Músicos e especialistas falam da atualidade da revolução empreendida pelo trompetista e compositor, que ecoa hoje em vertentes como o pop aventureiro, de Rosalía a Thundercat O trumpetista Miles Davis durante a gravação do lendário álbum 'Kind of blue' (1958) — Foto: Divulgação/Sony Music Entertainment A despeito de sua morte física — em 28 de setembro de 1991, atribuída aos efeitos combinados de um AVC, pneumonia e insuficiência respiratória —, o trompetista, bandleader e compositor americano Miles Davis chega bem vivo, esta terça-feira, aos 100 anos de idade. Caetano Veloso ouve nome de Virginia Fonseca, e reação do cantor viraliza: 'Sou um alienado'À beira dos 90 anos e em atividade, Tom Zé admite: ‘Não tenho queixa de nada’ Um dos maiores nomes da história do jazz — o Picasso do Jazz, diziam alguns; o Príncipe das Trevas, diziam outros, por sua voz rouca e postura sempre desafiadora —, Miles não só foi responsável por movimentos que mudaram o estilo (e mais de uma vez), como pela percepção que temos hoje da música em si. Ao longo de quase 50 anos de carreira, sem olhar para trás, em discos e shows, ele virou de cabeça para baixo a tradição vigente, incorporou outras tradições do mundo (bem como novidades), abraçou a eletricidade e eletrônica e devolveu toda uma música (que ecoa hoje no pop aventureiro, de Rosalía a Thundercat) e uma filosofia musical, de ditos que se celebrizaram (e muitos músicos hoje podem confirmar), como “às vezes leva muito tempo para você soar como você mesmo”, “não toque o que está lá, toque o que não está lá” e “qualquer um pode tocar, a nota é só 20%, a atitude do filho da puta que toca é 80%”. — O Miles é um cara que não só participou, mas na verdade foi o líder de pequenas evoluções dentro das grandes evoluções da música, não só do jazz. Ele é um cara que vem lá do finalzinho do bebop, ali com (o saxofonista) Charlie Parker e (o trompetista) Dizzy Gillespie, e aí faz o “Kind of Blue” (1959), um marco do jazz modal, aquele disco fantástico que é considerado a grande Bíblia do jazz — analisa o produtor e curador de jazz do C6 Fest Pedro Albuquerque. — E, depois, você vai ter a fase elétrica dele, que é uma outra grande revolução, “In a silent way” (1969), mas especialmente o “Bitches brew” (1970), um divisor de águas, revelando uma geração inteira de músicos que mudaria os rumos do jazz. Jazz-rock De fato: com “Bitches brew” (disco que o conduziria ao sucesso comercial, entre o público do rock), Miles Davis jogaria luz sobre o pianista Chick Corea (que fundaria o grupo Return to Forever), o saxofonista Wayne Shorter e o tecladista Joe Zawinul (mais tarde no Weather Report) e o guitarrista John McLaughlin (criador do Return to Forever), todos grupos muito bem-sucedidos no que se chamou de fusion, ou jazz-rock. O percussionista brasileiro Airto Moreira tocaria com Miles nessa época e levaria para ele um conterrâneo genial: Hermeto Pascoal (do qual o americano gravou, inicialmente sem dar crédito, três temas no álbum “Live-Evil”, de 1971). Miles Davis em 1986, em show no Canecão, no Rio de Janeiro — Foto: Athayde dos Santos Fora do ar entre 1975 e 1980 (tempos em que viveu em Nova York, numa espiral de drogas e sexo), o trompetista se deixou envolver pelo pop em “You're under arrest” (seu último álbum pela gravadrora Columbia, de 1985, que trouxe interpretações dos hits “Time after time”, de Cyndi Lauper; e “Human nature”, de Michael Jackson) e, junto com o baixista Marcus Miller, embrenhou-se pelos sintetizadores, baterias eletrônicas e samplers em “Tutu” (1986). — Esse é o marco de uma outra fase elétrica também, né, interessantíssima, né, que tem uma coisa mais pop. Aí vêm o “Amandla” (1989), e aquela trilha sonora do “Siesta” (1987) que é fantástica... mas nesses discos ele não chega a criar um som novo. Na verdade, o que ele cria ali é uma rede de ideias que vai passar por décadas — explica Pedro Albuquerque. — Não dá para a gente nessas fases dele como pontos de chegada, mas como pontos de partida. Ele pegou muita coisa do funk e do rock e foi transformando na música dele. No final das contas, acho que foi a melhor maneira que ele encontrou de preservar a própria tradição do jazz. Já para a pesquisadora musical Nathalia Grilo, Miles Davis “não apenas atravessou transformações do jazz, mas operou diretamente na reconfiguração da música negra como linguagem em disputa”. — Do bebop, ao lado de Charlie Parker, ao cool, da abertura modal à virada elétrica, até suas aproximações com o funk e o hip-hop em “Doo-Bop” (seu último álbum de estúdio, de 1992, gravado