Como não especialista em futebol, fiquei intrigada pela convocação de Neymar. Uma amiga, também não muito afeita ao mundo futebolístico, digamos assim, logo me escreveu: “Neymar foi convocado” PUBLICIDADEE eu quis entender como uma improbabilidade se tornaria uma probabilidade. Logo veio o cruzamento estratégico com planejamento de médio prazo. Calculado. Existe uma dinâmica que separa profissionais que se reposicionam dos que ficam presos no que foram. É a decisão de abrir mão de um ativo financeiro para reconstruir um ativo de carreira. A maioria das pessoas nunca toma essa decisão porque confunde preservação de patrimônio com preservação de relevância. A convocação de Neymar é estudo de caso sobre como profissionais que foram decretados irrelevantes voltam ao jogo Foto: Pedro Kirilos/EstadãoEu explico isso detalhadamente para empresários-alunos que sempre reticentes não entendem o valor da construção intangível e que pode não gerar valor imediato: longevidade de carreira. São coisas diferentes. E, quando você confunde as duas, tende a proteger o dinheiro enquanto a posição que importa vai sendo ocupada por outro. Neymar fez o oposto. Para rescindir o contrato com o Al-Hilal e retornar ao Santos em janeiro de 2025, Neymar abriu mão de aproximadamente € 62 milhões que ainda teria a receber. PublicidadeA Liga Saudita mediou as tratativas, e o jogador aceitou reduzir e parcelar o saldo devido para ser liberado. Sessenta e dois milhões de euros deixados na mesa para ir jogar no Santos. Hoje, menos de cinco meses depois, ele está convocado para a Copa do Mundo. O investimento teve retorno.Veja outras colunas de Camila FaraniQuem realmente ganha a Copa do Mundo? O jogo bilionário por trás do espetáculoUm rei em tratamento de câncer viaja para ver Trump. O que está por trás disso vai além do protocoloPara entender por que essa decisão foi inteligente e não sentimental, é preciso entender o que estava acontecendo no Al-Hilal. Neymar havia ficado um ano fora por lesão. Quando voltou, o técnico não confiava no seu ritmo e não o escalava. Neymar voltou a treinar com o elenco em outubro de 2024, mas não conseguiu emplacar sequência de jogos. A falta de ritmo e a dificuldade de adaptação ao estilo do Al-Hilal pesaram, e Jorge Jesus priorizou outros jogadores, deixando o brasileiro frequentemente fora das convocações. Um jogador que não joga não tem dado para apresentar. Sem dado, não tem argumento. Sem argumento, não tem convocação. Neymar estava preso num loop onde a solução para o problema, jogar regularmente para provar condição física, era exatamente o que a situação no Al-Hilal impedia. Sair foi a única forma de quebrar o loop.A escolha pelo Santos não foi nostálgica. Foi cirúrgica. O Santos estava na Série A do Brasileirão, competição que Ancelotti acompanhava semanalmente para monitorar candidatos à Seleção. Era um campeonato com nível técnico suficiente para que uma boa performance tivesse peso, mas com intensidade gerenciável para um jogador em reconstrução física. PublicidadeO Santos realizou reuniões com patrocinadores para ajustar acordos e ampliar o suporte financeiro, antecipando o aumento de visibilidade que a presença de Neymar traria. A parceria com a Umbro foi fortalecida, e o clube buscou novos parceiros comerciais para capitalizar os primeiros meses de Neymar no futebol brasileiro. PUBLICIDADEO Santos precisava de Neymar. Neymar precisava do Santos. Mas o que poucos perceberam é que quem estava usando quem nessa relação era muito menos óbvio do que parecia.Jim Collins, que cito bastante aqui, ao analisar trajetórias de líderes que voltam do fracasso, identificou um padrão que chama de “retorno pelos fundamentos”. Não é volta triunfal. É volta pelo trabalho. Pela sequência. Pelo dado concreto acumulado semana após semana. No retorno ao Santos, Neymar disputou sete partidas no Campeonato Paulista, marcou três gols, deu três assistências e acumulou 510 minutos em campo. Nos meses seguintes, a sequência cresceu: 11 gols e quatro assistências nas 17 partidas seguintes. Cada jogo era um ponto de dado no gráfico que Ancelotti estava construindo mentalmente sobre condição física. Cada minuto acima de 80 era uma resposta à dúvida que havia justificado todas as não convocações anteriores. Neymar entendeu que o argumento que o excluía tinha um formato específico e construiu a refutação no único idioma que o decisor aceitava: número de minutos em campo.PublicidadeTenho analisado trajetórias de fundadores e executivos em reconstrução há muitos anos como investidora, e o erro que mais vejo é o de tentar se reposicionar sem resolver primeiro o problema de credibilidade. A pessoa saiu de uma empresa que faliu, de um projeto que não deu certo, de uma fase que gerou dúvida no mercado sobre sua capacidade. E tenta se reposicionar pela narrativa: explica o que aconteceu, diz o que aprendeu, apresenta o novo plano. Raramente funciona. O que funciona é o que Neymar fez: resolver o problema de credibilidade com dado verificável antes de pedir a decisão favorável. O mercado de venture capital chama isso de “de-risking the bet”. Você remove os riscos que impedem o investidor de dizer sim antes de apresentar a proposta.O detalhe que encerra a história com uma precisão microscópica foi como a convocação chegou ao público. Antes do anúncio oficial, a CBF pediu as medidas de Neymar para a roupa dos convocados. Depois veio a informação de que Ancelotti já havia comunicado o jogador. Em linguagem de bastidor, quem entendia o processo soube antes que o microfone fosse ligado. Esse sequenciamento não é protocolo burocrático. É gestão de narrativa. A notícia que chega ao mercado depois de sinais consistentes anteriores é recebida como confirmação. A notícia que chega como surpresa gera reação imprevisível. Neymar e seu entorno souberam trabalhar o timing da comunicação com a mesma precisão com que trabalharam os dados em campo.Sessenta e dois milhões de euros de que abriu mão. Dezoito meses de trabalho num campeonato sem holofote. Centenas de minutos acumulados para construir um número que convencesse um técnico italiano. E uma Copa do Mundo na lista ao final do processo. Isso não é história de futebol. É estudo de caso sobre como profissionais que foram decretados irrelevantes voltam ao jogo. PublicidadeO segredo não está no talento, que Neymar nunca perdeu. Está na disposição de pagar o preço do reposicionamento antes de exigir o resultado que quer. E esse preço, quase sempre, é mais alto do que parece quando a decisão precisa ser tomada.
Opinião | Neymar abriu mão de € 62 milhões para ser convocado; chame de loucura ou de investimento estratégico
O segredo não está no talento, que Neymar nunca perdeu. Está na disposição de pagar o preço do reposicionamento antes de exigir o resultado que quer










