Quando Nina chegou ao Hospital Veterinário Elective, em Maringá, no Paraná, o quadro era considerado extremamente grave. A cadela sem raça definida, de quatro anos na época, chegou em estado de quase coma, reagindo a poucos estímulos, após desenvolver uma injúria renal aguda causada pela combinação entre uma picada de animal peçonhento e o uso de corticoide em um organismo já afetado por hipercortisolismo. Vinda de Sertanópolis, no interior do estado, ela havia passado por outros atendimentos antes de ser encaminhada a uma estrutura especializada. A história de Nina é uma entre mais de dez registradas pela Elective: casos considerados sem saída que, com o tratamento correto, resultaram em recuperação e qualidade de vida. A recuperação de Nina exigiu sete sessões de hemodiálise e dez dias de internação intensiva. Aos poucos, ela voltou a responder aos estímulos, retomou a alimentação e recebeu alta andando. Hoje, aos seis anos, leva uma vida normal. O caso ilustra o que a equipe da Elective passou a observar com mais frequência nos últimos anos: animais que chegam depois de uma longa trajetória por diferentes atendimentos, em estado crítico, e que ainda têm chances reais de recuperação quando recebem suporte especializado no momento certo. "Muitos chegam depois de passar por diferentes atendimentos até que o quadro finalmente seja compreendido. Em alguns casos, o tutor já escutou que não existia mais alternativa. Só que a nefrologia veterinária evoluiu muito nos últimos anos e hoje conseguimos estabilizar pacientes que antigamente dificilmente sobreviveriam", afirma a Dra. Marcela Croffi, médica veterinária especializada em nefrologia e urologia veterinária e responsável pelo hospital. O movimento acompanha o crescimento do próprio mercado pet brasileiro. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet) colocam o Brasil como a terceira maior população pet do mundo. Ao mesmo tempo, cresce a procura por especialidades veterinárias, impulsionada pela humanização dos animais e pela busca dos tutores por tratamentos mais avançados. A Elective é reflexo direto dessa transformação: sem divulgação ativa, o hospital já recebeu pacientes encaminhados de diferentes estados, consolidando Maringá como polo de referência regional em medicina veterinária intensiva. Na rotina da Elective, os atendimentos mais delicados costumam envolver pacientes que chegam debilitados após dias de evolução clínica. Em doenças renais, o tempo até o diagnóstico correto costuma ser determinante para a recuperação. "O rim é um órgão extremamente sensível. Muitas vezes, o animal para de comer, fica mais quieto ou vomita, e os sinais acabam sendo confundidos com situações menos graves", explica a Dra. Marcela Croffi. A especialista afirma que parte importante do trabalho envolve identificar rapidamente a origem do problema e iniciar terapias capazes de evitar danos permanentes. Em casos como o de Nina, a hemodiálise funciona como suporte temporário para que o organismo consiga se recuperar enquanto o tratamento principal é conduzido. Quando a hemodiálise não é indicada, a equipe recorre à diálise peritoneal, que utiliza a membrana do peritônio como filtro natural. Ambos os procedimentos exigem estrutura hospitalar, monitoramento contínuo e equipe altamente treinada. Além da nefrologia, o hospital realiza videocirurgia urológica minimamente invasiva e cirurgias respiratórias em animais braquicefálicos, como bulldogs e pugs, raças que demandam cuidados anestésicos e respiratórios específicos. A clínica atende exclusivamente pequenos animais, com predominância de cães (aproximadamente 70%) e gatos (30%), e mantém uma equipe pequena, estável e de longa data, selecionada também pela capacidade de acolhimento emocional em momentos de crise. Marcela conta que o envolvimento com os pacientes influenciou diretamente a construção da estrutura da clínica ao longo dos anos. "A gente se apega, não tem como. São internações longas, famílias fragilizadas e animais lutando para sobreviver. Então fomos criando uma estrutura pensando realmente em salvar vidas e oferecer conforto tanto para o paciente quanto para os tutores", diz. Outro pilar do hospital é a transparência prognóstica: a equipe comunica ao tutor de forma direta e honesta as chances reais de recuperação, os riscos dos procedimentos e os limites do que a medicina pode oferecer em cada caso. "O tutor que chega até nós quer a verdade e quer saber que tudo está sendo feito. Não adianta criar falsas esperanças", afirma a especialista. Segundo a Dra. Marcela Croffi, o perfil dos próprios tutores mudou. "Hoje as famílias acompanham mais de perto os tratamentos, pesquisam, pedem encaminhamento para especialistas e entendem que determinadas doenças precisam de suporte específico. A medicina veterinária ficou mais parecida com a medicina humana também nesse aspecto." Para ela, casos como o de Nina ajudam a mostrar que prognósticos difíceis nem sempre representam um ponto final. "Nem todo paciente vai conseguir se recuperar, e é importante ter responsabilidade ao dizer isso. Mas existem muitos animais que ainda têm chance quando recebem o tratamento adequado no momento certo."
Mais de 10 pets considerados sem solução voltaram a ter qualidade de vida após tratamentos especializados em nefrologia
Com o avanço do setor e o aumento dos atendimentos de alta complexidade, especialista relata crescimento de animais encaminhados em estado crítico após passarem por diferentes clínicas sem diagnóstico preciso










