Em meio ao avanço das incertezas econômicas e à aproximação de novos ciclos políticos no Brasil e no exterior, empresas passaram a tratar as viagens corporativas como um dos primeiros indicadores de pressão financeira dentro das operações. O impacto já aparece no comportamento do mercado: mais cautela nas aprovações, redução de deslocamentos considerados não estratégicos e aumento da preocupação com exposição a custos variáveis. O movimento ocorre em um cenário de forte sensibilidade do setor aéreo às oscilações econômicas. Segundo a International Air Transport Association (IATA), o combustível continua entre os principais componentes de custo das companhias aéreas, representando cerca de 25% a 30% das despesas operacionais globais. Como parte relevante desses custos é dolarizada, oscilações cambiais acabam sendo rapidamente refletidas nas tarifas. Na avaliação da Voetur Viagens, o atual ambiente econômico tem provocado uma mudança importante no comportamento das empresas: a viagem corporativa deixou de ser tratada apenas como despesa operacional e passou a entrar no centro das discussões financeiras. "Em momentos de maior instabilidade, as viagens são uma das primeiras linhas observadas pelas empresas porque concentram uma combinação delicada de variáveis: câmbio, tarifa aérea, disponibilidade, antecedência e urgência operacional. Qualquer oscilação impacta diretamente o orçamento", afirma Humberto Cançado. Segundo o executivo, o mercado corporativo vive hoje uma espécie de "efeito sanfona", com diversos movimentos rápidos para contenção de gastos conforme as mudanças do ambiente econômico. "Existe uma contradição clara no mercado atual. As empresas precisam manter presença, relacionamento, vendas e proximidade com clientes, mas ao mesmo tempo enfrentam pressão crescente para reduzir exposição financeira. Isso torna as decisões sobre viagens muito mais estratégicas e menos automáticas do que eram antes", diz. Dados da FecomercioSP em parceria com a Alagev mostram que o setor de viagens corporativas movimentou R$ 12 bilhões em janeiro deste ano, o maior volume já registrado para o período. Ao mesmo tempo, o crescimento da demanda vem acompanhado de um ambiente mais pressionado por inflação de serviços, oscilações tarifárias e necessidade de maior previsibilidade orçamentária. Para a Voetur, esse cenário também começa a alterar a lógica das políticas corporativas de viagens. Empresas têm aumentado o rigor sobre antecedência de compras, categorias permitidas, critérios de aprovação e acompanhamento de gastos em tempo real. "Antes, muitas empresas discutiam viagens olhando principalmente para conforto ou logística. Hoje, o debate passou a envolver exposição financeira, gestão de risco e capacidade de adaptação rápida. A volatilidade econômica entrou definitivamente na operação das viagens corporativas", afirma Humberto. A companhia observa ainda um crescimento na demanda por inteligência de gestão e acompanhamento mais próximo das despesas relacionadas a deslocamentos, principalmente em empresas com operações nacionais amplas ou rotinas frequentes de viagens. Nesse contexto, soluções integradas de gestão de despesas e mobilidade corporativa passaram a ganhar relevância por permitirem maior visibilidade sobre custos, comportamento de consumo e aderência às políticas internas em cenários de maior volatilidade. Para especialistas do setor, a tendência é que viagens corporativas continuem funcionando como um dos reflexos mais imediatos das oscilações econômicas nos próximos meses, especialmente diante das discussões sobre juros, inflação, câmbio e ambiente político global.