com o produtor de hip-hop Easy Mo Bee), o que se delineia é uma prática contínua de deslocamento. A cada momento, ele tensiona o que a música negra pode ser e para onde pode ir. Um dos grandes nomes da música instrumental brasileira, o saxofonista Leo Gandelman reconhece que o Miles Davis dos anos 1980 apanhou dos críticos por seus discos da época, mas acha que essa “foi uma polêmica que não existiu”. — A pesquisa, a procura, é tudo, é evolução. E a evolução é para todos os lados, ele só fez crescer, apontar novos caminhos, e eu sou muito fã da atitude do Miles perante à arte — emociona-se Leo. — Além de toda a musicalidade dele, da composição, ele foi um cara que abriu caminhos para todo mundo. A coragem de mergulhar no vazio, sem saber aonde vai dar. Eu acho que o artista tem que ter isso. E ele teve. O Miles aproveitava cada nota para achar um novo caminho. Para ele, não existia a nota errada. O trompetista Miles Davis — Foto: Divulgação/Sony Music Entertainement “Para mim, música e vida, tudo se resume em estilo”, dizia Miles. E levava o dito ao pé da letra: às revoluções que promovia nos discos e nos palcos, ele acrescentava outras na existência: caiu de cabeça nas experimentações com as drogas, foi um bastião do combate ao racismo (em 1949, foi para Paris, onde sentia que os músicos negros eram mais respeitados que nos EUA, e chegou a ter um caso com a cantora e atriz existencialista Juliette Gréco), além de ter se tornado um ícone fashion — indo da elegância dos terninhos dos tempos iniciais às roupas vistosas que pegou emprestado do rock para vestir seu corpo esguio de pugilista. Hoje, não dá para ignorar os numerosos casos de violência contra suas ex-companheiras, mas o estilo Miles não deixa de fascinar novas gerações de musicistas, como a da trompetista do grupo Jazz das Minas, Sara Leite: — Mesmo com todos os problemas que teve na vida, saúde, brigas, enfim, o Miles reinventou a forma de se tocar o jazz. Acho que é por isso que ele está vivo até hoje. Ele tinha atitude, expressão e um som incrivelmente bonito. Gosto muito da sonoridade dele, principalmente nas músicas mais lentas, o som do trompete dele remete muito à voz. Gosto das músicas que focam mais no som, que têm mais melodia — diz ela, cuja gravação favorita é a de “Blue in green”, de “Kind of Blue”. — Mas também gosto que o Miles tenha sido sempre incisivo, nunca deixou ninguém passar por cima dele, mesmo tendo vivido casos de violência e racismo. Vanguardas Para Nathalia Grilo, a música de Miles Davis hoje “valida vanguardas periféricas que sabotam o purismo acadêmico e as salas de concerto bem-comportadas, tratando o som não como entretenimento, mas como registro sociológico cru e ruidoso de uma insurreição constante diante das novas dinâmicas de opressão e do colonialismo de dados”. — É uma manipulação do tempo e do espaço que desestabiliza o conforto eurocêntrico e hoje se replica na espinha dorsal do sampling, do hip-hop abstrato e de vertentes da música eletrônica periférica — diz. — Essa atitude faz pensar em como Miles estaria interagindo com as ferramentas digitais e se as veria como extensões tecnológicas da própria diáspora, como laboratórios de emancipação capazes de usar o estúdio para hackear o presente e projetar o futuro. Sua atualidade reside na compreensão de que a cultura negra é uma força de aceleração contínua, incompatível com a estabilidade. Acompanhando as movimentações das novas gerações de músicos brasileiros, muitos dos quais abraçam o jazz, Leo Gandelman diz não deixar de pensar em Miles Davis: — Hoje, através de metodologias, de análises harmônicas, os músicos ficam muito presos na questão de escalas. Mas é a liberdade o que se busca na arte, não é? E o Miles é um grande exemplo disso — discorre. — Aplicação, métodos, isso faz parte do estudo, tudo bem. Mas, quando você está fazendo sua arte, não está estudando, tem que procurar música dentro de si. E acho que o Miles foi um grande pesquisador de si mesmo, sempre procurando a música que ouvia dentro dele. Miles não aplicava escalas, ele tocava o improvável. Nathalia crê que talvez seja “essa densidade que mantém Miles vivo, como força que insiste em deslocar o presente.” — Ele não pertence ao passado. Ele continua operando como método, como problema e como abertura — diz ela.
Nos seus 100 anos, Miles Davis, o ‘Picasso do Jazz’, está mais vivo do que nunca
Músicos e especialistas falam da atualidade da revolução empreendida pelo trompetista e compositor, que ecoa hoje em vertentes como o pop aventureiro, de Rosalía a Thundercat












