Os 13 detidos na operação Águas Turvas, que investiga um alegado esquema de corrupção na empresa municipal Águas de Gaia (ADGaia), remeteram-se nesta sexta-feira ao silêncio no primeiro interrogatório judicial no Tribunal de Instrução Criminal do Porto.Fonte judicial explicou à agência Lusa que nenhum dos arguidos quis prestar declarações perante o juiz de instrução criminal, seguindo-se agora a fase em que o Ministério Público vai promover as medidas de coação que entende ser adequadas a cada um dos arguidos.Segundo a mesma fonte, as medidas de coação serão conhecidas entre segunda e terça-feira, devendo os arguidos permanecer detidos até lá. Os 13 detidos são sete funcionários da ADGaia, três dos quais com cargos de chefia, um ex-funcionário e cinco empresários ligados à construção civil e à venda de materiais."A investigação, em curso há cerca de 17 meses, incide sobre um amplo esquema organizado de criminalidade económico-financeira, desenvolvido através da conjugação de esforços entre empresários do sector privado e funcionários da Empresa Municipal Águas de Gaia (ADGaia), com poderes decisórios relevantes no âmbito da contratação pública e sua respectiva execução", adiantou a Polícia Judiciária (PJ) na terça-feira, dia das detenções, em comunicado.O Ministério Público (MP) sustenta que os sete funcionários da Águas de Gaia detidos manipularam, alegadamente, dezenas de contratos para adjudicação ao mesmo empreiteiro em troca de dinheiro, electrodomésticos, compras, jantares, férias, obras em casa e consultas médicas.Um despacho judicial, a que a agência Lusa teve anteriormente acesso, refere que, entre 2009 e 3 de Fevereiro de 2026, um empresário da construção, outro dos 13 detidos, teve a adjudicação de 98 contratos públicos, de quase 11 milhões de euros, 81 deles celebrados com a ADGAIA, tendo emitido facturas à empresa municipal no montante global de cerca de 8,5 milhões de euros.A investigação diz que em 2024 e em 2025 este empreiteiro facturou à ADGaia cerca de 1,8 milhões de euros, representando 73% da sua facturação total, acrescentando que, nestes dois anos, o arguido efectuou levantamentos bancários superiores a 45 mil euros, para supostos pagamentos em numerários aos funcionários detidos, alguns dos quais directores.O despacho indica que o empresário pagou almoços e jantares aos funcionários com o objectivo de, alegadamente, os recompensar e para continuar a ser beneficiado em futuras adjudicações.Quanto ao ex-funcionário da ADGaia detido, a investigação apurou que, em Março de 2024, o suspeito, à data director, constituiu uma sociedade à qual se dedicou plenamente a partir de Maio de 2025, quando se aposentou.Segundo o MP, esta sociedade não tem qualquer estrutura empresarial minimamente compatível com o exercício regular de uma actividade económica, não dispondo de trabalhadores nem de meios materiais ou logísticos.Em 2024 e 2025 esta sociedade apresentou um volume de facturação de quase 1,94 milhões de euros e foi, acredita a investigação, constituída com o propósito de o suspeito receber fundos financeiros, que lhe foram pagos por empresários detidos, como contrapartida da manipulação e favorecimento dessas empresas em procedimentos concursais das ADGaia, por si gerida até 15 de Maio de 2025.Após se aposentar, a investigação diz que o suspeito manteve a sua esfera de influência e contactos sobre alguns funcionários, particularmente sobre três dos suspeitos. Em causa está a prática de crimes de corrupção activa, corrupção passiva, abuso de poder e branqueamento.