A unanimidade entre os especialistas do mercado financeiro é que o impacto da decisão dos EUA é mais de percepção do que de fundamentos. Acontece que percepção, em investimentos, vira preço. "Não veremos um crash da bolsa brasileira, mas é muito provável que o EWZ abra a sessão já pressionado", afirma Daniel Borges, advogado especializado em mercado de capitais. O EWZ é o principal ETF (fundo de índice) de ações brasileiras negociado em Nova York e funciona como termômetro do apetite estrangeiro pelo Brasil. Segundo Borges, a carteira deve refletir de imediato o aumento da percepção de risco-país (o grau de incerteza e insegurança que investidores e empresas atribuem a uma nação). Felipe Sant'Anna, especialista em investimentos do Axia Investing, também entende que, eventualmente, algum dinheiro pode eventualmente sair das ações de empresas brasileiras. "Não estou falando de uma debandada, mas o cenário pode acentuar o fluxo que já está negativo no mês de maio. Quer dizer, o investidor pode tirar o pé para esperar o que vai acontecer." A reclassificação das organizações criminosas brasileiras pelos EUA é a mais dura etiqueta que Washington pode colar numa organização estrangeira. Na prática, a decisão da Casa Branca submete ao alcance da lei americana qualquer pessoa ou empresa - inclusive brasileira - que, mesmo sem saber, mantenha algum vínculo financeiro com essas organizações. A notícia chegou ao mercado após o fechamento dos pregões em São Paulo e Nova York ontem. A reação dos ativos ficou, portanto, para a sessão de hoje. Milene Dellatore, sócia-diretora do Grupo MIDE, explica que o mercado deve passar a enxergar aumento de risco institucional diante de maior pressão internacional, possibilidade de sanções indiretas, endurecimento regulatório e aumento de custo de compliance. "E isso pode afetar principalmente os bancos, fintechs, empresas de pagamentos, ligadas a câmbio, cripto, logística e companhias muito expostas ao fluxo internacional, porque instituições americanas tendem a elevar o nível de monitoramento sobre operações ligadas ao Brasil. Além disso, existe um impacto psicológico importante no investidor estrangeiro. O dinheiro internacional foge de ruído, insegurança jurídica e risco político. Então qualquer narrativa envolvendo terrorismo, soberania e possível tensão diplomática naturalmente aumenta percepção de risco país", diz Dellatore. Ruído caro Seis especialistas consultados convergem num diagnóstico: a designação terrorista não muda os fundamentos da economia brasileira, mas eleva o custo de investir no país. "O que tende a ser precificado pelos investidores não é o ato formal da classificação, mas os seus possíveis desdobramentos sobre a percepção de risco do país", diz Servulo Mendonça, presidente do Conselho da Holding SM. "Nos mercados financeiros, percepção de risco frequentemente se transforma em preço antes mesmo de produzir efeitos concretos na economia." Goldwasser Neto, CEO da Mogno Accountfy, pondera que o mercado brasileiro reage de forma mais incisiva hoje a questões fiscais, aos juros americanos, à inflação e dados de atividade econômica do que a um evento isolado dessa natureza. Porém, o momento global pode confluir pressões sobre o câmbio, reconhece. Em cenários de maior aversão ao risco global - como o atual -, a notícia pode contribuir à pressão sobre o câmbio, provocar correções altistas (embora marginais) nas taxas dos contratos mais longos de juros e sensibilizar setores da economia dependentes de capital estrangeiro. Onde o calo aperta: câmbio e juros Os canais de transmissão para os ativos domésticos são indiretos, mas não ignoráveis. Uma reavaliação do risco Brasil pelos investidores estrangeiros pode gerar pressão adicional sobre o dólar, segundo Mendonça, especialmente se a medida provocar questionamentos sobre a eficácia dos mecanismos brasileiros de prevenção à lavagem de dinheiro. Goldwasser Neto segue a mesma linha de raciocínio, esperando um real "um pouco mais fraco". Borges, no entanto, avalia o impacto cambial da classificação das facções como grupos terroristas como "um efeito menor". Para o advogado, ruídos no cenário global e quaisquer eventos que mexam com os juros americanos ou com o cenário fiscal doméstico tendem a ter efeitos mais expressivos no direcionamento dessas negociações. Nas expectativas para os juros, as atenções recaem sobre o horizonte mais adiante, ou seja, as taxas de contratos futuros com vencimentos no longo prazo - os chamados "juros longos". Se investidores internacionais passarem a enxergar o ambiente brasileiro como mais suscetível a riscos institucionais, os títulos públicos podem exigir remuneração adicional nesses vencimentos mais