Um estudo que incluiu um cientista da Universidade do Minho pede prudência na introdução de vida fora da Terra, alertando que a colonização biológica pode ameaçar outros planetas. “A colonização espacial pode desencadear invasões biológicas irreversíveis, caso microrganismos, plantas ou animais introduzidos pelo ser humano escapem ao controlo”, indica a universidade em comunicado.“A introdução de espécies da Terra em corpos extraterrestres (designada terraformação) é um evento de invasão potencialmente imprevisível”, avisa Ronaldo Sousa, investigador do Centro de Biologia Molecular e Ambiental da Escola de Ciências da Universidade do Minho, que integra a equipa internacional que desenvolveu o estudo.“A presença prolongada na Lua ou em Marte pode contribuir para a sobrevivência da humanidade a longo prazo, mas também pode alterar esses ecossistemas”, considera o cientista. “Devemos evitar criar as primeiras espécies invasoras interplanetárias e repetir erros ecológicos cometidos na Terra”, diz.Os investigadores defendem que a colonização espacial deve ser regulada, “com princípios similares ao combate a espécies invasoras na Terra”. O objectivo é “antecipar riscos ambientais, éticos e evolutivos, evitando que passem da ficção científica para a realidade”, sinaliza o estudo.Ronaldo Sousa dá o exemplo da “introdução nefasta de coelhos e raposas na Austrália em 1859 e, noutro caso, o acidente do módulo lunar israelita Beresheet em 2019, que terá libertado na Lua milhares de minúsculos tardígrados (também conhecidos por ursos-d'água e que são altamente resistentes à temperatura, radiação e desidratação)”.“As missões espaciais estão no centro do debate político e científico, pelo que importa falarmos também da terraformação, que traz riscos profundos de desestabilização de ecossistemas emergentes”, observa.O estudo, em co-autoria com Teun Everts (Bélgica) e Phillip Haubrock (Reino Unido), publicado na revista Oikos, encara a terraformação “como uma forma de introdução biológica mediada por humanos e não apenas como engenharia planetária”. Os autores defendem “a rápida regulação da introdução deliberada da vida fora da Terra, para se evitar a reprodução de padrões históricos de exploração e desigualdade”. Sugerem também “a criação de entidades globais de governação robustas e a colaboração interdisciplinar entre biólogos, astrobiólogos, especialistas em ética e decisores políticos”.Entre os possíveis organismos pioneiros para terraformação, o estudo “analisa fungos resistentes à radiação, cianobactérias, microrganismos metanogénicos e organismos sintéticos, devido ao seu potencial de formar solos, produzir oxigénio ou alterar a atmosfera”. Os cientistas avisam que esses organismos “podem gerar subprodutos tóxicos em ambientes extraterrestres com recursos limitados”.“A ciência das invasões fornece décadas de conhecimento sobre prevenção, detecção precoce, avaliação de impactos e gestão de espécies introduzidas”, observa o cientista da Universidade do Minho. O futuro desta área “depende não só da tecnologia, mas também da capacidade de aprender com erros ecológicos do passado e agir de forma responsável em novos contextos planetários”, acrescenta.
Cientista alerta que introduzir vida fora da Terra pode ameaçar outros planetas
“A presença prolongada na Lua ou em Marte pode contribuir para a sobrevivência da humanidade a longo prazo, mas também pode alterar esses ecossistemas”, considera cientista da Universidade do Minho.














