Acordo entre EUA e Irã e projeções de excesso de oferta global em 2027 pressionam os preços da commodity — Foto: Unsplash A paz ainda está longe de reinar no Estreito de Ormuz, mas os preços do petróleo recuaram muito desde que Irã e Estados Unidos assinaram um memorando de entendimento para pôr fim ao conflito. Na quinta-feira, o barril Brent foi cotado a US$ 72,48, o mesmo valor de pouco antes do início da guerra, em 28 de fevereiro. A descompressão da oferta e dos preços atingiu todos os combustíveis e também os fertilizantes. Pode levar meses até que produção e oferta sejam normalizados e os preços voltem para perto da média de US$ 65 o barril. Mas, da mesma forma que o fechamento de Ormuz trouxe pânico e medo nos mercados mundiais, sua abertura, mesmo gradual, terá um efeito calmante sobre a inflação e os preços dos ativos. A normalização do mercado reduzirá um pouco o extraordinário aumento de receitas com o petróleo do governo brasileiro, que quase quadruplicaram de janeiro a maio. As cotações do óleo refletirão o jogo de forças opostas. A favor da manutenção dos preços altos, ou de uma queda bem lenta deles, pesam em primeiro lugar a destruição de instalações de petróleo nos países produtores, a redução estimada do fluxo de 1 bilhão de barris durante o período do conflito e a queda significativa dos estoques, que nos países da OCDE chegaram ao menor nível desde 1990. Levará meses, ou até anos, para que as instalações destruídas voltem a operar, e a recomposição dos estoques acrescentará demanda adicional a uma oferta ainda não recomposta. Mas há outros fatores relevantes que apontam na direção oposta. A Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que haverá um excesso de petróleo no mercado já em 2027. Em suas previsões, a produção acrescentará 8 milhões de barris por dia, elevando o total extraído a 110 milhões de barris/dia, enquanto a demanda aumentará em 2 milhões de barris/dia. Corroboram estes cálculos o esperado aumento de produção dos Emirados Árabes Unidos, que deixou a Opep, o cartel dos produtores, justamente porque estava descontente com sua cota de produção, e poderá acrescentar mais 1 milhão de barris/dia em futuro próximo. A produção iraniana, que surpreendentemente recebeu passe livre no memorando feito com os Estados Unidos, poderá se expandir e abastecer mais países do que apenas seus aliados contra o cerco financeiro imposto pela Casa Branca anteriormente, como a China. A consultoria Wood Mackenzie estima que os planos em andamento no Brasil, nos EUA e na Guiana adicionarão mais 2,8 milhões de barris/dia no ano que vem. Ela prevê que a produção total atingirá 108-109 milhões de barris/dia (FT, 17 de junho). A guerra de EUA e Israel contra o Irã e o fechamento de Ormuz soaram o alarme da urgência da substituição de combustíveis fósseis, que possivelmente se acelerará. O transporte rodoviário de cargas e passageiros consome cerca de metade da produção mundial e está mudando de perfil. A Agência Internacional de Energia aponta que um quarto do total de carros novos vendidos no mundo hoje é elétrico. Na China, 63% dos carros zero quilômetro vendidos são elétricos, em um movimento que se espalhou também pelo restante da região Ásia-Pacífico (onde sua venda avançou 80%) e na América Latina (expansão de 75%). A maior crise da oferta de petróleo da história, segundo a AIE, culminou em uma “taxa”, ou gasto adicional de consumo, da ordem de US$ 1,3 trilhão, calcula o economista Edward Yardeni. Ele comparou a oferta de 105 milhões de barris/dia a um preço médio de US$ 65 o barril - total de US$ 2,5 trilhões por ano - com os preços médios durante a guerra. Grosso modo, pode-se então estimar que a interrupção do fluxo de petróleo por quatro meses, como agora, tenha resultado em um acréscimo de preços da ordem de US$ 430 bilhões. Esse sobrepreço será zerado nos próximos meses, eliminando o temor que tomou os investidores de que a inflação, com o choque do petróleo, não seria temporária e acabaria levando a um aperto monetário global que faria enormes estragos no crescimento. Isso não aconteceu na proporção que se previa. O estresse nas cadeias de produção está se reduzindo rapidamente, desde que não haja novas interrupções na oferta, o que não é certo. Parece improvável, mas não impossível, que, às vésperas de eleições legislativas, Trump, que produziu um improvisado acordo temendo estragos no desempenho dos republicanos, volte a seu estado belicoso antes de que as urnas sejam apuradas em novembro. O governo brasileiro se beneficia do aumento dos preços do petróleo enquanto durar. A arrecadação relacionada ao petróleo em maio subiu R$ 10 bilhões, o quíntuplo da de maio de 2025. Nos cinco primeiros meses do ano, o petróleo propiciou arrecadação de R$ 50,6 bilhões, ante R$ 13,1 bi no mesmo período do ano passado. Os subsídios ao diesel e gasolina custariam R$ 30 bilhões até o fim do ano, mas poderão ser extintos em breve, se as cotações do petróleo não voltarem a disparar. Houve algum estrago inflacionário e, nesse front, a dúvida é como ficará o reajuste dos combustíveis com o fim dos subsídios, já que os preços externos, por vários meses, poderão continuar acima da média do pré-guerra.
Governo se beneficia da alta do petróleo, mas ela não deve durar
Acordo entre EUA e Irã e projeções de excesso de oferta global em 2027 pressionam os preços da commodity








