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Escrevo enquanto rajadas sopram na cidade, derrubando árvores, bloqueando ruas e interrompendo rotinas que até recentemente pareciam estáveis. Já é rotina para muitas pessoas. Não é um episódio isolado. É algo que invade a vida psíquica e altera a forma como habitamos o mundo.Por muito tempo, organizamos nossas vidas em torno da previsibilidade. Casas, ruas, estações, horários, pequenos rituais diários. A repetição permite que o corpo construa um senso de segurança e expectativa de continuidade. Quando o ambiente perde regularidade, a segurança interna começa a escorregar.Tenho observado, também na clínica, um aumento consistente desse tipo de sofrimento. Chegam relatos de inquietação, insónia, irritação e fadiga. Muitas vezes, sem uma associação consciente com o contexto ambiental. Ainda assim, o pano de fundo costuma ser semelhante. Um estado de angústia, medo crónico de cataclismos ambientais, desespero e desamparo diante das mudanças climáticas, hoje frequentemente nomeado como ecoansiedade ou ansiedade climática. Quer receber notícias do PÚBLICO Brasil pelo WhatsApp? Clique aqui.Importa sublinhar que não se trata de uma doença mental, mas de uma resposta psíquica a um cenário real de instabilidade. Se soma a isso um deslocamento importante. Aquilo que tradicionalmente era vivido como refúgio, a própria casa, já não garante a mesma sensação de proteção.Quando chegamos em casa, tendemos a acreditar que estamos seguros. No entanto, a natureza, na sua potência de criação e de destruição, atravessa essa fantasia. Imagens que circulam diariamente mostram casas derrubadas, levadas, desaparecidas. O espaço doméstico deixa de representar um limite claro entre perigo e proteção. Isso começa a gerar ansiedade e insegurança mesmo dentro de casa.Do ponto de vista psicológico, a segurança reside na capacidade de imaginar minimamente o amanhã. Essa função de antecipação é enfraquecida por mudanças constantes. A mente entra em estado de alerta. O sistema nervoso passa a agir como se o perigo nunca deixasse de existir.Esse medo não se aplica apenas a algo específico. Está conectado ao contexto. Em algumas pessoas, assume a forma de angústia difusa. Em outras, se organiza como medo intenso de determinados fenómenos, se inserindo no campo das fobias específicas. Podem surgir, por exemplo, a lilapsofobia, associada a tornados, furacões ou ciclones, ou a ceraunofobia, relacionada a trovões e relâmpagos. A pergunta silenciosa que surge, no entanto, permanece a mesma. O mundo ainda é um lugar onde se pode viver.Quando o medo não encontra palavras, ele aparece no corpo ou no pensamento. Pode surgir como tensão, cansaço ou ruminação contínua. Em certos casos, se manifesta também como uma dor ligada à perda do ambiente conhecido, à sensação de que o lugar de origem já não é o mesmo, experiência que se aproxima do que se denomina solastalgia.Dizer estou com medo porque o ambiente é instável dá contorno psíquico e oferece algum limite à experiência. Nomear não resolve, mas organiza. É importante diferenciar responsabilidade pessoal de onipotência. Lidar com a seriedade da situação não significa carregar sozinho o peso da solução.Outro movimento necessário é compartilhar. Explorar como cada pessoa vivencia essas mudanças promove conexão e reduz isolamento. O sofrimento silencioso tende a crescer. O sofrimento partilhado encontra mais possibilidades de elaboração.Eventos extremos também desafiam a fantasia de supremacia humana sobre a natureza. Esse confronto pode gerar angústia e desorientação. Pode também abrir espaço para uma relação mais consciente com limites, interdependência e pertencimento.






