Gerando resumoO outsider e admirador de Nayib Bukele Abelardo de la Espriella surpreendeu ao terminar em primeiro lugar nas eleições presidenciais da Colômbia do último domingo, 31. Agora, ele vai ao 2º turno contra o esquerdista Iván Cepeda, herdeiro do presidente Gustavo Petro. PUBLICIDADECom este resultado, De la Espriella arranca como favorito para o segundo turno, em 21 de junho, com maiores chances de vitória, segundo avalia Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Unifesp, em um bate-papo com o Estadão. Para isso, o candidato conta com a insatisfação popular com a política tradicional, o medo à violência e seu alinhamento a Donald Trump.De la Espriella, do movimento Defensores da Pátria, alcançou 43,7% dos votos com mais de 10 milhões de eleitores, contra 40,9% (9,6 milhões) de Cepeda. Paloma Valencia, que disputava a vaga da direita contra o outsider, acabou amargando um resultado pífio, com 1,6 milhão de votos, menos de 7%.O candidato presidencial da Colômbia Abelardo de la Espriella, do movimento Defensores da Pátria Foto: RODRIGO BUENDIA/AFPO resultado surpreendeu porque foi muito diferente de qualquer pesquisa de intenção de votos. Todas as sondagens davam vantagem para Cepeda, com algumas chegando a apontar distâncias de quase 10 pontos percentuais entre ele e o segundo colocado. Quem mais se aproximou do resultado de domingo foi a consultoria brasileira Atlas Intel, publicada pela revista Semana, que projetou uma diferença de 3 pontos percentuais a favor de Cepeda.PublicidadeSegundo Regiane Bressan, há tanto o contexto doméstico quanto o internacional explicam os resultados de domingo. “O que aconteceu na Colômbia se repetiu na Argentina em 2023, quando Javier Milei, um candidato com pouca experiência política e pouca voz no Congresso argentino, já saiu liderando as primárias. Ele saiu vitorioso ao catalisar os votos da população que está muita vezes cansada, descontente e sem acreditar nos partidos tradicionais”.A Argentina também saía, em 2023, de um governo liderado pela esquerda de Alberto Fernández e Cristina Kirchner. A decepção com os resultados econômicos do kirchnerismo impulsionou o libertário Milei. No Chile, a decepção com a esquerda de Gabriel Boric também favoreceu o conservador José Antonio Kast. A região como um todo vive uma guinada à direita nos últimos ciclos eleitorais. “A população latino-americana está muito descontente e descrente das instituições democráticas”, observa Bressan. “Isso dá muita chances não apenas a candidatos de um novo espectro ideológico, mas também a candidatos que flertam em seus discursos com o autoritarismo.”O candidato presidencial da Colômbia Iván Cepeda, do partido Pacto Histórico Foto: LUIS ACOSTA/AFPA Colômbia dava sinais de seguir um caminho diferente, já que Petro vivia um repique de popularidade após políticas sociais eleitoreiras, como aumento do salário mínimo. Contudo, segundo a professora, os baixos resultados econômicos junto com um aumento da violência afetam as chances de Cepeda de ser seu sucessor.PublicidadePetro foi eleito sob a bandeira da Paz Total, cujo idealizador foi justamente Iván Cepeda. A ideia era expandir os acordos de paz com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) aos outros grupos armados. Passados quase quatro anos, o plano é considerado um fracasso, com o aumento da violência e maior fragmentação dos grupos armados.Em resposta, De la Espriella promete tirar a Colômbia do caminho das negociações e retomar a estratégia linha-dura. Para isso, o candidato se inspira em Nayib Bukele, presidente de El-Salvador, ao prometer construir 10 prisões de segurança-máxima.O governo esperava ter vantagem nos municípios considerados de alto risco de violência onde havia ainda negociações em andamento. Os dados da Defensoria, contudo, mostraram que Abelardo de la Espriella e até Paloma Valencia receberam mais votos nesses 147 municípios que Cepeda.