A ministra do Interior britânica, Shabana Mahmood, descreveu como “completamente inaceitáveis” os protestos violentos que eclodiram devido ao caso de um jovem de 18 anos que foi algemado enquanto agonizava, depois de o seu assassino ter alegado falsamente que se tratava de um ataque racista.O homicídio do estudante Henry Nowak, no ano passado, tem dominado as manchetes no Reino Unido desde a condenação de Vickrum Digwa, um homem sikh de 23 anos, na segunda-feira, e a revelação de imagens de agentes a ignorarem a agonia de Nowak desencadeou uma tempestade política sobre a forma como a polícia trata diferentes etnias.Os chefes da polícia afirmaram que iriam rever as directrizes que foram elaboradas em resposta a incidentes bem documentados de racismo no policiamento, enquanto o Governo negou que as minorias étnicas recebessem tratamento favorável, um tema muito debatido online. “Não pode haver justificação para aproveitar esta tragédia para incitar à violência e à desordem”, afirmou Mahmood, depois de manifestantes terem entrado em confronto com a polícia, nesta terça-feira à noite, na cidade portuária de Southampton, perto do local onde Nowak foi morto, o que resultou em 11 agentes feridos.Está previsto um novo protesto em frente ao parlamento, em Londres, durante a tarde desta quarta-feira. A família de Nowak classificou o tratamento que lhe foi dispensado pela polícia como “desumano e degradante”, mas afirmou, após a sentença, que a morte do jovem não deveria ser “utilizada para criar mais divisão, ódio ou tensão”.Especialistas em medicina legal concluíram que Nowak, que foi algemado pelos agentes enquanto agonizava, teria morrido devido aos ferimentos no local, independentemente da resposta de emergência. Mais tarde, os agentes chamaram uma ambulância e realizaram manobras de reanimação.Indignação em todo o Reino UnidoElon Musk, o multimilionário sul-africano, naturalizado canadiano e norte-americano, que é um crítico do Governo britânico, da polícia e das políticas anti-racistas e de diversidade, tem publicado repetidamente sobre o caso, afirmando na terça-feira: “Sabiam que a política oficial da polícia exige que sejam racistas contra os brancos?”Musk, que anteriormente apoiava Nigel Farage, o líder populista do Reform UK anti-imigração, apoia agora o partido Restore Britain, de extrema-direita, o que poderá retirar alguns votos ao Reform UK nas eleições locais no final deste mês.Farage apelou a uma “raiva pura e fria” pelo assassínio de Nowak, levando Kemi Badenoch, líder do principal partido da oposição, o Partido Conservador, a acusá-lo de “fomentar” tensões ao “dividir as pessoas com base em critérios raciais”.Nos últimos anos, o líder do Reform UK, Musk e outros têm argumentado que os esforços para promover a diversidade, a equidade e a inclusão em instituições como a polícia criaram um sistema a duas velocidades, em que o medo de ser chamado de racista levou a que as minorias étnicas recebessem maior protecção do que os outros.Mahmood afirmou na terça-feira que todos são iguais perante a lei e exortou as pessoas a aguardarem o resultado de uma investigação independente sobre o incidente que envolveu Nowak. Mas o Conselho Nacional de Chefes de Polícia afirmou que já estava a rever as orientações, que, ao abrigo do Plano de Acção da Polícia contra o Racismo, aconselham os agentes a não serem “daltónicos” na sua abordagem e a tratarem as etnias de forma diferenciada. “É correcto que seja revisto”, disse a ministra da Polícia, Sarah Jones, à Sky News, acrescentando que, na sua forma actual, o documento estava “errado”.As directrizes foram estabelecidas após uma revisão, em 2023, da maior força policial do país, a Polícia Metropolitana de Londres, ter concluído que o racismo continuava enraizado nas suas fileiras, décadas depois de um relatório de 1999 ter concluído que era institucionalmente racista. A Polícia de Hampshire pediu desculpa pela forma como lidou com a morte de Nowak. Um agente demitiu-se e esse agente, juntamente com outros três, estava a ser tratado como testemunha na investigação.No ataque de Dezembro passado, o agressor de Nowak, Vickrum Digwa, mentiu à polícia, dizendo que Nowak o tinha insultado racialmente e agredido durante uma breve altercação na rua.Nas imagens de câmara da polícia, Nowak é visto deitado na rua a dizer “Fui esfaqueado” e “Não consigo respirar” enquanto é algemado, ao que um agente responde “Não me parece que tenhas sido, amigo”.Digwa foi condenado a prisão perpétua na segunda-feira. Farage, cujo partido lidera as sondagens, tentou estabelecer paralelos com o homicídio de George Floyd em 2020 nos EUA, que desencadeou o movimento Black Lives Matter, contrastando-o com o que, segundo ele, tinha sido uma resposta moderada à morte de Nowak.Floyd tinha dito “Não consigo respirar” enquanto um agente da polícia se ajoelhava sobre o seu pescoço durante vários minutos. No protesto de terça-feira, centenas de manifestantes seguravam cartazes com as frases “Não consigo respirar” e “Todas as vidas importam”. Garrafas e armas improvisadas foram atiradas contra a polícia, que deteve duas pessoas e afirmou que mais detenções se seguiriam.“Estamos aqui apenas para mostrar o nosso respeito pelo rapaz a quem foi tirada a vida tão cedo”, disse Barry Cox, um trabalhador de uma refinaria de petróleo. “Parece que neste país há sempre uma polícia a duas velocidades. Todos nós, bem, estamos fartos disto, já chega.”
Ministra do Interior britânica condena protestos por morte de estudante algemado
Centenas protestaram em Southampton na terça-feira, numa altura em que a polícia enfrenta reacções negativas após o tratamento dado ao caso do assassínio de Henry Nowak.






