A proposta do Escritório de Comércio dos Estados Unidos de taxar as vendas brasileiras ao país em 25%, anunciada nesta madrugada, provavelmente não está diretamente vinculada à visita do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na terça-feira passada, como também não estava a decisão de quinta-feira de declarar Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC) organizações terroristas. Flávio tem canais na Casa Branca, soube do movimento a respeito das facções com antecedência e teve portas abertas no governo americano para viajar a Washington e procurar capitalizar o movimento. Foi uma ajuda americana para virar o debate pré-eleitoral, até então marcado pela discussão de seu envolvimento com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Mas Donald Trump é uma variável que ninguém controla, e havia o risco de o presidente americano dar uma oportunidade política com uma mão e enfiar uma granada de risco eleitoral no bolso com a outra, e foi o que aconteceu. Uma ofensiva da Casa Branca contra a economia brasileira por uma tão grande gama de motivos, sendo um deles o Pix, uma unanimidade nacional, é totalmente tóxica para Flávio. Leia mais: A narrativa de que o senador trabalhou contra o país ao viajar aos Estados Unidos na semana passada é um filão óbvio a ser explorado pela campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição. O presidente também conta com uma vantagem: a partir do processo negocial que se abre agora com os Estados Unidos, todos os eventuais avanços que o Brasil obtenha serão creditados ao seu governo. Como se deu durante a crise do tarifaço do ano passado. Entre julho e outubro de 2025, a popularidade de Lula se recuperou diante de um embate contra a Casa Branca. A crise de 2025 cristalizou no imaginário da opinião pública a visão de Donald Trump como uma ameaça aos interesses nacionais. Por tabela, quebrou um dos eixos discursivos do bolsonarismo, o do patriotismo. Depois de muitos anos de apropriação pela direita, a esquerda pôde se vestir de verde e amarelo. Se o conflito com a Casa Branca envolver de fato uma ameaça ao Pix, o efeito negativo na campanha de Flávio será bastante profundo. O pré-candidato presidencial chegou a posar há alguns meses com uma camiseta onde se podia ler: "O Pix é de Bolsonaro, o Master é de Lula". A peça foi envergada em maio, durante a Agrishow de Ribeirão Preto (SP). Essa imagem poderá nos próximos meses se constituir em um dos maiores efeitos bumerangue da história política brasileira.
Análise: Novo tarifaço de Trump deve desfazer ajuda a Flávio Bolsonaro com visita à Casa Branca
Havia risco de presidente americano dar uma oportunidade política com uma mão e enfiar uma granada de risco eleitoral no bolso com a outra, e foi o que aconteceu












