A ação foi movida pelo ex-vereador Andrea Matarazzo; Juíza considerou "a magnitude do projeto, o impacto na região, bem como o potencial dano à toda população" para conceder a liminar Painéis de LED que serão instalados no Boulevard São João — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 27/05/2026 - 18:23 Justiça de SP suspende "Times Square Paulistana" por impacto urbano A Justiça de São Paulo suspendeu o projeto "Times Square Paulistana", conhecido como Boulevard São João, devido ao seu impacto potencial e possíveis danos à população. A decisão, dada pela juíza Celina Kiyomi Toyohima, impede a instalação de painéis de LED e exige revisão de pareceres técnicos. O projeto, que buscava revitalizar o centro com publicidade limitada, enfrenta críticas por enfraquecer a Lei Cidade Limpa. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A Justiça de São Paulo decidiu, nesta quarta-feira (27), suspender o projeto Boulevard São João, que ficou conhecido como "Times Square Paulistana". O projeto previa uma reurbanização da area e instalação de enormes painéis de LED, que abriram a discussão se o projeto no cruzamento da Ipiranga com a São João não infringia a Lei Cidade Limpa. A ação popular foi movida, entre outros, pelo ex-vereador da capital Andrea Matarazzo, um dos conselheiros políticos de Gilberto Kassab, presidente do PSD. A decisão reconhece a problemática a partir da magnitude do projeto, o impacto na região e o "potencial dano à toda população". A juíza Celina Kiyomi Toyohima, da 4ª Vara da Fazenda Pública, determinou a suspensão imediata da autorização publicada em Diário Oficial, o início de quaisquer obras, instalações ou intervenções relacionadas ao projeto, incluindo a fixação, montagem ou instalação dos painéis de LED e reavaliação de pareceres técnicos. Além disso, a magistrada demandou os pareceres técnicos da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento e da São Paulo Urbanismo, os documentos relativos à deliberação anterior do Conpresp, os registros da consulta pública, incluindo o total de manifestações recebidas, e o relatório de análise. Como mostrou O GLOBO, os empresários envolvidos no projeto foram alertados por Gilberto Kassab, que aconselhou os empresários a recalcularem a rota para não atropelar a Lei Cidade Limpa. O que seria uma vitrine para marcas virou um acordo engessado para viabilizar o projeto. Na prática, o cruzamento da Ipiranga com a São João passaria longe da praça de Nova York: com apenas quatro telas de LED, limitadas a 30% de tempo para publicidade comercial, e estritamente condicionadas a um pacote de restauros físicos e eventos culturais. Figura historicamente ligada aos governos do PSDB, Andrea Matarazzo também foi ministro da Secretaria de Comunicação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1999-2001), e secretário estadual da Cultura nas gestões de Alberto Goldman e Geraldo Alckmin, em São Paulo (2010-2012). Em julho de 2025, Matarazzo escreveu um artigo no jornal "Folha de S. Paulo" em que fez duras críticas ao projeto aprovado na Câmara Municipal de São Paulo, com apoio do prefeito Ricardo Nunes (MDB). Ele lembra que era secretário de Subprefeituras na capital, governada por Kassab, quando a Lei Cidade Limpa foi implementada. Para ele, a iniciativa flexibiliza “pontos centrais” da legislação e abre caminho “para a volta da poluição visual e para a desfiguração de espaços protegidos”. “É legítimo discutir melhorias na lei, mas é inaceitável usar esse debate como cavalo de Troia para reinstaurar a lógica do interesse individual sobre o coletivo, transformando a cidade num pastiche publicitário que apaga sua história e compromete sua identidade”, declarou o ex-secretário. Os empresários da Fábrica de Bares, responsáveis pelo projeto, foram procurados pelo GLOBO, mas não enviaram posicionamento até a última atualização desta reportagem. Matarazzo também foi procurado para comentar a ação judicial, mas ainda não retornou o contato. Prefeitura e governo do Estado também não se manifestaram até o momento. Entenda o projeto Batizado oficialmente como "Boulevard São João", o projeto foi aprovado pela Comissão de Proteção à Paisagem Urbana (CPPU) com uma brecha raramente utilizada na Lei Cidade Limpa, a mesma que proíbe publicidade externa em São Paulo desde 2007. Na prática, os outros 70% ficam reservados para conteúdo de utilidade pública e cultural, curado por um comitê tripartite com representantes dos empresários, da Prefeitura e do Governo do Estado. Apesar de referendada pela CPPU, especialistas apontaram que a medida pode contribuir para enfraquecer a Lei Cidade Limpa, consagrada nacionalmente por ter reduzido a poluição visual em São Paulo, em outras regiões da capital, e ainda criticam as contrapartidas exigidas pela prefeitura para liberar o projeto. O Boulevard São João vem sendo exaltado como vitrine pelo prefeito Ricardo