O chacal-dourado (Canis aureus) poderá vir a ocupar até 75% da Europa, quase seis vezes mais do que a área onde a espécie é hoje considerada presente, conclui um estudo publicado nesta segunda-feira na revista Nature Ecology & Evolution. O artigo científico estima que mais de 2,4 milhões de quilómetros quadrados de paisagens europeias, com destaque para Portugal e Espanha, são “adequadas” à presença do grande carnívoro.“Este artigo só prova que, afinal, o potencial de expansão do chacal-dourado em Portugal é mesmo grande, assim como em Espanha, fazendo com que a Península Ibérica surja no mapa como [uma] das zonas com maior potencial não ocupadas”, explica ao Azul o co-autor Francisco Álvares, investigador do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (Cibio-Biopolis).O estudo recorreu a 8991 estações de escuta – dispositivos que registam chamamentos sonoros de animais – distribuídas por 13 países, entre 2001 e 2017, para detectar respostas vocais de grupos territoriais e, a partir daí, modelar a distribuição provável da espécie Canis aureus.O efeito “escudo humano”O estudo identifica o lobo como o principal “travão ecológico” à expansão do chacal-dourado: a probabilidade relativa de presença do chacal diminui à medida que aumenta a intensidade de ocorrência do predador de topo, sendo mais elevada onde os lobos estão ausentes e mais baixa em áreas de presença permanente de alcateias.Os lobos, capazes de competir com os chacais e até de os caçar, foram em tempos uma presença comum em grande parte da Europa, recorda o investigador do Cibio, enquanto o chacal se mantinha confinado a algumas zonas costeiras no extremo sudeste do continente. Esse equilíbrio começou a alterar-se no século XIX, quando a perseguição sistemática aos lobos, em vários países europeus, abriu espaço à expansão do chacal.A investigação mostra, contudo, que esta interacção entre lobos e chacais também é condicionada pela actividade humana. A proximidade a aldeias, por exemplo, altera a forma como o chacal responde à presença do lobo, descrevendo-se um “efeito de escudo humano”. Ou seja, os chacais passam a seleccionar áreas mais próximas de pessoas quando os lobos estão presentes de forma regular, usando esses espaços como refúgios onde a pressão do predador é menor.