A guerra cultural da hora diz respeito a Helena de Troia, a mulher cuja beleza estonteante teria deflagrado o conflito que resultou na destruição de Ílion e inaugurou a literatura ocidental. Christopher Nolan decidiu filmar "A Odisseia" e escalou para o papel de Helena a atriz Lupita Nyong’o, que é negra. A militância anti-woke não gostou e se pôs a cancelar o filme antes de seu lançamento.
Uma negra pode personificar Helena? A crer em Homero, não. Autores da Antiguidade raramente forneciam descrições físicas de seus personagens. No caso específico, porém, um dos epítetos utilizados pelo aedo para referir-se a Helena acaba realizando essa função. O termo grego é "leukólenos" que significa "de braços brancos".O argumento supostamente naturalista dos anti-identitários se enfraquece quando se considera que Helena é uma figura mítica, que jamais existiu. Aliás, o próprio Homero pode não ter existido.
Minha posição é a de que qualquer um pode interpretar qualquer papel. Uma definição de ator é "alguém que finge ser uma pessoa que não é". A decorrência lógica é que negros podem fazer o papel de brancos; mulheres, o de homens; e todas as combinações imagináveis. Negar isso é negar a essência da ideia de interpretação.