Nunes e pelo governador Tarcísio de Freitas — que chegou a publicar vídeos feitos com inteligência artificial em suas redes para mostrar como ficaria a iniciativa. Ao anunciarem o feito na semana passada, Tarcísio disse que a proposta faz parte de outras iniciativas que vão “resgatar a história e devolver o Centro para a população”, enquanto Nunes disse que será “mais um grande espaço de turismo para nossa cidade”. — Era preciso fazer algo impactante, quem sabe até polêmico, mas referendado no mundo inteiro. A primeira ideia era um monte de tela, aí nos disseram que era impossível. Então optamos por algo que contaminasse o centro de forma positiva. A gente sonha em ver o centro com multidão na rua, se divertindo, consumindo, passeando. E se a conta fechar para a gente, está ótimo — defendeu ao GLOBO o empresário e idealizador do projeto Álvaro Aoas. Boulevard São João — Foto: Editoria de Arte/O Globo O que veio a seguir foi um processo de mais de três anos de negociação, adaptação e recuo. O projeto original era muito mais ambicioso, e sua versão atual é, em grande medida, o resultado de uma série de limitações impostas por tombamentos, legislação e órgãos de fiscalização. Esse caminho incluiu uma conversa com Gilberto Kassab, ex-prefeito e criador da própria Lei Cidade Limpa. — Consultamos o Kassab e ele disse que apoiaria desde que as regras fossem respeitadas. Foi a dica dele que nos fez pensar em todas as atividades culturais projetos para movimentar o local. Fomos achando alternativas, até chegar num projeto que não fere tombamento, não fere a Cidade Limpa e traz a população pra rua — afirma o dono do Bar Brahma. Kassab disse ao GLOBO que foi apresentado ao projeto, em encontro com a iniciativa privada, quando era secretário de Governo de Tarcísio. Ele relatou que, nessa reunião, os empreendedores alegaram que os letreiros não seriam usados para publicidade, e sim para divulgar eventos culturais — e, dessa forma, não avaliou como um desvirtuamento da legislação. — É uma esquina emblemática da cidade de São Paulo, que pode ser um importante pilar da reconstrução do centro, levando as pessoas a frequentarem mais os equipamentos. Evidentemente que, para aqueles que querem revitalizar o centro, como eu, eles têm o meu apoio. Sendo esse o conceito, não tem por que ficarmos contra — concluiu o dirigente. A brecha na lei e o placar apertado O instrumento que viabilizou o Boulevard São João é um "termo de cooperação" previsto na própria Lei Cidade Limpa, que permite exceções à proibição de publicidade externa mediante contrapartidas ao município. O projeto foi aprovado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) em fevereiro de 2026 e pela CPPU em 11 de março, após uma reunião de seis horas — e por apenas 8 votos a 6. Aoas minimizou o placar apertado ao destacar que a própria presidente da CPPU, Regina Monteiro, historicamente linha-dura na defesa da lei, teria se tornado entusiasta do projeto após o processo de análise. As contrapartidas para o projeto sair do papel estão detalhadas no termo de cooperação e teriam prazo de até três anos para serem concluídas. Estavam incsusas a restauração da fachada Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, no Largo do Paissandu, a Estátua da Mãe Preta, no mesmo local, e o Relógio de Nichile, na Praça Antônio Prado, onde tem início a Avenida São João. As contrapartidas urbanas somavam R$ 8 milhões em restauros, instalação de 105 bancos e 30 lixeiras, além de arborização de perímetro de 42 mil metros quadrados. Para autorizar a instalação dos painéis, o jurídico da gestão Nunes se baseou em um artigo da própria Lei Cidade Limpa que prevê que o Executivo “poderá celebrar termo de cooperação com a iniciativa privada visando à execução e manutenção de melhorias urbanas, ambientais e paisagísticas e conservação de áreas municipais”, com placas indicativas do termo de cooperação. Historicamente, esse instrumento é usado para que empresas “adotem” praças públicas em troca de ter uma placa com seu logo exposto nos locais que ajudam a conservar, sendo essa a primeira vez que haverá uma parceria mais ampla, possibilitando publicidade das empresas em painéis de LED em troca de manutenção de áreas públicas e restauro de bens. O prazo da cooperação será de três anos, conforme prevê a lei. Em 2023, a prefeitura autorizou, pela primeira vez, uma cooperação parecida, mas mais localizada: o Copan, icônico edifício projetado por Oscar Niemeyer, poderia receber pubicidade em sua fachada para custear seu restauro. Apesar da autorização, a administração do edifício nunca colocou em prática a instalação da publicidade.
Justiça de SP suspende projeto da 'Times Square' paulistana
A ação foi movida pelo ex-vereador Andrea Matarazzo; Juíza considerou "a magnitude do projeto, o impacto na região, bem como o potencial dano à toda população" para conceder a liminar









