Após a retração sofrida no ano passado, em parte por conta das sobretaxas impostas pelo governo de Donald Trump, a indústria de equipamentos de engenharia civil, componente da chamada “linha amarela”, recupera terreno e volta a ampliar suas exportações para os Estados Unidos - foram US$ 473,5 milhões nos quatro primeiros meses de 2026, alta de 32,2% sobre igual período do ano passado, segundo dados da Amcham Brasil. O valor indica uma retomada após a retração de 5,8% em 2025 - a maior queda dos últimos cinco anos -, interrompendo o dinamismo do comércio bilateral observado desde a recuperação pós-pandemia. Composta por máquinas pesadas para construção e mineração, como carregadeiras, escavadeiras e retroescavadeiras, a “linha amarela” representa quase metade de todas as máquinas e equipamentos exportados pelo Brasil para os EUA. “A economia americana segue sustentando investimentos relevantes em infraestrutura, energia e digitalização, o que tende a impulsionar importações desses segmentos como equipamentos de construção, máquinas elétricas e soluções industriais”, destaca o diretor de políticas públicas e relações governamentais da Amcham Brasil, Fabrizio Panzini. A recuperação em 2026, na avaliação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, reflete a atuação do governo para reduzir os impactos do tarifaço sobre a indústria exportadora brasileira, principalmente com o Plano Brasil Soberano, que disponibilizou R$ 40 bilhões em crédito em 2025 para linhas de financiamento de capital de giro, investimentos e diversificação de mercados, com recursos do Fundo Garantidor de Exportações (FGE) e do BNDES. Em março, o governo federal anunciou R$ 15 bilhões adicionais ao programa, que, segundo o Mdic, permitiu diversificar mercados diante da política protecionista americana, e contribuiu para a retomada das vendas àquele país após a reversão parcial das tarifas. “Quando a taxação entrou em vigor em agosto de 2025, o volume de exportação foi reduzido. Mas, com o recuo nas taxas ao longo dos meses, houve um movimento natural de recuperação dos volumes”, aponta Wladimir Garcia, head de operações industriais da Volvo Construction Equipment, que exporta 29% da produção aos EUA, por meio da fábrica em Pederneiras (SP). Neste ano, o foco das vendas são os caminhões articulados, com previsão de 80% da produção direcionada ao mercado americano. Em 2025, foram exportadas 1.088 unidades (ante 1.100 unidades em 2024), com receita de US$ 300 milhões. “No médio prazo, as exportações tendem a acompanhar o nível de investimento em infraestrutura, mineração e construção pesada nos Estados Unidos”, diz Garcia. Na avaliação de Leandro Lecheta, head do segmento de construção da CNH para as Américas, o impacto das tarifas foi menos intenso do que o projetado inicialmente. “Muitas empresas conseguiram se reorganizar operacional e comercialmente para preservar sua presença no mercado americano”, afirma. Nos últimos anos, por meio da marca CASE Construction Equipment, a multinacional tem aumentado suas exportações de tratores de esteira compactos para os EUA a partir da fábrica de Contagem (MG). Em 2024, a unidade se tornou o polo mundial de fabricação do item, que é amplamente utilizado na construção e possui forte demanda por parte da economia americana. “Mesmo que cautelosa, a expectativa é de que seja possível recuperar parte de eventuais perdas pontuais, mas com atenção ao ambiente externo, especialmente à possibilidade de adoção de novos instrumentos tarifários direcionados”, diz Lecheta. Especialistas apontam que, para retomar as vendas externas em patamares como o observado em 2024, é preciso intensificar a negociação bilateral e melhorar a competitividade doméstica. Para a diretora de competitividade, economia e estatística da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Cristina Zanella, no médio prazo, o cenário vai depender muito menos do ciclo econômico e mais das condições de acesso ao mercado americano. “Se as barreiras persistirem, o crescimento tende a ser limitado. Se houver avanço em negociações ou maior integração comercial, o setor pode voltar a crescer de forma mais consistente.” O economista e professor do curso de administração da ESPM Jorge Ferreira dos Santos Filho avalia que há sinais de estabilização no setor de engenharia civil, e a perspectiva para o médio prazo é “moderadamente positiva”, desde que algumas condições sejam atendidas: redução das incertezas tarifárias, a retomada dos investimentos em construção e infraestrutura nos Estados Unidos e a manutenção da competitividade brasileira em preço, prazos de entrega, assistência técnica e financiamento. “Apesar de algumas tarifas terem sido revogadas no início de 2026, o ambiente ainda é marcado por volatilidade”, pondera. No plano interno, a Amcham Brasil considera que a retomada depende de ganhos de competitividade, principalmente o fortalecimento de instrumentos de apoio às exportações, como a plena implementação do Plano Brasil Soberano. “Em síntese, o crescimento exigirá a combinação entre melhor acesso ao mercado americano e maior eficiência doméstica, em um ambiente de competição global mais intensa”, afirma Panzini
Desempenho da “linha amarela” tem recuperação nas vendas do Brasil aos EUA
Indústria de equipamentos de engenharia civil exporta para os EUA US$ 473,5 milhões nos quatro primeiros meses de 2026













