O presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Douglas Ruas (PL), criticou as declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmando que, se o Parlamento fluminense tivesse escolhido um governador, “iria vir um miliciano”. A fala do mandatário foi dita no sábado (23), durante evento no Estado. Ruas, por sua vez, publicou um vídeo em suas redes neste domingo (24) para rebater Lula. O presidente da República participou da inauguração de novas instalações da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Rio, na qual o governador interino do Estado, o desembargador Ricardo Couto, também esteve presente. Couto é presidente do Tribunal de Justiça do Rio e, embora seja o terceiro na linha sucessória do Executivo estadual, está no cargo devido à saída do ex-governador Cláudio Castro (PL). Quando Castro renunciou ao governo, para evitar a cassação ao ser condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as cadeiras de vice-governador e da presidência da Alerj estavam vazias — respectivamente, primeiro e segundo na linha sucessória. A situação abriu uma disputa judicial no Supremo Tribunal Federal (STF) para definir como o Rio escolheria o governador que comandará o Estado até o fim do mandato atual. O julgamento na Corte está parado desde abril por um pedido de vista do ministro Flávio Dino, mas o relator do caso, ministro Cristiano Zanin, determinou que, enquanto o impasse não é superado, Couto deve continuar no Palácio Guanabara. Ruas tinha a intenção de assumir o governo pro tempore, assim que foi eleito ao comando da Alerj, e a decisão do magistrado frustrou seus planos e o do PL, que pretendiam usar a visibilidade do governo para impulsionar a candidatura do deputado ao governo nas eleições de outubro. No evento no Rio, Lula afirmou que Couto deveria aproveitar a oportunidade para “prender os ladrões que governaram o Estado”. “Ninguém está esperando que você [Ricardo Couto] faça uma ponte, uma praia artificial. Ninguém. Sabe o que essas pessoas esperam de você nesses meses? Trabalhe para prender todos os ladrões que governaram esse Estado e fazem parte de uma milícia organizada”, disse o presidente. “Quando começou esse processo, de votação na Assembleia Legislativa, eu falei: 'Se a Assembleia indicar, vai vir o mesmo’. Ia vir um miliciano. Essas coisas acontecem porque tem Deus. Então aproveite estes meses que você tem, faça o que muita gente não fez em 10 anos neste estado”, completou Lula. Na publicação deste domingo, Ruas disse que as declarações de Lula foram um desrespeito ao Rio. O presidente da Alerj aproveitou para direcionar as críticas ao ex-prefeito do Rio e também pré-candidato ao governo, Eduardo Paes (PSD), aliado do presidente. “Lula veio ao Rio e mais uma vez desrespeitou o nosso povo, fazendo ataques generalizados. Lula e o seu amigo Eduardo Paes não têm moral para dar lição ao Rio de Janeiro sobre o combate ao crime organizado”, disse Ruas. “É curioso ver ataques do Lula à Alerj mencionando milícias, quando a única deputada estadual alvo de operação por suspeita de ligação com milícia pertence ao partido do Eduardo Paes, o candidato do Lula aqui no Rio de Janeiro”, continuou o presidente da Alerj, fazendo referência a deputada Lucinha (PSD), ré em um processo no órgão especial do TJ por envolvimento com grupos paramilitares. “O povo do Rio não quer essa velha política. O povo do Rio quer ordem, polícia forte, enfrentamento ao crime com coragem e respeito às instituições democráticas”, completou Ruas. Alerj critica fala de Lula A própria Alerj também divulgou uma nota criticando a fala de Lula. Em comunicado oficial, a Casa legislativa disse que era “inaceitável” a tentativa de generalizar o Parlamento e seus representantes. A Alerj também acusou o presidente de omissão pela falta de políticas públicas nacionais de combate à violência. “A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro respeita as instituições da República e espera o mesmo respeito por parte de todas as autoridades do país, inclusive do presidente da República. É inaceitável qualquer tentativa de generalizar ou criminalizar o Parlamento fluminense e seus representantes eleitos pelo povo do Rio de Janeiro. A Alerj é uma instituição democrática, legítima e merece respeito”, disse a Alerj. “O Rio de Janeiro enfrenta desafios históricos na segurança pública, muitos deles relacionados inclusive à ausência de políticas nacionais eficazes de combate ao tráfico de armas, às fronteiras abertas ao crime organizado e à expansão das facções criminosas em todo o país. O momento exige união institucional, equilíbrio e responsabilidade — e não declarações que estimulem divisão política ou prejulguem instituições”, completou. Disputa política As declarações de Ruas, associando Paes a Lula, fazem parte da estratégia do presidente da Alerj na corrida pelo governo do Estado. O pré-candidato aposta em salientar o vínculo do ex-prefeito com o presidente para aumentar a rejeição de Paes pelo Estado, cujo eleitorado é mais próximo do bolsonarismo. Segundo integrantes da pré-campanha de Ruas, essa é uma vacina para o favoritismo de Paes, conforme apontam as pesquisas de intenção de voto. Apesar do ex-prefeito não negar que apoia Lula na disputa nacional, ele tem adotado um discurso de neutralidade na eleição do Rio para “focar nos problemas do Estado”. O pano de fundo para isso é que Paes se equilibra entre votos que vão da centro-esquerda à direita, e um vínculo mais forte com Lula poderia afugentar os eleitores antipetistas. Paes, por sua vez, tem se apoiado na gestão de Couto no governo para conter qualquer movimentação de Ruas em busca de mais visibilidade — segundo pesquisas, o presidente da Alerj ainda é alguém desconhecido pelo Rio. Desde que o desembargador assumiu o governo, impedindo a manutenção do PL no Guanabara, Couto tem feito uma série de exonerações que atingiram aliados do deputado estadual. Em outra frente, Ruas e Paes também disputam a narrativa sobre o combate à violência no Estado. Um acusa aliados do outro de integrar facções criminosas. Enquanto o presidente da Alerj faz associação de Paes com a deputada Lucinha, o ex-prefeito tem vinculado o chefe do Legislativo fluminense a outros deputados presos por envolvimento com o Comando Vermelho, como o ex-parlamentar Thiego Santos, o TH Joias, preso desde setembro passado pela Polícia Federal. Presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Douglas Ruas (PL) — Foto: Thiago Lontra/Alerj