longos (com vencimentos superiores a cinco anos), segundo Mendonça. Na prática, isso se traduz em taxas futuras mais elevadas e aumento do custo de financiamento para o governo e para as empresas brasileiras. E este ponto pode - embora não de forma isolada - afetar as perspectivas tanto para o Tesouro quanto para a bolsa, que é aonde estão as grandes empresas. A Selic elevada já empurra muitas empresas brasileiras a buscar crédito fora. Com a designação das facções, Borges alerta que emissões de títulos de dívida e operações estruturadas no exterior podem ser afetadas. "A mudança na percepção de risco-país pode pressionar o prêmio de risco exigido pelos investidores estrangeiros [ou seja, pressionar para cima as taxas em títulos de dívidas de companhias brasileiras]. E uma vez que a nossa bolsa de valores tem uma alta concentração de capital estrangeiro, uma fuga desse capital pode pressionar nessa outra ponta o custo de captação das empresas. Considerando ainda a elevada taxa de juros local, a problemática na análise de crédito das organizações brasileiras pode se agravar", conclui o advogado. Os setores vulneráveis O setor financeiro brasileiro está mais exposto do que qualquer outro nesse cenário. E a razão é estrutural. A legislação americana, a partir da vigência da designação das facções como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês), em 5 de junho, permite punições severas a instituições que facilitem - mesmo que inadvertidamente - movimentações financeiras ligadas a organizações terroristas. Bancos, fintechs, empresas de pagamentos e plataformas de remessas internacionais ficam na linha de frente. O advogado criminalista Berlinque Cantelmo, sócio do RCA Advogados, detalha que a medida aumenta a capacidade dos EUA de fiscalizar transações suspeitas envolvendo bancos e empresas que poderão sofrer sanções ao operarem com grupos terroristas mesmo sem conhecer essa ligação. Borges acrescenta que o setor de energia (óleo e gás, especificamente) e o setor imobiliário apresentam vulnerabilidades nesse contexto, considerado principalmente seu histórico de ligações com organizações criminosas locais. Já setores mais ligados à economia real - saneamento, infraestrutura, agronegócio - tendem a ter menor sensibilidade imediata, segundo Mendonça. Nem tudo é pressão, no entanto. O aumento da demanda por controle e monitoramento cria oportunidades, na visão de Borges, que destaca como empresas de tecnologia anti-fraude, cybersecurity, monitoramento financeiro, compliance e direito digital devem ser cada vez mais valorizadas no mercado brasileiro. O nicho, no entanto, ainda é pequeno na B3, mas, segundo o especialista, pode ganhar escala - especialmente se a resposta institucional brasileira incluir exigências regulatórias mais duras. O que fazer agora A orientação predominante é a de adotar cautela sem precipitação. Neste sentido, a recomendação que mais ecoa é a de não vender ativos no pânico. O soluço no EWZ e eventual pressão no dólar são esperados, mas nenhum especialista projeta movimento estrutural. "No longo prazo, isso tende a ser uma questão secundária e indireta nos ativos, porque nós temos fatores que impactam mais diretamente", avalia Borges. O fluxo de capital externo - já negativo em maio - pode se deteriorar ao longo da próxima semana, mas é a condução da relação entre os países e a duração da debandada que deve ser lida como sinal mais preocupante do que uma eventual fuga de dólares no pregão desta sexta em si. Mesmo porque o verdadeiro condutor de volatilidade no mercado local neste ano são as eleições presidenciais de outubro, evento que é pano de fundo para a articulação da família Bolsonaro na Casa Branca, que resultou na designação terrorista desta semana, mas que, como grande narrativa do mercado local em 2026, ainda realmente pode sacudir os ativos. Em resumo, o fato novo é ruído, e não o catalisador de uma mudança de regime. Mesmo assim, para alguns especialistas, o investidor com uma carteira de ações pesada em bancos, fintechs ou empresas de pagamentos deve acompanhar com atenção os próximos dias de negociações e os comunicados de compliance dessas companhias. Se a designação das facções como FTOs no dia 5 de junho vier acompanhada de sanções do Tesouro americano a indivíduos ou empresas específicas, pode haver uma segunda onda de ajustes no mercado local. Mendonça fez a síntese mais útil para quem precisa decidir o que fazer agora: "O mercado financeiro costuma diferenciar a existência de um risco da capacidade institucional de administrá-lo". Em outras palavras, o que vai definir se o impacto é passageiro ou duradouro não é a decisão do governo dos EUA, mas a resposta de Brasília.