O governo do presidente Donald Trump pretende transferir para o Quênia cidadãos americanos expostos ao vírus ebola, em vez de repatriá-los aos Estados Unidos para monitoramento e tratamento, segundo três fontes com conhecimento do plano ouvidas pelo New York Times. A medida marca uma mudança significativa em relação à resposta adotada por governos anteriores em surtos de ebola. Antes, profissionais de saúde e outros americanos expostos ao vírus eram levados de volta aos EUA para tratamento em unidades médicas especializadas. Neste mês, porém, o governo tomou ações distintas e transferiu um médico americano com sintomas para um hospital na Alemanha e enviou outros seis cidadãos para monitoramento na Alemanha e na República Tcheca. Os cortes de ajuda implementados pelo governo Trump desmantelaram redes essenciais de vigilância epidemiológica e cadeias de abastecimento médico que poderiam ter identificado e contido o surto mais cedo. Na semana passada, a gestão do republicano chegou a acionar uma lei sanitária conhecida como “Title 42” para impedir a entrada nos Estados Unidos de imigrantes e residentes permanentes legais que estiveram na RDC, Uganda ou Sudão do Sul nos 21 dias anteriores. De acordo com informações de duas fontes ouvidas pelo New York Times, o plano prevê manter fora dos EUA cidadãos americanos potencialmente expostos à doença. Dezenas de agentes do Serviço de Saúde Pública dos EUA estão sendo treinados para atuar no Quênia no atendimento de americanos considerados de alto risco para desenvolver ebola. Inicialmente, o plano era apenas monitorar essas pessoas no país africano e transferir para a Europa quem começasse a apresentar sintomas. Agora, porém, o governo também pretende realizar o tratamento no próprio Quênia, conforme relatos de duas fontes envolvidas nas discussões ao jornal. Cientistas e médicos do governo americano que desenvolverem sintomas também seriam tratados no país. Segundo um funcionário do governo Trump com conhecimento do plano, o governo está montando uma instalação no Quênia para quarentena e tratamento de cidadãos americanos, em uma operação coordenada entre os Departamentos de Estado, Defesa e Saúde. Cada caso será analisado individualmente para avaliar a necessidade de atendimento mais avançado. Os Estados Unidos contam com diversas instalações especializadas para monitoramento e tratamento de doenças perigosas. Uma das unidades está instalada em Omaha, por exemplo, e atualmente acompanha 18 americanos expostos ao hantavírus após um surto registrado neste mês em um cruzeiro holandês. Segundo Craig Spencer, especialista em saúde pública da Universidade Brown, embora a instalação montada no Quênia possa oferecer condições superiores às disponíveis na RDC de modo geral, ela dificilmente alcançará o mesmo nível tecnológico das unidades americanas preparadas para tratar ebola e outros patógenos de alta periculosidade. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que o novo surto do vírus na República Democrática do Congo (RDC, ex-Zaire), provocado pela variante Bundibugyo e anunciado há apenas 11 dias, já deixou mais de mil pessoas infectadas e mais de 200 mortes. Com esses números, a nova onda de infecções pelo ebola se tornou a terceira maior já registrada. O epicentro do surto está na província de Ituri, na RDC, uma região marcada por conflitos frequentes e grande circulação de pessoas — fatores que dificultam o controle da doença. A rápida piora da epidemia levou a OMS a declarar o surto uma emergência de saúde pública de interesse internacional. A taxa de mortalidade do vírus, por sua vez, é de cerca de 50%. O acesso precoce a tratamento de alta qualidade, entretanto, pode aumentar drasticamente as chances de sobrevivência.