A indústria dos telemóveis habituou-nos, nos últimos anos, a uma evolução tão previsível como o calendário fiscal. As marcas lançam actualizações anuais a conta-gotas, mudam a disposição das câmaras, afinam ligeiramente os processadores e prometem revoluções que, quase sempre, se ficam por retoques cosméticos e ganhos modestos de desempenho. Por isso, quando a Xiaomi decide saltar duas gerações e antecipar o calendário para lançar a série 17, a curiosidade é inevitável.Convém começar por esclarecer que o 17T Pro não é o novo topo de gama absoluto da marca chinesa. Esse lugar continua reservado ao 17 Ultra. Na nomenclatura da Xiaomi, a letra T identifica uma família de equipamentos pensada para o segmento médio-alto: telemóveis que procuram aproximarem-se da experiência dos modelos mais caros, mas com um preço menos difícil de justificar. Foi assim com a série 15T e volta a ser assim agora. Além do 17T Pro, existe também um 17T, mais acessível e, naturalmente, com algumas cedências técnicas face à versão Pro.Já foi mais acessívelMas “preço racional” já não significa preço baixo. A inflação também chegou à tecnologia — e de forma particularmente visível aos componentes, como os chips de memória. O Xiaomi 17T Pro tem um preço recomendado de 999,99 euros na versão base, subindo para 1099,99 euros na configuração com 1TB. São valores que, há poucos anos, identificavam inequivocamente um topo de gama. Hoje, com os modelos mais ambiciosos a aproximarem-se dos 2000 euros, ocupam uma zona intermédia difícil de classificar: demasiado cara para ser popular, mas ainda abaixo da estratosfera. Durante o lançamento, Xiaomistore está com uma promoção que baixa o preço em 100 euros.Ao retirar o equipamento da caixa, o primeiro argumento a fazer-se notar é o peso. Com 219 gramas e 8,3 milímetros de espessura, este não é um telemóvel pensado para desaparecer no bolso de uma camisa. Ainda assim, o desenho ajuda a disfarçar parte dessa presença. A Xiaomi recorreu a um chassis de alumínio com laterais escovadas e a uma traseira em fibra de vidro reforçada, que resiste surpreendentemente bem às marcas dos dedos. Disponível em azul, violeta e preto, o formato geral aproxima-se das linhas rectilíneas que a Apple popularizou e que, entretanto, se tornaram quase uma gramática comum da indústria.Na frente, o ecrã plano estende-se quase até às extremidades graças à tecnologia de encapsulamento LIPO, que reduz as molduras a apenas 1,29 milímetros. O resultado é uma sensação de imersão convincente, reforçada pela película pré-aplicada, pela capa de protecção incluída na caixa e pela certificação IP68 contra água e poeiras. São detalhes que não transformam o equipamento, mas que tornam a experiência inicial mais completa.O ecrã AMOLED de 6,83 polegadas é um dos grandes argumentos do 17T Pro. A taxa de actualização de 144Hz garante fluidez em menus, jogos e navegação, enquanto o brilho de pico de 3500 nits permite ler um artigo do PÚBLICO numa esplanada, sob o sol do meio-dia, sem semicerrar os olhos nem procurar sombra à pressa.Ler na cama com confortoMas o pormenor que mais me agradou está no extremo oposto da escala de luminosidade. O sistema Xiaomi Vision Care permite que o ecrã desça até 1 nit de brilho mínimo. Quem tem o hábito de ler notícias, relatórios ou mensagens na penumbra do quarto, antes de adormecer, sabe como a luminosidade mínima de muitos ecrãs continua a ser agressiva. Esta capacidade, validada por certificações de protecção ocular da TÜV Rheinland, é um bom exemplo de engenharia aplicada ao conforto quotidiano, e não apenas à exuberância da folha de especificações.Há, contudo, um reverso que a ficha técnica tende a disfarçar. O painel não recorre a tecnologia LTPO. Ao contrário de alguns concorrentes directos, capazes de baixar a taxa de actualização até 1Hz quando a imagem estática não justifica mais, o 17T Pro só desce até aos 30Hz. Não é uma falha dramática, mas impede uma optimização energética ainda mais fina — sobretudo num equipamento que faz da autonomia uma das suas bandeiras.O motor do aparelho é o MediaTek Dimensity 9500, um processador de três nanómetros que responde sem hesitações a qualquer tarefa. Continua a existir, no imaginário de muitos consumidores, a ideia de que os chips Snapdragon da Qualcomm são a escolha natural dos verdadeiros topos de gama. Mas essa fronteira está cada vez mais esbatida. Nos nossos testes, o desempenho do 17T Pro aproximou-se do registado por modelos muito mais caros, como o Xiaomi 17 Ultra, o Galaxy S26 Ultra ou o Find X9 Ultra.Na prática, isto significa que editar um vídeo pesado, alternar entre dezenas de documentos, abrir aplicações exigentes ou jogar durante períodos prolongados não provoca soluços perceptíveis. O sistema de arrefecimento 3D IceLoop também cumpre o seu papel, mantendo o telemóvel confortável na mão mesmo quando o processador é chamado a trabalhar de forma contínua.O software é o HyperOS 3, baseado no Android 16. A interface assume, sem grande esforço de disfarce, alguma inspiração estética no universo de Cupertino, incluindo uma zona dinâmica de notificações em redor da câmara frontal. Mas a verdadeira surpresa não está no aspecto visual. Está numa funcionalidade discreta e muito útil: a possibilidade de partilhar ficheiros e sincronizar dados, de forma directa, com computadores Mac, iPhones e iPads.Para quem trabalha num ambiente tecnológico misto — Android no bolso, Mac na secretária, iPad na mochila — esta ponte entre ecossistemas rivais tem valor real. Trata-se de uma funcionalidade que resolve pequenas fricções diárias e que pode pesar mais na decisão de compra do que muitas características técnicas.Apps em excessoA Xiaomi promete cinco anos de actualizações de sistema e seis anos de actualizações de segurança, o que dá alguma tranquilidade a quem olha para este telefone como um investimento a médio prazo. Menos aceitável é que um equipamento deste preço continue a chegar com jogos e aplicações pré-instaladas que o utilizador terá de apagar manualmente. Num telemóvel de mil euros, o bloatware já não devia ser tratado como uma fatalidade.A bateria de silício-carbono com 7000 mAh é, sem dúvida, um dos elementos mais diferenciadores do 17T Pro. Representa um crescimento de 27% face ao modelo anterior e é a maior bateria usada pela Xiaomi em smartphones vendidos fora da China. No uso quotidiano, esta capacidade traduz-se numa sensação rara: a de poder esquecer o carregador durante o fim-de-semana.Mesmo com utilização intensa — mapas, fotografia, navegação constante, mensagens, vídeos e algum trabalho — o 17T Pro ultrapassa com folga as 36 horas de autonomia. Para um utilizador moderado, os dois dias completos são uma meta realista. E quando a bateria finalmente começa a ceder, o carregamento HyperCharge de 100W recupera praticamente toda a energia em cerca de 20 minutos, embora o carregador não seja fornecido. Há, ainda, carregamento sem fios de 50 watts, uma comodidade que continua ausente em muitos modelos posicionados nesta faixa de preço.
Xiaomi 17T Pro em teste: ainda é possível ter um topo de gama abaixo dos 1000 euros?
Com bateria para dois dias e uma inesperada ponte para o ecossistema Apple, o 17T Pro não é um topo de gama no papel. Mas, em boa parte do uso diário, comporta-se como se fosse.











