A Transparência Internacional acaba de divulgar os resultados de 2025 do Corruption Perception Index (CPI), o indicador mais reconhecido e utilizado internacionalmente para medir e comparar os níveis de perceção de corrupção entre 182 países. Portugal volta a cair três posições no ranking e ocupa agora o 46.º lugar com um score de 56 pontos, o mais baixo desde o início da publicação do CPI em 2012 (onde Portugal surgia na 33.ª posição e um score de 63 pontos). Este resultado confirma uma tendência de deterioração da perceção internacional sobre Portugal iniciada em 2018 e que se agravou de forma muito expressiva em 2024, com uma queda de nove posições no índice.Os resultados do CPI 2024 chocaram o país e tiveram um enorme impacto mediático. Abriram telejornais, foram comentados pelos principais atores políticos, e sujeitos a um escrutínio público sem paralelo. Notáveis comentadores apressaram-se a contestar a sua credibilidade, afirmando que os resultados do índice refletiam uma perceção errada da realidade do país. “Portugal atrás da Arábia Saudita! alguém acredita?” Como se os resultados do CPI 2024 decorressem de uma qualquer intenção negativa dirigida a Portugal.O CPI tem fragilidades metodológicas? Naturalmente que sim, como todos os índices que medem indicadores de natureza subjetiva e qualitativa entre países. O CPI não mede corrupção efetiva, nem se baseia em inquéritos de opinião. Ele reflete perceções qualificadas sobre riscos de corrupção, pela análise técnica de relatórios produzidos por organizações internacionais de reconhecida reputação. A sua metodologia foi certificada duas vezes pelo Joint Research Centre da Comissão Europeia, os resultados são auditados anualmente por equipas independentes e, na ausência de um indicador melhor, o CPI continua a ser a principal referência internacional nesta matéria.Gostemos ou não, é assim que o mundo nos avalia. E os resultados de avaliações internacionais, justas ou não, têm impacto. Recordo um exemplo marcante.Corria o dia 9 de dezembro de 2011, os juros da dívida soberana portuguesa a dois anos atingiam quase os 17 %! Ou seja, mais de 10% do que era exigido às dividas de países emergentes e com fortes fragilidades nas suas democracias. Semanas antes, Portugal tinha passado à classificação de “Lixo” pelas principais agências de rating do mundo, as mesmas que um ano antes tinham cotado a sua divida nos níveis de rating “A” de estável e seguro.“Ridículo, disparate, uma total injustiça!...”, clamaram políticos e comentadores! “As agências de rating não têm credibilidade, nem transparência. Têm perceções exageradas e erradas da realidade portuguesa. Não é verdade que estejamos pior do que a maioria dos países do mundo!”Apesar das vozes indignadas, a força da perceção internacional prevaleceu. Portugal não pôde invocar a falta de credibilidade das agências de rating quando foi obrigado a pedir um resgate financeiro à troika e a implementar um vasto e exigente conjunto de reformas e cortes de que, 14 anos depois, ainda sentimos os seus efeitos.A lição é simples: não vale a pena fazer como a avestruz e discutir apenas o mensageiro. O resto do mundo não nos ouvirá. O essencial é compreender a mensagem e agir para reverter uma tendência que prejudica a reputação internacional do nosso país.Portugal é, sem dúvida, um país com uma justiça independente e com poderes formais para investigar os mais altos cargos do Estado. Mas é também um país com uma justiça excessivamente lenta, muitas vezes inconsequente e pouco eficaz no combate à corrupção. Temos um quadro legal amplo e, em geral, alinhado com as melhores práticas internacionais, mas falhamos e demoramos na sua aplicação concreta. Criámos instituições específicas com autoridade para fiscalizar a implementação do combate à corrupção, mas são ainda recentes, dispõem de recursos limitados e ainda não apresentam resultados visíveis. Aprovámos uma agenda anticorrupção, mas falta convertê-la numa estratégia com metas e métricas claras e objetivas, e uma visão de longo prazo que permita orientar as instituições e avaliar resultados. Desenvolvemos portais e instrumentos de transparência, mas fragmentados, pouco interoperáveis e com fraca capacidade de gerar alertas automáticos ou estimular o escrutínio publico efetivo.