A obra é uma conversa entre dois amigos sobre as alegrias e dores da vida L'età sperimentale — Foto: Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/05/2026 - 18:43 Reflexões sobre Envelhecer: Diálogos entre Alegrias e Desafios "L’età sperimentale" é um livro que aborda a chegada da velhice, escrito por Inès de la Fressange e Erri De Luca. A obra é uma conversa sobre as alegrias e dores do envelhecer, desafiando a sociedade a enfrentar temas como a solidão e os desejos de mulheres maduras. Defende a simplicidade e a bondade como formas de viver bem, promovendo uma reflexão sobre ensinar a felicidade e aceitar as transformações da idade. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Três semanas atrás, Inès de la Fressange e eu pegamos um voo de Paris para Nova York, felizes com a coincidência de estarmos no mesmo avião. Que alegria atravessar oito horas de voo ao lado de uma das minhas melhores amigas, sem combinar nada. Em cima do Atlântico, o piloto anunciou que precisaríamos voltar. Uma passageira teve crise tardia de consciência e lembrou, do nada, que despachara um cigarro eletrônico na bagagem — o que poderia provocar um incêndio. Ficamos horrorizados com a incivilidade daquela criatura, avisada duas vezes de que vape despachado é proibido, e que causou prejuízo monumental à companhia e quase nos matou a todos. Embarcamos no dia seguinte, vivos, e então finalmente pude passar as oito horas conversando com essa amiga divina com quem convivo há 25 anos. Vivemos uma ameaça de queda e morte, e ela acaba de lançar um livro sobre atravessar a longevidade. A ironia foi servida no menu de bordo. O livro se chama “L’età sperimentale” (A idade experimental, ainda sem tradução anunciada no Brasil). Inès o assina com Erri De Luca, escritor napolitano de 75 anos, alpinista, ex-pedreiro, tradutor do hebraico bíblico. Ele tem três infartos no currículo e continua escalando rochas sem corda nem mosquetão. Ela tem 68 anos e é um dos maiores monumentos da elegância francesa. Musa de Karl Lagerfeld, a primeira top a assinar exclusividade com a Chanel nos anos 1980, foi quem emprestou o rosto a Marianne, símbolo da República francesa. A obra é uma conversa entre dois amigos sobre o que ninguém quer ouvir: a chegada da velhice. De Luca a chama de “idade experimental” porque nenhuma geração anterior chegou aqui em número tão grande, com tanta saúde, tanta autonomia. Não há roteiro herdado, é preciso inventar. Ele inverte um provérbio iídiche — “se devemos, podemos” — e faz dele seu lema: “se posso, devo”. E assim reencontrou a escalada livre aos 73 anos. “Nenhuma tensão, mas uma atenção meticulosa ao peso do corpo que se desloca de um pé para outro, verificando a solidez de cada apoio.” Subir uma parede de pedra, segundo ele, é como envelhecer. De Luca escreve sobre os amigos falecidos — a dor da perda não diminui com o passar dos anos — sobre a vida depois da morte, na qual ele não acredita e Inès acredita, e sobre como duas pessoas podem divergir sem que se rompa um fio. Também divaga sobre como, à noite, ele precisa “obter sua absolvição por não ter cometido o delito de desperdiçar o dia”. Essa foi a frase que me arrancou o coração do peito. Inès defende a simplicidade, a bondade e as alegrias da vida privada como ferramentas de sobrevivência. Para ela, a questão que permanece até o fim é uma só: “como amei?” É um livro voltado para a transmissão, e ela cunhou também outra reflexão arrebatadora. “Talvez esta seja a última revolução de que podemos participar: ensinar (aos filhos) que se pode ser outra coisa do que aquilo que se foi, e ainda assim ser feliz.” Sua força está na audácia de dizer que envelhecer não é maravilhoso, que cansa, que a memória falha. De recusar cirurgia plástica não por militância, mas por medo honesto de acordar com um rosto que não é o seu — sem julgar quem a faz. De rir do tempo que passa. De colocar na mesa o que a sociedade evita: o desejo das mulheres maduras, a solidão de envelhecer em público, a indústria que apaga rostos depois dos 40. A conclusão do livro é que cada pessoa carrega um fardo invisível, um combate, um medo. Isso ilumina certos comportamentos e nos convida, quase naturalmente, à doçura e à compaixão. A mulher que quase incendiou nosso avião, sem saber, me deu um presente: mais oito horas para entender que viver bem é trocar o pavor pela serenidade, sem ceder a curiosidade à resignação. Fui absolvido por mais um dia não desperdiçado.