A adoção de ativos digitais pode remodelar parte importante das receitas dos bancos de atacado até 2030, especialmente em pagamentos internacionais, câmbio, gestão de liquidez e serviços de custódia. Estudo da consultoria Oliver Wyman em coautoria com o Morgan Stanley estima que até US$ 82 bilhões em receitas dos bancos de atacado podem migrar para trilhos digitais até 2030, em um cenário de adoção mais ampla. Ainda no cenário de adoção mais ampla, a expectativa é que os ativos digitais, especificamente criptomoedas, adicionem US$ 8 bilhões em novas receitas para os bancos de atacado até 2030. Na projeção-base do relatório, US$ 46 bilhões em receitas dos bancos de atacado podem migrar para trilhos digitais até 2030, o equivalente a 6% das receitas totais estimadas, de US$ 770 bilhões. As áreas mais expostas seriam pagamentos internacionais, câmbio, trade finance, liquidez e serviços para investidores. Em novas receitas, a projeção-base é que as criptomoedas adicionem US$ 4 bilhões em novas receitas. O estudo aponta que os ativos digitais dificilmente vão substituir os bancos tradicionais ou ameaçar o modelo de funding baseado em depósitos, mas podem alterar a forma como algumas linhas de negócios operam. A avaliação é que o principal impacto virá menos das criptomoedas como classe de ativos e mais da migração de atividades tradicionais para “trilhos digitais”, com liquidação em tempo real, operações programáveis e menor custo operacional. Segundo Denis Nakazawa, sócio de serviços financeiros e digital da Oliver Wyman, a discussão sobre ativos digitais mudou nos últimos anos. “Quando eu comecei, mais ou menos em 2020, com isso [ativos digitais], a gente tinha a sensação de que esse tema de cripto, principalmente, ia mudar, ia disruptar o mercado financeiro”, afirmou. Agora, para os bancos de atacado, esse cenário é visto como improvável. O executivo afirmou que o Brasil teve uma dinâmica própria por causa do Pix, que reduziu parte das dores que poderiam impulsionar stablecoins e moedas digitais no varejo. “O Pix é um produto incrível, porque é um produto que é 24/7, ele é on-line e, para o varejo, ele é gratuito”, afirmou. “Isso acabou ocupando o espaço do que seria tipicamente de stablecoins, CBDCs [moedas digitais de Banco Central], mas isso no varejo.” Para Nakazawa, o uso de ativos digitais acabou encontrando mais espaço justamente no atacado. Segundo ele, as maiores oportunidades de transformação hoje estão em pagamentos internacionais, liquidez e tokenização de ativos. “Hoje é um processo muito doloroso, pode demorar, opaco e tipicamente caro”, disse sobre transferências internacionais. “A gente está falando de em torno de 5% de fee [taxa], que normalmente é cobrado nesse mercado.” Ele afirmou que o uso de stablecoins e infraestruturas tokenizadas pode reduzir intermediários e custos de forma relevante. “Com ‘digital assets’, isso praticamente deixaria de existir dessa forma”, afirmou. “Você continua fazendo a transferência, mas vai transferir um stablecoin de forma instantânea. Sem correspondente bancário, sem usar infraestruturas tradicionais e a um custo muito menor.” O relatório destaca justamente que os pagamentos internacionais aparecem entre as áreas mais suscetíveis à migração para trilhos digitais, ao lado de gestão de garantias, liquidez e câmbio. O documento afirma que a tecnologia permite operações praticamente instantâneas, redução de reconciliações e menor necessidade de pré-financiamento de liquidez. Nakazawa afirmou que o movimento representa mais uma redistribuição de receitas do que uma ameaça aos bancos. “A gente estima ali que entre 5% e 10% pode estar ameaçado”, disse. “Porque hoje uma parte importante da receita dos bancos vem de ‘cross border’ [transações entre países].” Segundo ele, os bancos que não adotarem infraestrutura tokenizada podem perder espaço para fintechs e novos participantes. “Os bancos estão num momento atual de falar: dado que isso aqui pode afetar uma parte importante da minha receita, será que eu não deveria pensar em adotar essas novas tecnologias?”, afirmou. O relatório destaca que a adoção dos trilhos digitais podem ampliar a diferença entre os bancos líderes e o resto do mercado ou permitir que novos concorrentes alcancem linhas de negócio até então difíceis de penetrar. Segundo o documento, as instituições pioneiras estarão em melhor posição. “Instituições que se moverem mais lentamente correm o risco de erosão gradual, principalmente onde concorrentes não bancários ou nativos de criptomoedas podem oferecer alternativas mais baratas, mais rápidas ou mais integradas.” Apesar disso, a Oliver Wyman vê baixa probabilidade de as stablecoins substituírem os depósitos bancários tradicionais. “Mesmo na produção mais agressiva, ele não é suficiente para afetar o modelo de ‘funding’”, afirmou Nakazawa, considerando o valor total de mercado de stablecoins. “Ele é um percentual muito pequeno do total de depósitos do mercado como um todo, mesmo em 2030.” O relatório projeta que o mercado global de stablecoins pode atingir entre US$ 1 trilhão e US$ 4 trilhões até 2030, mas ainda assim representaria uma fatia relativamente pequena do sistema financeiro global. “Mesmo nos cenários mais otimistas de adoção, a análise da Oliver Wyman conclui que isso resultaria em no máximo 6% dos depósitos dos Estados Unidos migrando para stablecoins até 2030, com impacto menor no restante do mundo”, diz o documento. O estudo também aponta que a mudança regulatória nos Estados Unidos acelerou a adoção global de ativos digitais. Segundo Nakazawa, a aprovação do “Genius Act” e do “Clarity Act”, legislações que regulamentam stablecoins e ativos digitais, respectivamente, marcou uma virada na postura em relação ao setor. “O fato deles darem essa possibilidade também provocou como se fosse uma reação em cadeia nos outros países.”
Até US$ 82 bi em receitas dos bancos de atacado podem migrar para trilhos digitais até 2030, aponta estudo
No cenário de adoção mais ampla, a expectativa é que criptomoedas adicionem US$ 8 bilhões em novas receitas para os bancos de atacado até 2030













