O governo de Donald Trump planeja enviar ao Quênia cidadãos americanos expostos ao vírus Ebola em vez de levá-los de volta para os Estados Unidos para observação e tratamento, segundo informaram três pessoas com conhecimento dos planos. A abordagem é um contraste marcante com a forma como administrações anteriores responderam a surtos, durante os quais trabalhadores de saúde e outros cidadãos americanos expostos ao vírus eram levados de volta aos EUA para serem tratados em unidades médicas especializadas. O governo, neste mês, já transportou de avião um médico americano que desenvolveu sintomas para um hospital na Alemanha e levou outros seis americanos para monitoramento na Alemanha e na República Tcheca. A epidemia de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) já acumula mais de mil casos e mais de 200 mortes em apenas 11 dias desde que foi anunciada, tornando-se o terceiro maior surto já registrado do vírus. Cortes de ajuda humanitária da administração Trump encerraram redes cruciais de vigilância de doenças e cadeias de suprimentos médicos que poderiam ter detectado e contido a epidemia mais cedo. Na semana passada, a administração a americana invocou uma lei de saúde pública conhecida como "Title 42" para barrar imigrantes e residentes permanentes legais que estiveram na RDC, Uganda ou Sudão do Sul nos 21 dias anteriores de entrar nos EUA. A nova proposta do governo também manteria cidadãos americanos que possam ter sido expostos ao Ebola fora do país, segundo duas das pessoas com conhecimento dos planos, que falaram sob condição de anonimato porque não estavam autorizadas a discutir o assunto publicamente. Algumas dezenas de oficiais do Serviço de Saúde Pública estão sendo treinados para serem enviados ao Quênia para fornecer cuidados médicos a americanos considerados de alto risco de desenvolver Ebola. O plano inicial era monitorar esses americanos no Quênia, mas transferir qualquer pessoa que começasse a apresentar sintomas para tratamento na Europa. No entanto, a administração agora planeja também fornecer tratamento no Quênia, segundo duas das pessoas com conhecimento do planejamento. Cientistas e médicos do governo que desenvolverem sintomas também serão tratados no Quênia. O governo americano está estabelecendo uma instalação no país africano, onde cidadãos americanos poderão ser colocados em quarentena ou tratados, por meio de um esforço coordenado com os departamentos de Estado e Defesa e o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, segundo uma das pessoas com conhecimento dos planos, um funcionário da administração Trump. Cada caso será avaliado caso seja necessário um cuidado mais avançado, segundo o funcionário. Um porta-voz da Casa Branca se recusou a comentar. O Ebola tem uma taxa de mortalidade de cerca de 50%, mas o acesso precoce a cuidados de alta qualidade e tratamentos pode melhorar drasticamente as chances de sobrevivência. — Sabemos que as chances de eles sobreviverem a uma infecção por Ebola seriam maiores em unidades especializadas que foram projetadas para cuidar deles — diz Tom Inglesby, diretor do Centro de Segurança Sanitária Johns Hopkins, da Escola de Saúde Pública Bloomberg. Os Estados Unidos têm várias instalações com recursos de última geração para monitoramento e tratamento de pessoas com doenças perigosas, incluindo Ebola. Isso inclui uma unidade em Omaha, Nebraska, onde 18 americanos estão sob observação por hantavírus após um surto em um navio de cruzeiro holandês neste mês. Inglesby afirma ter ficado particularmente surpreso com o plano de não repatriar oficiais do Serviço de Saúde Pública de volta aos Estados Unidos para tratamento: — Temos um forte compromisso ético de cuidar deles com o melhor tratamento possível nos Estados Unidos. Embora a instalação no Quênia possa ser melhor do que as da RDC, é improvável que atinja a sofisticação das estabelecidas nos Estados Unidos para Ebola e outros vírus perigosos, segundo Craig Spencer, especialista em saúde pública da Universidade Brown: — Considero difícil acreditar que eles conseguirão montar em questão de alguns dias ou até meses um sistema semelhante ao que foi criado ao longo da última década para fazer exatamente isso. Spencer é um médico de emergência que contraiu Ebola em 2014 após tratar pacientes na Guiné. Ele ficou na unidade de terapia intensiva do Bellevue Hospital em Nova York por 19 dias. Deixar americanos na África em vez de trazê-los para casa é “uma renúncia dramática do que devemos aos nossos próprios”, afirma o especialista. O surto de Ebola está concentrado na província de Ituri, na RDC, que tem conflito quase constante e alta mobilidade populacional, ambos fatores que tornam mais difícil conter um surto. A epidemia de rápida escalada no país levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a chamá-la de emergência de saúde pública de importância internacional em meados de maio.