“Parte da população que sofre com a violência dos grupos revolucionários e dos paramilitares quer não apenas reconquistar uma ascensão econômica, mas também pensa muito na questão da segurança doméstica. Isso deu bastante margem para que o candidato Abelardo de la Espriella saísse como vitorioso no primeiro turno das eleições colombianas”, completa a professora.PublicidadeOs votos para o 2º turnoPUBLICIDADEExiste espaço para crescimento para ambos os candidatos, especialmente considerando que 42% da população não foi votar neste primeiro turno. O voto na Colômbia é facultativo. A participação de 58% foi um recorde dos últimos anos. Quase 24 milhões de pessoas saíram a votar das mais de 41 milhões habilitadas.Contudo, só De la Espriella e Cepeda concentraram 85% dos votos, protagonizando a eleição mais polarizada até aqui. O que sinaliza que há pouco espaço para capturar votos dos adversários derrotados. Com isso, os votos ausentes do primeiro turno podem ser determinantes.“Como o voto na Colômbia é facultativo, vai depender muito de como as diferentes forças vão atuar para convencer o eleitor a ir às urnas, porque o eleitor pode optar por ficar em casa devido à sua grande descrença [na política]”, afirma Bressan.Deve haver muito esforço nessas próximas três semanas. Vai ser uma campanha bastante agressiva e, mimetizando o que foi na Argentina, no Chile e em El Salvador, Abelardo de La Espriella tende a ser o vitorioso em 21 de junho. Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da UnifespEm 2022, a mobilização foi fundamental para a vitória de Gustavo Petro contra o também outsider e empresário Rodolfo Hernández. Cerca de 2 milhões de pessoas a mais foram votar de um turno a outro naquele ano, o exato número de crescimento de votos de Petro.PublicidadeIván Cepeda, porém, pode ter dado um tiro no pé na estratégia de mobilizar o eleitorado ausente quando, na noite de domingo, decidiu não reconhecer os resultados da contagem rápida. O candidato imitou o presidente Gustavo Petro, conhecido por ser impulsivo nas palavras. Ambos lançaram dúvidas sobre o processo eleitoral e disseram esperar o resultado da contagem oficial. É incerto o efeito que esta decisão terá sobre o eleitorado moderado.Também está em aberto o comportamento de Donald Trump nesta disputa. Em outros países do continente onde a direita radical esteve em disputa com a esquerda, como Argentina e Honduras, o americano foi determinante ao manifestar preferência. A Colômbia é um país de maior importância para os Estados Unidos, considerando a política de combate ao narcotráfico de Trump. “Entendo que tem muitas chances do governo Trump, nessas próximas três semanas, vir a apoiar o candidato Abelardo de la Espriella, o que ajudaria ainda mais na sua vitória”, opina Bressan.O fracasso do uribismo Além do governo Petro, o primeiro de esquerda da história do país, esteve em plebiscito neste pleito o futuro da direita tradicional do país. Paloma Valencia era a candidata do uribismo, movimento conservador liderado pelo ex-presidente Álvaro Uribe.PublicidadeDepois de ser um fenômeno, com Uribe sendo eleito e reeleito em primeiro turno - a ponto da reeleição ser proibida no país após ele - o uribismo ficou de fora do 2º turno nas duas últimas eleições. A derrota de domingo, no entanto, foi mais dolorida que de 2022.O ex-presidente Álvaro Uribe vota em Medellín acompanhado da candidata Paloma Valencia Foto: JAIME SALDARRIAGA/AFPEsta foi a primeira eleição em que não houve um terceiro candidato competitivo em 20 anos, quando Uribe saiu da presidência. Em 2022, o uribista Federico “Fico” Gutiérrez não avançou ao segundo turno, mas ficou apenas 5 pontos percentuais de avançar. Desta vez, a diferença entre o segundo e a terceira colocada foi de mais de 30 pontos.Valencia chegou a perder voto neste pleito em comparação com as primárias realizada entre os partidos de direita e centro. Chamada de Gran Consulta por Colombia, a candidata recebeu 83% dos votos em cima de nove adversários. Desses, cerca de 70% foram capturados por De la Espriella no primeiro turno.“Os dados da Cepal e da ONU já apontam há alguns anos que a população latino-americana prefere muitas vezes governos autoritários que resolvam o problema econômico que a democracia. Todo esse contexto só aumenta a descrença e a fragilidade das estruturas institucionais democráticas e isso enfraquece os partidos de centro e tradicionais”, afirma Regiane Bressan.Publicidade