Nos últimos três anos, empresas de médio porte vêm concentrando a maioria das certificações concedidas pelo Sistema B no Brasil. Entre 2023 e 2025, 60 companhias desse segmento foram reconhecidas como Empresa B, por atender padrões de desempenho social, ambiental e de governança. Desde o início da operação do Movimento B no Brasil, em 2013, pela primeira vez, os pedidos de certificação no segmento de negócios de médio porte têm superado os demais. Levantamento feito pelo Sistema B com exclusividade para o Valor indica que, do total de certificações para empresas de médio porte no Brasil, 53% foram concedidas entre 2023 e 2025. Entre as 342 que obtiveram o selo pelo Sistema B no país, 114 são consideradas de médio porte. Nesse grupo, 43% já foram recertificadas. “Temos observado uma maior procura pela certificação de Empresa B no segmento de médio porte nos últimos três anos, quando comparamos com os demais negócios. Entre 2023 e 2025, a média das certificações nos outros segmentos foi 44%”, diz Cinthia Gherardi, co-CEO do Sistema B no Brasil. O aumento do interesse das empresas de médio porte pela certificação reflete o anseio desse grupo por maior visibilidade no mercado. Na avaliação de Gherardi, em empresas familiares, por exemplo, a nova geração entende que ser Empresa B favorece movimentos de expansão, busca por investidores e alternativas para fusões e aquisições. Obter o selo ainda facilita o acesso a novos mercados, sobretudo para empresas exportadoras que miram os países da União Europeia, onde é maior a exigência em relação a ESG (sigla para critérios ambientais, sociais e de governança). “A certificação amplia a visibilidade em mercados e em temos de alcance de consumidores, além de preparar negócios de médio porte para atender a cadeia de valor das grandes empresas. Isso é um diferencial competitivo, porque as grandes empresas têm requisitos de sustentabilidade”, diz Gherardi. Para se tornar uma Empresa B, é preciso comprovar que o negócio gera impactos positivos e consistentes nas áreas social e ambiental, além de manter rigor com transparência e governança. Criada nos Estados Unidos há 20 anos pela rede sem fins lucrativos B Lab, a certificação passou por atualização global nos últimos anos e tornou-se mais rigorosa na avaliação dos requisitos. Outra mudança foi aumentar o alinhamento dos critérios para concessão do selo aos principais desafios sociais, ambientais e econômicos da atualidade, observa a executiva. Doutor em Sustentabilidade pela Universidade de São Paulo (USP), professor da ESPM e diretor presidente da Associação Brasileira dos Profissionais pelo Desenvolvimento Sustentável (Abraps), Marcus Nakagawa diz que, globalmente, há um movimento para aumentar a régua na análise dos indicadores financeiros relacionados à sustentabilidade, não mais restrito a grandes empresas. Nakagawa observa que o aprimoramento desses indicadores evolui desde os anos 2000. Vemos a UE colocando vários indicadores para fornecedores globais, inclusive os de médio porte” Um exemplo é a adoção das normas IFRS S1 e S2, estabelecidas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB) para padronizar dados financeiros e contábeis sobre riscos e oportunidades relacionados às práticas sustentáveis. “Vemos a União Europeia colocando vários indicadores para fornecedores globais, inclusive os de médio porte”, ressalta. Na visão de Nakagawa, todo movimento do Sistema B, para além do impacto de reputação e imagem, traz um fator educacional muito grande, criando a cultura de indicadores e certificações que valida ações corporativas sob o ponto de vista social, ambiental e de governança. Essa cultura também contribui para inibir ações de marketing promovidas por instituições e empresas que querem passar a imagem de sustentáveis, mas, na prática, não mantêm esse compromisso. Por outro lado, o pesquisador reconhece que o processo de certificação exige muito empenho, sobretudo de empresas de menor porte, que não costumam ter departamentos exclusivos para tratar da agenda ESG. “O Sistema B trabalha com indicadores críveis, que validam as ações das empresas certificadas. Esse movimento cria metodologia e freia o greewashing, o socialwashing, o diversitywashing e todos os washings possíveis. O Sistema B mostra a credibilidade de um modelo de cultura ética sustentável, que antes era colocado como ideológico”, observa. Certificada como Empresa B pela primeira vez em abril de 2022, a Celcoin, que desenvolve tecnologia e infraestrutura para o segmento financeiro, foi recertificada no ano passado. Fundada em 2016, a infratech de médio porte que processa mensalmente cerca de R$ 40 bilhões em transações levou um ano para obter o primeiro selo. No período, a empresa precisou provar a consistência entre o discurso e a prática, lembra Adriano Meirinho, cofundador e diretor de marketing da Celcoin. “A certificação nunca foi um fim em si, foi consequência da decisão de construir uma empresa de infraestrutura financeira com padrões de governança desde o início”, afirma Meirinho. Para ele, uma das evoluções mais significativas, desde a obtenção do selo, foi a institucionalização da governança. “O principal avanço não está nas iniciativas isoladas, mas na institucionalização da governança: maior formalização de processos e controles, evolução de transparência e prestação de contas e fortalecimento de práticas internas ligadas a pessoas e cadeia de valor. O impacto em si deixa de ser um tema periférico e passa a ser incorporado na operação, sobretudo uma empresa regulada”. Mesmo diante de um mercado mais cético com relação a ESG, a Celcoin considera o selo importante por sinalizar disciplina operacional. “Indica que existe método, auditoria e comparabilidade. No setor financeiro, isso ganha ainda mais peso, ambiente em que confiança é infraestrutura, regulação é parte do produto e risco precisa ser gerido em escala”, diz Meirinho.