O Reino Unido está a atravessar um período de instabilidade política que dura há pelo menos dez anos. Desde 2016, nenhum Governo cumpriu uma legislatura, ainda que nem sempre tenha havido eleições. Depois de David Cameron, os executivos conservadores de Theresa May e Boris Johnson duraram aproximadamente três anos e o de Rishi Sunak terminou ao fim de um ano e quatro meses.Algures no meio, entre Setembro e Outubro de 2022, fez-se história: a primeira-ministra Liz Truss competiu com uma alface e ficou-se por um mandato de um mês e meio. Bateu o recorde de George Canning, que governou durante 119 dias, no século XIX.Em Dezembro de 2024, o Reino Unido virou à esquerda e o trabalhista Keir Starmer tomou posse com uma equipa que leva um ano e dois meses e passa agora por um período conturbado de grande pressão política (interna e externa), em parte por causa do impacto do “caso Epstein”.O referendo ao "Brexit", em 2016, terá contribuído para uma clivagem que veio a revelar-se duradoura. Trouxe volatilidade eleitoral e obrigou a realinhamentos políticos. Mas os escândalos também cumpriram o seu papel.O Partygate, que envolveu festas e convívios em Downing Street durante os confinamentos da covid-19, no mandato de Boris Johnson, contribuiu definitivamente para a perda de confiança pública e parlamentar no executivo — e para a sua consequente queda.Rishi Sunak não saiu por causa de casos graves, mas a sua governação implicou a gestão de várias minicrises. Três exemplos: nomeações polémicas e demissões; multas por causa da pandemia; apostas com informação privilegiada sobre a data das eleições feitas por figuras ligadas aos conservadores. Resultado: o primeiro-ministro não conseguiu restaurar a reputação e a credibilidade perdida pelo partido.Nos últimos dias, a instabilidade atingiu a equipa de Keir Starmer. O seu chefe de gabinete renunciou ao cargo na sequência de ter recomendado Peter Mandelson (com ligações ao “caso Epstein”) para ser embaixador nos Estados Unidos. E 24 horas depois demitiu-se o seu director de comunicação.O partido reagiu, a oposição reagiu e o líder trabalhista escocês chegou mesmo a pedir a demissão do primeiro-ministro. Starmer reuniu-se, entretanto, com os deputados trabalhistas à porta fechada. Mantém-se firme no posto e, por enquanto, não tem de lidar com questões de legitimidade. Mas a desordem interna apareceu e o desgaste político (re)começou. Para já, sem escândalos.
Downing Street, o desgaste político continua
O referendo ao “Brexit” terá contribuído para uma clivagem que veio a revelar-se duradoura. Trouxe volatilidade eleitoral e realinhamentos políticos. Mas os escândalos também cumpriram o seu papel.






