Com tratamento responsável, a menopausa não precisa ser o fim da feminilidade, da libido e da energia Menopausa afige mulheres — Foto: Freepik RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 21/05/2026 - 17:50 Menopausa: Redefinindo a Feminilidade com Tratamentos Modernos A menopausa, muitas vezes vista como o fim da feminilidade, é, na verdade, um novo começo para as mulheres, quando abordada com tratamento responsável. Avanços recentes, como medicamentos não hormonais e reposição hormonal segura, oferecem esperança. Ainda que negligenciada historicamente, a saúde feminina ganha destaque. Compartilhar experiências quebra tabus e ajuda a evitar soluções perigosas. A menopausa é uma fase de redescoberta e autocuidado, vital para prevenir doenças futuras e manter a identidade. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Houve um tempo em que eu acordava depois de uma noitada com amigas sentindo apenas uma leve dor de cabeça. E rindo sozinha, com flashes de momentos hilários, fragmentos de conversas tão profundas quanto sem sentido e alguns arrependimentos, geralmente por achar que tinha falado demais. Outro dia tive uma noite dessas, divertidíssima. No dia seguinte, acordei capenga, culpada até pelo que não fiz, mal-estar físico descomunal — ressaca é algo que vai piorando a cada aniversário que fazemos. E teve outra diferença. Encontrei um comprimido na minha bolsa. Uma das amigas estava feliz da vida com o novo remédio que deu cabo da insônia e oscilações de humor que chegaram com a menopausa. Tanto que ali, naquela mesa de bar, recortou um da cartela e deixou comigo para que eu experimentasse. Pois é, depois de certa idade, em vez de virar shots de tequila, a gente se encontra e faz degustação das novidades da indústria farmacêutica. Parece trivial, mas gerações e gerações de mulheres passaram pela menopausa sem sequer falar sobre isso. Até hoje, a maioria de nós não identifica os sintomas além da caricatura das ondas de calor. Desde a fase anterior, a perimenopausa, que pode chegar já a partir dos 40 e poucos anos, o estrogênio começa a baixar trazendo efeitos diversos, como queda de cabelo, ganho de peso, cansaço. As alterações de humor surgem em forma de ansiedade, depressão, insônia grave ou maior consumo de álcool. A maioria das mulheres acha que é assim mesmo, algo normal do envelhecimento e, resignadas, não buscam ajuda. Entre as que buscam, muitas deparam com médicos que também não associam esses sintomas à menopausa. Aí, tome remédio para dormir, antidepressivo, caneta emagrecedora, e nada de investigar como andam os hormônios. Conversei com a endocrinologista Isabela Bussade, especialista no assunto, para saber dos avanços nos cuidados com as mulheres nessa fase da vida. Nos últimos dois anos, foram aprovadas duas medicações não hormonais que agem no centro termorregulador do cérebro e tratam as ondas de calor. A Food and Drug Administration retirou da embalagem de hormônios a tarja preta alertando sobre o risco de câncer, um mito que vem sendo desconstruído — com avaliação correta, a reposição é segura para a grande maioria. Medicamentos já existentes aparecem com novos usos, auxiliando no tratamento. Na área da pesquisa, temos agora evidências de que a prevalência de dois terços dos casos de Alzheimer entre mulheres está ligada à menopausa. Mas ainda há poucos estudos clínicos comprovando os benefícios da reposição hormonal na proteção ao cérebro, uma das questões mais debatidas hoje. Pesquisas sobre saúde feminina são historicamente subfinanciadas e negligenciadas. E mesmo o que já se sabe não é amplamente ensinado nas faculdades de medicina. O quadro piora com a mentalidade persistente de que mulheres precisam ser fortes e aguentar sofrimento. O grande avanço é a quebra do tabu. É falar abertamente. É a amiga que botou megahair para uma viagem à Europa e me ligou de lá, desesperada de calor em plena neve, dizendo que parecia estar com uma ovelha na cabeça. Outra que se sente apática e teme perder a capacidade de se apaixonar, seja por algo ou por alguém. Uma terceira passou meses acordando inquieta no meio da noite e botando a culpa no estresse. Aqui, o problema é a memória falha. Chego na cozinha e esqueço o que fui fazer lá. Perco o celular regularmente duas vezes por dia. Tenho lapsos com os nomes de pessoas próximas. O tal remédio que achei na bolsa, demorei dois dias pra lembrar do que se tratava. Compartilhar entre nós as derrotas do dia a dia é preencher em parte uma lacuna. Porque, nesse vácuo em que se misturam pensamentos atordoados, escassez de pesquisas e falta de acolhimento médico, entra o perigo das promessas milagrosas. O portal g1 trouxe reportagem esclarecedora e preocupante sobre a indústria dos chips da beleza, implantes hormonais que médicos inescrupulosos empurram a pacientes com promessas estéticas de ganho de massa muscular, melhora da libido e da pele. E que podem acabar em acne, aumento de peso, sobrecarga do fígado, trombose e até AVC. Aqui não vai nenhuma crítica a quem busca atalhos, eu mesma adoro uma solução fácil. Mas só quando é segura, não quando é uma loteria. Se der errado com você, seu dano é de 100%. Com tratamento responsável, a menopausa não precisa ser o fim da feminilidade, da libido e da energia. Ao contrário, esse é o momento de agir. Os sintomas desconfortáveis passam em alguns anos, mas os cuidados para proteger os órgãos ao longo dessa fase são fundamentais para reduzir os riscos de doenças na pós-menopausa, como infarto, osteoporose e demência. E para reconquistar a própria identidade. Uma paciente da doutora Isabela resistiu a fazer a reposição hormonal, mas se rendeu quando o filho lhe puxou as bochechas e perguntou se, um dia, ela voltaria a sorrir. Minha amadíssima e sincerona avó, hoje com 98 anos, sempre me disse que “envelhecer é uma porcaria, mas a outra opção é pior”. Passar pela menopausa é um privilégio. Ainda estamos aqui, e numa época de mais esclarecimento. A vida está apenas recomeçando.