O ministro do STF André Mendonça, relator do caso Master, e o banqueiro Daniel Vorcaro — Foto: Fotos de Brenno Carvalho/O Globo e Ana Paula Paiva/Valor “O relator ganhou”. Foi assim que o criminalista José Luís de Oliveira Lima, o Juca, se despediu da defesa de Daniel Vorcaro em conversas com interlocutores ao longo da última sexta-feira. A frase sintetiza o desfecho de uma disputa que durou quase um mês entre o advogado e o ministro à frente da relatoria do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, e que desaguou na rejeição da proposta de delação premiada do banqueiro pela Polícia Federal (PF) na última quarta-feira (20). O desabafo reflete também o nível de tensão que permeou a disputa de forças entre ambos nos bastidores. Como mostramos no blog na última quarta, um dos sinais de que a colaboração de Vorcaro estava por um fio foi a decisão do relator de comunicar à defesa do executivo que não os receberia mais em seu gabinete e que só falaria com eles por meio dos autos do processo. Juca se tornou “persona non grata” depois de uma discussão que terminou muito mal, pouco tempo antes da apresentação oficial da proposta de delação de Vorcaro. Depois de ouvir que Mendonça não homologaria o acordo nos termos discutidos à época, Juca reagiu bancando a proposta e ameaçando recorrer à Segunda Turma do STF nessa hipótese. O recado implícito era de que a defesa confiava que uma eventual decisão contrária a Vorcaro seria derrubada com os votos dos ministros Kassio Nunes Marques e Gilmar Mendes em contraponto aos de Mendonça e Luiz Fux. Como Dias Toffoli tem se declarado suspeito nos julgamentos do caso desde que deixou a relatoria do inquérito, haveria um empate, que pela jurisprudência do Supremo favorece o réu. O ministro encarou a fala como ameaça, e a conversa azedou. A crise se agravou depois que uma reportagem da Folha de S. Paulo revelou o entrevero e atribuiu a insatisfação de Mendonça ao fato da proposta de colaboração de Vorcaro não citar o presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). O parlamentar indicou um aliado para a presidência do fundo de previdência do Amapá, que aprovou a toque de caixa o aporte de R$ 400 milhões em letras financeiras do Master. Em resposta, André Mendonça divulgou uma nota contestando a versão. “O ministro até o presente momento, não teve acesso ao teor do material entregue pela defesa à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República”, disse o magistrado em sua nota divulgada no último dia 6. Na PF e até na PGR, os anexos apresentados pelo executivo eram vistos como fracos e seletivos, e a avaliação geral era de que ele precisava apresentar fatos novos que avançassem sobre o extenso conteúdo de mensagens, documentos e demais registros obtidos a partir de seus celulares apreendidos. No dia seguinte à divulgação do comunicado de Mendonça, o desconforto escalou ainda mais após o Estadão registrar um encontro entre Juca e o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Floriano de Azevedo Marques em um restaurante no dia em que entregou a proposta de delação à Polícia Federal e à PGR. Amigo de Alexandre de Moraes há mais de 40 anos, Azevedo foi indicado e reconduzido ao cargo pelo presidente Lula com o lobby do ministro do STF. O flagra do encontro pelo Estadão levantou especulações de que Moraes pudesse estar tentando monitorar a delação por meio do magistrado do TSE. O ministro do Supremo era tido pelos investigadores como um potencial alvo da delação de Vorcaro. Além do contrato de R$ 129 milhões do Master com o escritório de sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, ele conversou com o banqueiro poucas horas antes de sua primeira prisão, em novembro passado, como revelamos na coluna. Omissões Desde sua segunda prisão preventiva em março e da subsequente confirmação da decisão de Mendonça pela Segunda Turma do STF, Vorcaro passou a indicar que topava firmar uma delação premiada. O primeiro sinal mais sólido nesse sentido foi a saída do criminalista Pierpaolo Bottini da defesa, seguido de Roberto Podval. O banqueiro contratou Juca, que logo fez chegar aos investigadores do caso Master que seu cliente estava disposto a fazer uma “delação séria” e que ele não pouparia ninguém. O que aconteceu depois, no entanto, foi bem diferente. Os rumores sobre uma eventual saída do advogado da defesa de Vorcaro circulavam em Brasília desde a semana retrasada e ganharam força a partir de dois desdobramentos da investigação que ajudaram a enterrar a tentativa de colaboração premiada. A operação de busca e apreensão contra o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que segundo a PF recebia uma mesada de R$ 500 mil de Vorcaro e manteve negócios suspeitos com o banqueiro, e a prisão de seu pai, Henrique, e de Felipe, seu primo, deixaram claro que a delação proposta por ele tinha omissões graves. Os anexos entregues à PF e a PGR, por exemplo, ignoravam a parceria do executivo com Ciro, que, em troca do custeio de despesas de luxo, empréstimo de apartamentos e transações obscuras, fez uso do mandato no Senado para atender aos interesses de Vorcaro, como no caso da chamada “emenda Master”, elaborada por funcionários do banco e entregue na casa do parlamentar e presidente do PP em um envelope a mando do executivo. Já a representação da PF que embasou a sexta fase da Operação Compliance Zero revelou que Henrique Vorcaro manteve pagamentos mensais de R$ 400 mil a uma complexa rede de comparsas que incluíam de milicianos a pessoas ligadas ao jogo do bicho, além de um núcleo voltado para invasões hackers, mesmo após a primeira prisão do filho no fim de 2025. Segundo fontes da investigação, o pai de Vorcaro também teria sido poupado nos anexos. Como mostrou O GLOBO, Henrique teria ficado abalado ao tomar conhecimento da rejeição do acordo pela PF e sofreu na última quinta-feira um surto na carceragem do presídio Nelson Hungria em Contagem (MG), onde está preso desde o dia 14.