Estados Unidos e Irã chegaram a um entendimento para estender o cessar-fogo, permitir a navegação pelo Estreito de Ormuz e suspender o bloqueio naval americano e algumas sanções contra Teerã, disseram fontes à Reuters. O acordo, porém, ainda não foi finalizado. Se concretizado, o entendimento representará um passo importante para encerrar uma guerra que aproximou o mundo de uma crise energética. Ainda assim, a disputa de fundo sobre o programa nuclear iraniano só seria resolvida em negociações posteriores. Onde estão as negociações? Desde o cessar-fogo firmado no início de abril, os dois lados continuam divergindo sobre temas como as ambições nucleares do Irã, a guerra de Israel no Líbano contra o Hezbollah, apoiado por Teerã, e as exigências iranianas de suspensão de sanções e liberação de ativos congelados. Após semanas de negociações, em sua maioria indiretas, quatro fontes familiarizadas com as conversas disseram na quinta-feira que EUA e Irã concordaram com um memorando de entendimento que interromperia a guerra e daria aos negociadores 60 dias para alcançar um acordo definitivo. As duas partes, porém, já afirmaram diversas vezes anteriormente que um acordo estava próximo sem que isso se materializasse. A posição de Israel, que iniciou ao lado dos Estados Unidos a campanha aérea contra o Irã em 28 de fevereiro, é considerada central para qualquer entendimento, mas seu papel no eventual acordo ainda não está claro. Segundo as fontes, o presidente Donald Trump ainda não aprovou o texto. Na quinta-feira, o vice-presidente J.D. Vance afirmou: “Ainda não chegamos lá, mas estamos muito perto e vamos continuar trabalhando nisso”. O Irã não comentou oficialmente o assunto, mas a agência semioficial Tasnim citou uma fonte próxima à equipe negociadora para afirmar que o texto ainda não foi concluído nem validado. Fontes iranianas já haviam dito anteriormente que um acordo inicial se limitaria ao encerramento dos combates em todas as frentes, ao estabelecimento de um marco temporário de 30 dias para a circulação internacional e iraniana pelo Estreito de Ormuz e, possivelmente, a algum alívio financeiro. As questões mais complexas ficariam para uma segunda etapa, incluindo o destino do estoque iraniano de urânio altamente enriquecido, os detalhes sobre a navegação em Ormuz e a sequência de implementação de temas como sanções e garantias de segurança. O último acordo nuclear com o Irã — firmado em 2015 e abandonado por Trump em 2018 — levou anos de negociações envolvendo grandes equipes de especialistas técnicos. Principais pontos de disputa: Navios ancorados no Estreito de Ormuz — Foto: Reuters Estreito de Ormuz e bloqueio no Golfo O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto da oferta global de petróleo e gás natural liquefeito, impulsionou os preços da energia. Reabrir a passagem é a principal prioridade dos EUA e também o maior instrumento de pressão do Irã, mas o processo pode levar tempo. Muitas embarcações permanecem retidas no Golfo, e o Irã afirma ter instalado minas marítimas cuja localização pode ser difícil de identificar. O bloqueio americano aos portos iranianos também afeta as exportações do país e sua arrecadação. O fim dessa medida é uma das principais exigências de Teerã. Outro tema sensível é o grau de retirada das forças americanas da região. Nuclear Os Estados Unidos afirmam acreditar que o Irã busca desenvolver uma arma nuclear. Teerã sempre negou essa acusação, sustentando que seu programa atômico tem fins exclusivamente pacíficos. O foco das negociações está no enriquecimento de urânio, processo que pode produzir combustível para usinas nucleares, mas também material para ogivas. A questão nuclear é particularmente complexa. Segundo fontes iranianas, Teerã poderia aceitar diluir parte de seu urânio altamente enriquecido em um país aliado até um nível de pureza de 5% e depois receber esse material de volta. Mesmo assim, permaneceriam em aberto diversos temas, como a duração de uma eventual suspensão do programa nuclear, o possível desmantelamento de instalações, o destino dos estoques de urânio enriquecido a 20% e 5%, o futuro das centrífugas avançadas e dos programas de pesquisa e desenvolvimento, além das regras para inspeções internacionais. Mísseis balísticos Antes da guerra, uma das principais exigências americanas era que o Irã limitasse o alcance de seus mísseis balísticos para impedir que pudessem atingir Israel. O governo iraniano, entretanto, sempre afirmou que seu direito de manter armamentos convencionais não é negociável e sustenta que ainda possui um vasto arsenal. O presidente Donald Trump participa de uma reunião de gabinete na Casa Branca, em 27 de maio de 2026 — Foto: AP/Jacquelyn Martin Sanções e ativos congelados A economia iraniana vem sofrendo há anos com as sanções internacionais, fator que contribuiu para os protestos nacionais registrados em janeiro. Teerã considera essencial a suspensão dessas medidas e a liberação de dezenas de bilhões de dólares em receitas de petróleo congeladas em bancos estrangeiros. O governo iraniano também exige reparações pelos danos causados pela guerra. Washington tem resistido a essas demandas. Trump frequentemente criticou o ex-presidente Barack Obama por ter liberado parte dos ativos iranianos congelados no acordo nuclear de 2015. Alguns veículos de imprensa informaram que a versão mais recente do rascunho do acordo prevê um programa de investimentos para o Irã. Bombardeios de Israel contra o sul do Líbano — Foto: Reprodução/Reuters Líbano O Irã tem insistido que a guerra de Israel contra seu principal aliado regional, o Hezbollah, no Líbano, deve fazer parte de qualquer acordo mais amplo. Israel e Líbano firmaram um cessar-fogo no mês passado, mas tanto Israel quanto o Hezbollah acusam o outro lado de repetidas violações. Ao mesmo tempo, os militares israelenses vêm ampliando suas operações no sul do Líbano. Israel tende a se opor a qualquer acordo entre EUA e Irã que limite sua liberdade de ação militar no país vizinho.
Entenda quão perto EUA e Irã estão de fechar um acordo para encerrar a guerra
Se concretizado, entendimento entre países representará um passo importante para acabar com conflito que aproximou o mundo de uma crise energética em meio ao fechamento de Ormuz















