A primeira encíclica publicada pelo papa Leão 14 ecoa, em certo sentido, seus recentes confrontos com Donald Trump ao mostrar que o pontífice consegue ser contundente justamente quando se comporta com a máxima moderação.

Com efeito, o documento "Magnifica humanitas" (humanidade magnífica, em latim) está muito distante de ser uma condenação apocalíptica do uso da inteligência artificial. O papa se permite até alguma dose de otimismo tecnológico. Ainda assim, os argumentos de Leão demandam uma reformulação das próprias bases nas quais o avanço da era digital está assentado até agora.

A IA, porém, está mais para mote inicial do que para centro único das preocupações manifestadas pelo papa na encíclica. Para ele, os problemas ligados ao mau uso da inteligência artificial são sintomas de um cenário desanimador mais amplo para a humanidade do segundo quarto do século 21.

E, quanto a isso, o pontífice não usa meias palavras: estamos diante de uma "cultura do poder" que tenta ressuscitar o uso da força bruta como resposta aceitável na arena internacional, e é dever moral dos cristãos combater essa cultura. Trump definitivamente não vai curtir nem compartilhar.

A grande variedade de temas do documento e as extensas recapitulações históricas e teológicas, que parecem fazer da IA apenas mais um tópico entre tantos, são, por um lado, o que se costuma esperar de uma encíclica.