O Irã está defendendo um acordo provisório e limitado com os Estados Unidos como forma de aliviar a crescente pressão econômica e estabilizar a situação interna, de modo a evitar, ao mesmo tempo, concessões significativas em seu programa nuclear, segundo fontes e analistas. A estratégia reflete uma prática recorrente da República Islâmica: absorver pressões, evitar compromissos irreversíveis e manter as negociações em andamento sem alterar posições centrais, disseram três fontes iranianas próximas aos tomadores de decisão. Mas a atual ofensiva diplomática também é motivada por preocupações mais imediatas. Autoridades veem um acordo restrito como uma forma de ganhar tempo, obter alívio financeiro e conter riscos domésticos crescentes decorrentes da deterioração econômica, sem enfrentar as questões mais controversas da negociação. As movimentações diplomáticas ocorrem após semanas de escalada, iniciadas quando ataques dos EUA e de Israel, no fim de fevereiro, evoluíram para um conflito regional mais amplo. As ações iranianas no Golfo elevaram os temores sobre a segurança do Estreito de Ormuz, passagem estratégica por onde transita cerca de um quinto da oferta mundial de petróleo e gás natural liquefeito. Três meses depois, e apesar de um cessar-fogo frágil firmado no início de abril, o conflito entrou em um impasse. Um bloqueio americano aos portos iranianos e o controle exercido por Teerã sobre o estreito mantiveram a pressão mútua, elevando os custos econômicos sem eliminar o risco de novos confrontos. Diante desse cenário, ambos os lados reduziram as expectativas de um acordo abrangente. Em vez disso, exploram o que autoridades descrevem como um memorando temporário — na prática, um acordo interino — destinado a evitar o retorno do conflito aberto enquanto adia disputas centrais relacionadas ao programa nuclear iraniano. Teerã busca espaço para respirar Para Teerã, esse tipo de entendimento é, acima de tudo, uma forma de converter pressão militar e econômica em liquidez, margem de manobra e desescalada, sem restringir atividades nucleares consideradas sensíveis. O Irã busca o fim das hostilidades em todas as frentes, incluindo o Líbano, acesso a bilhões de dólares em receitas do petróleo, flexibilização das restrições às exportações de petróleo bruto, suspensão do bloqueio americano aos portos e manutenção de sua influência sobre o Estreito de Ormuz, enquanto posterga decisões sobre os temas mais controversos. O modelo em discussão se concentraria em um alívio temporário das restrições e em acesso gradual à hidrovia, deixando sem solução questões relacionadas à capacidade de enriquecimento de urânio e ao estoque iraniano de material altamente enriquecido, incluindo urânio enriquecido a 60%. Alex Vatanka, pesquisador sênior do Middle East Institute, em Washington, afirmou que os cálculos de Teerã são moldados menos pelos riscos militares do que pela pressão econômica e pela incerteza. “Os líderes iranianos entendem que o tempo não está necessariamente a seu favor. A avaliação deles parece ser a de que o diálogo, mesmo limitado, é preferível a entrar em um período indefinido de desgaste econômico e incerteza, que poderia enfraquecer gradualmente sua capacidade de governar internamente e projetar influência no exterior”, disse. Pessoas caminham em frente a um outdoor com a imagem de cidadãos iranianos , em Teerã, Irã , 25 de maio de 2026 — Foto: Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS Temor de novos protestos Muito depende do sucesso das negociações. O presidente Donald Trump enfrenta pressão para reabrir o Estreito de Ormuz e conter os preços dos combustíveis nos EUA, ao mesmo tempo em que tenta neutralizar críticas de setores mais duros do Partido Republicano contrários a concessões ao Irã. A liderança iraniana também enfrenta pressões domésticas. Anos de sanções, má gestão econômica e conflitos alimentaram a inflação, a desvalorização da moeda e uma forte queda no padrão de vida da população. Segundo as fontes, entradas de recursos financeiros no curto prazo são cruciais para o interesse de Teerã em um acordo preliminar, pois ajudariam a manter a economia funcionando, aliviar pressões imediatas e evitar uma nova onda de instabilidade social. Em janeiro, o establishment clerical iraniano e a Guarda Revolucionária mataram milhares de pessoas ao reprimir protestos nacionais motivados por queixas econômicas. Hamidreza Azizi, pesquisador visitante do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP), em Berlim, afirmou que um memorando também poderia responder a preocupações crescentes sobre a resiliência de longo prazo do sistema político iraniano. “Ao encerrar o conflito, reduzir a pressão econômica, remover a pressão militar americana ao redor do Irã e criar espaço para reconstrução, um memorando pode ajudar a evitar uma erosão gradual da capacidade estatal e da governança”, disse. Ormuz continua sendo principal trunfo O Estreito de Ormuz permanece no centro da capacidade de pressão do Irã. Dentro do establishment clerical, ele é visto cada vez menos como uma moeda de troca e mais como um ativo estratégico duradouro. Segundo as fontes, qualquer acordo que restabeleça a navegação enquanto preserva essa influência manteria intacto o poder de Teerã sobre a passagem marítima, permitindo a retomada dos fluxos comerciais sem desvincular a estabilidade da negociação política. Uma das fontes afirmou que um acordo limitado restauraria, na prática, as condições existentes antes da guerra sem obrigar o Irã a ceder às exigências de Washington. “Com o início da guerra, Trump deu ao Irã o presente do controle sobre o Estreito de Ormuz”, disse a fonte. Embarcações no Estreito de Ormuz são visíveis perto da praia de Bandar Abbas, Irã, em 31 de maio de 2026. — Foto: Amirhosein Khorgooi/ISNA/WANA (Agência de Notícias da Ásia Ocidental) via REUTERS