake Edwards. Andrews adquiriu os direitos do show, de modo que, em qualquer lugar do mundo, quem quiser montar “Victor ou Victoria” deve passar pelo crivo da atriz britânica, que está com 90 anos. Assim se deu com Cláudio Botelho, à frente da nova montagem que estreia hoje. — Muita gente não volta, mas Julie Andrews começou no teatro, foi para o cinema, e depois voltou para o teatro — diz ao GLOBO, por telefone, o diretor. — E essa peça foi tão importante que ela virou dona do show. Ela tem que aprovar pessoalmente o currículo dos diretores e a atriz que pretende fazer Victoria Grant. Gravamos em estúdio duas músicas com a Alessandra Verney e mandamos. Passaram uns três meses e eu fui ficando agoniado. Eis que, enfim, chega uma resposta, um recado fofo da Julie Andrews: “She is perfect”. Alessandra Verney e Maria Clara Gueiros: 'A boa coxia se reflete no palco', elogia Miguel Falabella — Foto: Dan Coelho / Divulgação Gaúcha de Santa Maria, atriz experiente, sobretudo em musicais, Alessandra Verney, 51 anos, diz que “sempre quis fazer o papel” (ou os papéis) de Victoria. Botelho, por sua vez, que deu à Alessandra sua estreia no teatro em “O abre alas”, em 1998, não tinha outra opção, diz que não houve testes, que era ela desde o início — “Eu só faria com a Alessandra, é a única que conseguiria”). Mas o sinal verde da diva era mais que uma aprovação, foi um presente extraordinário. — Quando disseram que ela ouviria, eu quase morri. Deu um friozinho na barriga (risos), meu Deus, isso é um diploma de faculdade. Mas a gravação ficou boa, fizemos muito bem. Lembro que eram 5h da manhã quando chegou o e-mail pro Cláudio com a aprovação da Julie Andrews, ele me ligou na hora, eu estava dormindo. Não acreditei, foi uma festa — relembra Verney. O dilema de Victoria Muito nova à época do lançamento do longa, ela tem uma memória fresca de quando a mãe voltou encantada com aquela comédia depois de vê-la no cinema, em Porto Alegre. Verney só foi assistir uns dois anos depois, na televisão. — Hoje, como adulta, vejo o quanto o filme já era moderno. E sem falar nas músicas (a trilha sonora do longa é assinada por Henry Mancini, um dos maiores compositores da história de Hollywood). A Victoria não é um personagem cômico. Ela se envolve em situações cômicas, mas ela não é a comédia em si. É um pouco atrapalhada, muito autêntica, fala o que pensa. E tem uma força de querer se impor como mulher. Ela fala que conseguiu ser estrela sendo homem, e é difícil abrir mão disso, vira o dilema dela. Além da dualidade vivida pela protagonista, há outros temas compreendidos na trama de “Victor ou Victoria”. O drama de ser artista, que persiste até hoje, com tantas nuances, reflexões sobre identidade, gênero, liberdade, preconceito. Tudo amarrado numa comédia que, diz o diretor, não está ali pra levantar bandeira. — Não é uma peça panfletária. É uma peça sobre identidade, mas uma identidade sob um ponto de vista do lato sensu da palavra, mais do que do cunho sexual. É o que eu sou para fora, não o que eu sou para dentro, porque dentro de mim não dá para mudar. É uma peça muito esperta — resume Botelho, sublinhando, ainda, outro ponto de vista. — Victoria é acolhida por esse cara, o Toddy (vivido por Falabella no musical). E temos aí outro ponto interessante, que é o gay que acolhe a diva. Os fãs da Judy Garland, pra citar um exemplo, foram as pessoas que abrigaram a Judy, uma das mulheres mais importantes da história do cinema e que acabou seus dias morando de favor em casa de amigos gays. Aqui no Brasil, lembro de visitar Emilinha Borba, que foi rainha do rádio, morando em Copacabana. Eram seus fãs gays que faziam almoço, cuidavam da casa dela. Isso é uma coisa que não se fala e que é muito tocante: o amor que os gays têm pelas suas divas. Especialmente os gays da minha geração, eu tenho 60 anos. E não são as divas que adotam os gays, são os gays que adotam elas. É uma coisa muito nossa, não sei se acontece isso com fãs de Guns N’ Roses, por exemplo. Acho que passa pela ligação que gays tem com a mãe. A mãe é a primeira a saber, é quem acolhe. Falabella: 'É um personagem que tem muito meu registro' — Foto: Dan Coelho / Divulgação Miguel Falabella, 69 anos, tem também suas definições. Amigo de longa data do diretor, não o deixou terminar de falar quando recebeu seu telefonema, e foi logo dizendo que queria fazer o papel de Toddy quando Botelho iniciou a conversa com a ideia de montar “Victor ou Victoria”. — Fui duas vezes ao cinema quando lançou, fiquei fascinado com a história, com a brincadeira. Uma época que não se falava de diversidade. É um filme que brinca com essa coisa de ser quem você não é, de parecer outra coisa, do que você imagina não ser a realidade. E aí é um dominó de pessoas que vão ficando afetadas por aquela mudança da personagem principal. Muito interessante, engraçado — diz o ator. Falabella está se sentindo em casa. Elogia seus colegas, diz que acredita “num clima solar” de trabalho e que a “coxia acaba se refletindo no palco”. — Quando temos um camarim risonho, feliz, tudo se resolve — afirma o veterano cujo papel, ele reflete, tem lhe vestido muito bem. — É um personagem que tem muito meu registro. A tessitura das canções é muito pra mim, um barítono encorpado, tom da minha voz natural. Um personagem muito divertido, um homem da noite parisiense. O público vai me reconhecer. Eu estou no meu ambiente, no gênero que eu mais gosto, que é musical, num personagem que me cabe perfeitamente. Serviço Onde: Teatro Claro Mais, Copacabana.Quando: de 4 a 28 de junho.Que horas: qui e sex, às 20h. Sáb, às 16h e às 20h. Dom, às 15h e às 19h. Devido aos jogos da Copa do Mundo, as sessões dos dias 13 e 18 de junho serão realocadas para os dias 11, 18 e 25 de junho às 16h.Quanto: de R$ 50 (balcão) a R$ 450 (plateia vip).Classificação: 12 anos.