A Caixa Geral de Depósitos foi às suas reservas, constituídas sobretudo pelos lucros recorde que foi alcançando nos últimos anos, para melhorar o seu capital social e, além disso, usou uma parte para “abrilhantar” o dividendo a entregar este ano ao accionista Estado.Estes foram passos dados na assembleia geral que se realizou esta sexta-feira, 29 de Maio, em que é o Ministério das Finanças a decidir pelos 100% de capital que o Estado tem no banco público, e que decidiu a distribuição de lucros da Caixa, segundo o comunicado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) enviado esta sexta-feira, 29 de Maio.O ponto de partida foi o lucro de 2025: foram mais de 1,9 mil milhões de euros. Depois, em cada ano, os accionistas (neste caso, o Estado) têm de decidir o que fazer. Neste caso, e segundo a decisão da assembleia desta sexta-feira, há uma parcela que é obrigatoriamente incorporada como reserva legal, de quase 400 milhões de euros; depois, há uma parcela para dividendos, de 952 milhões; e finalmente há uma parte de mais de 630 milhões que foram incorporados nas reservas.Dividendo recorde confirmadoOra, o dividendo saído dos resultados de 2025 foi 925 milhões, mas a gestão de Paulo Macedo quis entregar uma verba maior ao accionista Estado, os já anunciados 1,25 mil milhões de euros, nunca antes vistos na banca portuguesa. Para isso, o banco foi buscar 300 milhões de euros às reservas, para robustecer esse dividendo (os 925 milhões mais os 300 milhões, que resultam nos 1,25 mil milhões de euros em causa).Mas mesmo indo às reservas buscar este dinheiro, a verdade é que essa “gaveta” de reservas – que junta resultados transitados e dinheiro que ali ficou guardado – a Caixa continua recheada. As reservas aproximavam-se dos 5000 milhões de euros no fim do ano passado: a gaveta foi engordando ao longo dos anos, com os sucessivos lucros recorde que o banco foi conseguindo apresentar.E é por ter essa dimensão que a Caixa Geral de Depósitos levou a assembleia geral – e foi agora aprovado – o aumento do capital social, que é actualmente de 4,5 mil milhões de euros, para seis mil milhões de euros. O capital social é, basicamente, o dinheiro que os accionistas têm “estacionado” na empresa, e o que acontece com este aumento é que o Estado português passa a ter ali mais dinheiro aplicado de forma mais definitiva.Ao deixar a rubrica de reservas e ao ser incorporado como capital social, este dinheiro fica mais “salvaguardado”, já que a sua distribuição é mais dificultada. No comunicado à CMVM, o banco explica que o aumento do capital social permitirá “a manutenção de uma estrutura de capital permanente sólida, estável e adequada aos níveis exigidos de solvabilidade e gestão integrada de riscos”.Ou seja, a Caixa aumenta o capital social sem novo dinheiro público envolvido. Na prática, é uma melhoria da sua situação com base nos resultados atingidos anteriormente. Ao invés, a capitalização de 2016 e 2017 foi feita com dinheiro público, num total de 3,9 mil milhões de euros.Independentemente disso, estando no capital social ou nas reservas, estes são montantes que contam para os rácios de capital, um dos indicadores mais relevantes no sector bancário por serem determinados para medir a solidez da instituição e capacidade de fazer face a situações de maior fragilidade. Na CGD, o rácio mais exigente, conhecido por CET1, ficou acima de 20%, mesmo com a distribuição do dividendo recorde, muito acima dos mínimos exigidos pelo BCE (abaixo de 10%) e das médias europeias e nacionais.No primeiro trimestre, o banco público – que está agora a apostar no crédito ao consumo, depois de ter disparado o crédito à habitação – voltou a registar um novo lucro recorde, de quase 400 milhões de euros, mas, neste caso, não contam para os dividendos entregues, já que eles são relativos ao ano anterior.Anos de mudançasPaulo Macedo gosta de frisar que esta melhoria de resultados da Caixa opõe-se aos anos de prejuízos e de negócios com pouco racional financeiro do início dos anos 2000, que obrigaram a essa capitalização pública.A subida de lucros nestes anos (Macedo é líder desde 2017) passou por uma reorganização do banco público, com reestruturação de operações internacionais (saiu de Espanha e África do Sul, e procura agora abandonar o Brasil), com cortes de balcões e de quadro de pessoal (a presença física de agências diminuiu, bem como os serviços prestados em alguns dos balcões que permaneceram abertos), e contou com impulso de juros do Banco Central Europeu nos créditos. Além disso, as imparidades que foram constituídas após a capitalização (para precaver perdas significativas em créditos passados) foram sendo revertidas e, com isso, também houve contas mais positivas.Da assembleia geral desta sexta-feira saiu também a aprovação de um “voto de confiança aos órgãos de administração e fiscalização e a cada um dos seus membros, pelo desempenho das suas funções no exercício de 2025”.
Caixa usa lucros passados para reforçar capital e dar dividendo recorde ao Estado
Caixa Geral de Depósitos aumenta capital social com base em reservas que tinha guardadas, e não com dinheiro do Estado, como ocorreu em 2017. Dividendo anual de 1,25 mil milhões de euros é confirmado.
















