Findos três meses de guerra e um mês e meio de trégua instável, Estados Unidos e Irã indicam que podem estar perto de um acordo sobre o qual nada se sabe ao certo ainda. As cotações do petróleo, acima de US$ 100 há cerca de 30 dias, caíram ontem para US$ 95 o barril, depois de informações genéricas sobre prorrogação da trégua e indicações de que o Estreito de Ormuz, por onde escoam 20% do petróleo mundial, será reaberto em um mês. Junho pode ser um mês cruel no calendário da maior crise de oferta de petróleo da história, com a possibilidade de escassez de óleo e derivados e preços ainda mais altos. Isso acabará acontecendo se não houver ao menos uma perspectiva de que o abastecimento será em algum momento normalizado. A falta de orientação estratégica de Donald Trump e seu caleidoscópio de metas, sempre mutante, tornam difícil saber o que os Estados Unidos querem afinal. O presidente americano entrou em uma aventura sem medir consequências ou objetivos negociáveis, afora a rendição do Irã. Com pesadas perdas, inclusive de líderes políticos e militares, o regime dos aiatolás resistiu à demonstração de um poderio militar muito superior ao seu, manteve razoável capacidade ofensiva, destruiu parte da infraestrutura de óleo e gás de países vizinhos e manteve o estreito fechado. Trump entrou na guerra querendo o fim do programa de enriquecimento de urânio iraniano, a retirada de 440 toneladas de urânio com alto grau de beneficiamento, o desmantelamento de seu programa de mísseis e o fim do financiamento iraniano a grupos terroristas na região, como o Hamas e o Hezbollah. Ao matar no primeiro dia da ofensiva militar o líder supremo do regime, aiatolá Ali Khamenei, Trump cogitou também catalisar uma mudança iminente do regime, que não ocorreu. Ao contrário, os elementos mais radicais do regime iraniano assumiram o comando. Nenhum dos resultados aventados foi atingido. O maximalismo das intenções americanas e o desfecho militar insuficiente no campo de batalha para cumpri-los tornam um possível acordo, se houver, uma caixa de surpresas. Para que Trump executasse tudo o que imaginou, seria necessário colocar tropas em solo iraniano, alternativa que excluiu por princípio. As negociações giram em torno de alguns eixos óbvios. A detenção do programa nuclear iraniano, com garantias de que ele não visa à confecção de armas nucleares, é um deles. O Irã assinou acordo para isso com EUA e países europeus em 2015, mas Trump, em seu primeiro mandato, o renegou. A abertura de Ormuz sem controle ou pedágios por parte do Irã — o que seria a confissão de derrota americana — é outro. Os negociadores iranianos continuam jurando que seu programa é pacífico, mas sem mecanismos verificáveis e inspeções externas in loco, como ocorreu no finado acordo, suas palavras nada valem. A entrega do urânio com maior grau de pureza para um país neutro conta com resistência do Irã, mas, embora difícil, não é impossível. Trump só gosta de acordos em que impõe as condições e que suas exigências sejam aceitas. O regime xiita iraniano, em um indício de que ainda detém capacidade bélica razoável de resistência, exige por seu lado indenização pelos danos causados pela guerra, fim das sanções americanas com liberação do dinheiro do país retido no exterior (US$ 24 bilhões) e controle de Ormuz. Há chance de que parte das sanções seja atenuada, mas quase nenhuma de que as demais exigências sejam atendidas. Ainda que boa parte da infraestrutura fabril do país tenha sido aniquilada, e que a oposição aos aiatolás seja crescente — não à toa as execuções de opositores voltaram —, o tempo parece correr a favor do Irã. A popularidade de Trump, que se submeterá às eleições de meio de mandato em novembro, é baixa, com apenas 38% dos americanos aprovando seu manejo da economia e da guerra até agora. Os estragos da guerra são altos e crescentes. Com alta de 51% dos combustíveis, os americanos gastaram US$ 41,5 bilhões a mais com o produto desde que o conflito começou, ou US$ 316 por família, segundo cálculos de especialistas da Brown University. A inflação anual em abril, de 3,8%, já pulou à frente da correção de salários, algo que se observa não apenas nos EUA, mas também na Europa. Os juros dos títulos americanos de longo prazo subiram. A zona do euro caminha para uma recessão leve. Os bancos centrais dos países desenvolvidos pararam de reduzir os juros e podem se ver obrigados a voltar a elevá-los em breve. Apesar de sua retórica provocadora, Trump precisa encontrar uma saída para uma enrascada. Mas, em geral, a destruição praticamente cessou com a trégua, e os beligerantes agora conversam sem parar, o que é muito melhor do que nada. A perspectiva de um acordo ronda o cenário há semanas, o que indica tanto sua possibilidade quanto as dificuldades em alcançá-lo. Para o mundo, há urgência em sua conclusão, porque a ameaça de escassez de óleo e de outros insumos é agora mais presente do que nunca.