A convocação de Neymar expôs um país e uma imprensa esportiva cada vez menos interessada em conviver com divergências Comemoração após a convocação de Neymar para a Copa do Mundo — Foto: MAURO PIMENTEL / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 22/05/2026 - 08:10 Convocação de Neymar expõe moralização no debate esportivo brasileiro A convocação de Neymar para a seleção brasileira evidencia um cenário em que divergências no futebol se transformam em questões de caráter. Historicamente, o futebol brasileiro era um espaço onde discordâncias coexistiam sem rupturas morais. Hoje, a imprensa esportiva parece priorizar a mobilização emocional sobre a análise, convertendo debates esportivos em testes de pureza moral. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Tem uma coisa que sempre me fascinou no futebol brasileiro, e que está morrendo sem muito alarde: por décadas, o futebol foi um dos raríssimos espaços da vida nacional em que as pessoas conseguiam discordar violentamente umas das outras sem transformar isso numa ruptura moral definitiva. O sujeito podia achar Romário um gênio irresponsável, implicar com Zico, preferir Dunga a Raí, defender três volantes, pedir Alex no lugar de Rivaldo, jurar que o centroavante ideal era o Luizão, odiar ponta burro, amar ponta burro, e no dia seguinte continuar frequentando o mesmo bar, sentando na mesma mesa e pedindo cerveja para o mesmo garçom. O futebol brasileiro sempre foi construído sobre divergências absurdamente passionais e absolutamente inconciliáveis. Talvez essa fosse justamente uma das graças da coisa. Porque o futebol nunca foi um lugar de consenso. O Brasil jamais conseguiu concordar nem com quantos gols começam uma goleada. Nem sobre goleiro de boné. Nem sobre se toque de mão é falta ou obra do destino. O futebol brasileiro sempre teve vocação para ser quase uma grande assembleia permanente de malucos. O comentarista da rádio AM gritava uma barbaridade às duas da tarde, o cronista do jornal escrevia exatamente o contrário na manhã seguinte, o tio da mesa do canto chamava ambos de idiotas, e a vida seguia normalmente. Ninguém precisava expulsar ninguém da humanidade porque um sujeito preferia um volante marcador a um camisa 10. Discordar fazia parte do prazer. Por isso me chama a atenção o tom de parte do debate sobre Neymar. Na torcida e na imprensa, que parecem cada vez mais a mesma coisa. Nem entro aqui no mérito da convocação, porque honestamente existem argumentos bastante razoáveis dos dois lados, ainda que eu tenha o meu. Existe lógica em chamar um jogador geracional, decisivo, historicamente importante, capaz de inventar um jogo em quinze minutos mesmo depois de tanto tempo parado. E existe muita lógica em questionar ritmo, condição física, sequência, intensidade, nível competitivo e o fato de que a seleção brasileira parece viver há anos entre a preparação para o futuro e a eterna reestreia do passado. Ambas as posições me parecem defensáveis. Ambas pertencem ao futebol. O problema começa quando uma delas deixa de ser tratada como opinião esportiva e passa a ser tratada como falha de caráter. Em algum momento, para quem vibrou com o nome do atacante na lista de Ancelotti, discordar da convocação de Neymar deixou de significar apenas discordar da convocação de Neymar. Virou quase uma suspeita emocional. Um indício de amargura. Uma espécie de atestado de desconexão popular. Como se o sujeito não estivesse debatendo futebol, mas tentando estragar o churrasco emocional da nação. Como se houvesse algo de ofensivo em não aderir completamente ao entusiasmo obrigatório. E a parte mais curiosa da conversa toda: a súbita aparição do “povo” como entidade organizada, homogênea e perfeitamente alinhada em torno de um tema. O povo quis Neymar. O povo sabe. O povo sente. O povo acredita. Sempre achei fascinante esse momento em que alguém decide falar em nome de 220 milhões de pessoas num país que jamais conseguiu produzir consenso nem sobre impedimento na mesma linha. Vejam a ironia: para alguns mais pilhados por aí, o Brasil deveria ser uma assembleia soviética emocional em que todo mundo levanta a mesma plaquinha ao mesmo tempo e quem hesita cinco segundos é tratado quase como um inimigo da alegria nacional. "Peçam pra sair!" Isso fala menos sobre Neymar do que sobre o momento da imprensa esportiva, da qual faço parte. Porque existe uma transformação acontecendo por aqui. Antigamente, o comentarista esportivo podia ser até injusto, implicante, obcecado, ranzinza, apaixonado demais por um técnico gaúcho dos anos 80 ou por um ponta-direita baixinho do Bangu de 1966. Mas ele existia para sustentar uma leitura de jogo, certa ou errada. Hoje, boa parte do ecossistema da comunicação esportiva parece funcionar de outra maneira. Não é mais sobre interpretar futebol, mas sobre administrar emoções coletivas. O comentarista deixa de ser alguém que pensa o jogo para virar alguém que lidera estados de espírito. Não basta analisar. É preciso mobilizar. Não basta argumentar. É preciso pertencer. Não basta discordar. É preciso identificar inimigos. Até porque, usualmente, opinião ponderada não cabe em vídeo curto. Sem treta, sem clique. Claro, o futebol brasileiro e sua imprensa sempre tiveram personagens espalhafatosos, seus Pedros de Lara de estimação, como bem definiu Mario Magalhães. Sempre houve exagero, bravata, profecia absurda e radialista ameaçando abandonar a profissão porque o técnico convocou Afonso Alves ou aquele volante desconhecido do Sport Recife. Mas existia uma diferença importante: ninguém confundia aquilo com verdade moral e absoluta. Era só futebol. Só uma grande conversa nacional, deliciosa justamente porque ninguém conseguia vencê-la definitivamente. Nunca fechamos questão nem mesmo sobre os figurinos de Dunga à beira do campo. Hoje parece haver uma ansiedade crescente para transformar qualquer discordância em teste de pureza moral. O sujeito já não pode apenas achar que é cedo, tarde, justo ou injusto convocar alguém. Ele precisa provar que ama suficientemente o futebol, a seleção, o talento, a pátria, a infância, o drible e alguma cartilha invisível. E é uma pena. Porque o futebol era justamente um dos últimos lugares da vida brasileira em que ainda dava para discordar sem precisar exterminar moralmente o outro. Um dos últimos ambientes em que duas pessoas podiam defender ideias completamente incompatíveis e ainda assim dividir cerveja, batata frita e transmissão ruim de TV sem transformar aquilo numa guerra cultural definitiva. A pior coisa que pode acontecer ao futebol brasileiro nesta Copa não é ter ou deixar de ter Neymar. É perder a capacidade de conviver civilizadamente com quem pensa diferente sobre algo tão maravilhosamente inútil quanto uma lista de 26 nomes para chutar uma bola. Que venha o hexa. Mas só pra sua turma?