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Primeira cantora lírica brasileira a obter uma bolsa de estudos na Juilliard School de Nova York, Manuela Korossy conta que é preciso muita garra e dedicação para estudar em uma das mais conceituadas instituições de formação artística do mundo, fundada em 1905. Nascida em Brasília, a jovem de 24 anos, que fará um recital de formatura na noite de 11 de fevereiro, no Teatro Paul Hall, que pertence à escola, chegou a ter três trabalhos temporários, ao mesmo tempo, para se manter numa das cidades mais caras do mundo, mesmo com os estudos custeados pela escola.“Eu entrei inicialmente com uma bolsa de 90%, mas, posteriormente, minha bolsa aumentou para cobrir a minha anuidade completa. Eu não paguei para estudar na Juilliard. Do contrário, seria um projeto um tanto irrealizável, porque, apesar de ser uma escola excelente, é muito cara”, diz ela ao PÚBLICO Brasil. Quer receber notícias do PÚBLICO Brasil pelo WhatsApp? 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Assim como o sistema de saúde. “Eu precisei racionar comida, paguei consultas médicas adicionais, porque não tem saúde pública nos Estados Unidos. Então, é uma coisa que eu sempre falo para as pessoas, especialmente para quem vem de contextos como o meu: primeiro você precisa saber se tem condição e disposição de enfrentar essas situações, e, segundo, tenha um planejamento para que, mesmo assim, a sua intenção inicial, que é estudar música, não seja prejudicada”.Para sobreviver e pagar US$ 1,3 mil pelo aluguel de um quarto (há valores mais altos), Manuela admite que houve semestres em que acumulou três trabalhos temporários, dentro da própria escola, que oferece alguns serviços extras, como na área administrativa, na biblioteca. “Eu também dava aulas de canto para ganhar um dinheirinho”, enfatiza ela, que, no semestre passado, estreou no Carnegie Hall, com a Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga, grupo formado por meninas e mulheres brasileiras da rede pública de ensino, onde também estudou.Vaquinha virtualA carga horária da Juilliard, comenta Manuela, também é “pesada”. “Não é uma escola que é feita para a realidade de alunos que precisam trabalhar e estudar. Ela é uma escola que é feita para que você se dedique exclusivamente à música. Então, eu precisei, por exemplo, deixar de estudar minha prática regular de canto para trabalhar e conseguir terminar o semestre. E ainda tive a minha família me ajudando e até vaquinha virtual feita por amigos brasileiros”.A brasiliense enfrentou tantos percalços, que, depois do primeiro ano na Juilliard, trancou a faculdade e viajou para Budapeste. “Eu fui para a Europa, porque não acreditava que conseguiria terminar o curso, justamente por conta dessa situação financeira. Como minha família materna é húngara e eu tinha contatos na cidade, pensei em pedir transferência para a Academia de Música de Budapeste, a Liszt Ferenc, porque lá eu também teria educação gratuita e Budapeste é incomparavelmente mais barata do que Nova York. Mas, no fim das contas, a Juilliard aumentou a minha bolsa”, afirma.Na pandemiaManuela fazia bacharelado na UnB (Universidade de Brasília) quando surgiu a oportunidade de estudar em Nova York. Durante a pandemia, ela aponta que, pela primeira vez na história, a escola abriu uma audição online. “Normalmente as audições são em Nova York. Eu teria que arcar com os custos da viagem para fazer a prova. Só que, excepcionalmente, eles abriram essa audição integralmente online”, relembra ela, que, durante a audição, estava com covid-19. “A prova tem três etapas. A última era uma audição por zoom. E, faltando 10 dias para o prazo final da chamada dessas provas, testei positivo para o novo coronavírus. Eu estava tossindo, aquela doideira toda”.Mesmo assim, a então candidata, que enfrentou 460 concorrentes, foi aprovada. “A média de aceitação do curso de música é de 5 a 7%”, orgulha-se. Com o curso concluído, a soprano diz que quer levar sua arte para todos os cantos do mundo. E, principalmente, derrubar o mito que o público brasileiro não se interessa por ópera.“Existe muito esse mito de que, no Brasil, as pessoas não se interessam por música clássica. Mas precisamos fazer com que as nossas plateias entendam que o que acontece no teatro não é só feito para elas, mas é feito sobre elas. De forma que a nossa audiência seja cada vez mais universal”, planeja. E ela acrescenta: “Porque o que acontece na história de uma ópera é muito mais próximo da realidade das pessoas do que a gente vê, inclusive, em cinema, em outras histórias que têm um caráter mais ficcional. É uma arte que se desenvolveu enquanto espelho social. Quando as pessoas entenderem que o palco de ópera é uma oportunidade para que a voz delas também seja ouvida, vamos ter essa mudança da ópera enquanto arte nichada para arte pertencente à cultura popular".






