A divulgação, pelo Irã, de um novo mapa reafirmando o controle sobre o Estreito de Ormuz ameaça prolongar ainda mais a situação dramática enfrentada por milhares de marinheiros presos em embarcações no Golfo. Mais de 20 mil tripulantes estão retidos em cerca de 2 mil navios na região, muitos sem possibilidade de desembarcar, enfrentando escassez de alimentos e água potável e vivendo sob medo constante em meio a uma zona de guerra. Marinheiros entrevistados pela Reuters nas últimas semanas descreveram dificuldades e ansiedade, enquanto uma federação internacional que representa trabalhadores marítimos alerta para condições críticas. “A única coisa que fazemos aqui é planejar como passar a noite e rezar para não sermos atingidos durante um ataque”, disse por telefone no mês passado o marinheiro indiano Salman Siddiqui, a bordo de um navio retido. Quando a Reuters embarcou nesta semana em um barco de reabastecimento rumo a navios ancorados na costa saudita, marinheiros em um petroleiro se reuniram junto ao corrimão para acenar — um raro momento de contato com o mundo exterior. Há quase três meses, os tripulantes presos no Golfo vivem isolados, convivendo apenas com pequenos grupos de colegas, circulando entre minúsculos alojamentos, refeitórios compartilhados e conveses escaldantes sob o sol. Teerã fechou o estreito, considerado rota vital para o fornecimento global de petróleo e gás natural, após o início dos ataques americano-israelenses contra o Irã, em 28 de fevereiro. Milhares de embarcações ficaram presas na região e, com as negociações de paz estagnadas, o Irã vem reforçando o bloqueio de fato. A Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, criada pelo Irã para administrar pedidos de passagem, publicou na quarta-feira um mapa reafirmando as reivindicações de Teerã sobre uma ampla faixa marítima dos dois lados do estreito. Armadores que tentam retirar navios, e frequentemente cargas valiosas, precisam enfrentar um sistema complexo de pagamentos e permissões criado pelo Irã, mostrou reportagem da Reuters. “A vulnerabilidade e a exposição dos marítimos são ainda mais extremas por causa da guerra”, afirmou Mohamed Arrachedi, coordenador da Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes (ITF) para o mundo árabe e o Irã. Ele relatou casos de atrasos salariais, recusa em ajudar no repatriamento de marinheiros, falta de provisões e medo constante de ataques com mísseis e drones. Segundo ele, alguns trabalhadores chegaram a telefonar chorando. A ITF recebeu pedidos de ajuda ou orientação de mais de 2 mil marinheiros no Golfo desde o início da guerra, envolvendo disputas por abandono, atrasos salariais e falta de suprimentos. Uma embarcação navega pelo Estreito de Ormuz , Musandam, Omã, 22 de maio de 2026 — Foto: REUTERS/Stringer Presos no mar Do porto saudita de Dammam, cerca de sete grandes navios podiam ser vistos ancorados ao largo, número incomum em tempos normais. Enquanto o barco de abastecimento balançava ao lado de um petroleiro sob ventos fortes, marinheiros gritavam do convés enquanto içavam grandes sacos de suprimentos médicos. Mohit Kohli, capitão de um cargueiro preso no Golfo após partir de Cingapura, afirmou que inicialmente “nem conseguia imaginar” que o Estreito de Ormuz pudesse ser fechado. O navio de bandeira alemã conseguiu ancorar em segurança perto de Dammam, mas pouco mais de uma semana após o início da guerra a tripulação passou a ver e ouvir mísseis e drones iranianos sendo lançados contra países do Golfo. “A tripulação, que normalmente era barulhenta e alegre, ficou em silêncio. As refeições ficaram mais curtas. As conversas, mais cautelosas”, disse Kohli à Reuters neste mês, após retornar à Índia. Segundo ele, os donos do navio conseguiram enviar uma equipe de substituição. Mas muitos marinheiros enfrentam situação muito pior, afirmou Arrachedi. Em alguns casos acompanhados pela ITF, trabalhadores não recebem salários modestos, entre US$ 100 e US$ 200 mensais, desde o ano passado. Alguns armadores se recusam a ajudá-los a voltar para casa ou só permitem o retorno caso abram mão de salários atrasados. Alguns marinheiros relatam ter apenas uma refeição diária de arroz ou lentilhas e contam com poucos minutos de internet para falar com familiares ou pedir ajuda externa, acrescentou Arrachedi. “Eles precisam de uma intervenção coletiva porque são fundamentais para nossas economias e cadeias de suprimento, além de serem civis”, afirmou. Países do Golfo vêm tentando ajudar facilitando suprimentos e trocas de tripulação. “Para um marinheiro preso em águas incertas, a coisa mais importante do mundo é saber que existe um porto seguro ao qual pode chegar”, disse Suliman Almazroua, presidente da Autoridade Portuária Saudita. Segundo ele, a autoridade ajudou centenas de navios com fornecimento de alimentos, água potável, combustível e medicamentos, além de auxiliar mais de 500 marinheiros a deixarem suas embarcações. Almazroua afirmou que as mensagens de agradecimento enviadas por trabalhadores que conseguiu retirar dos navios são a parte mais gratificante de seu trabalho.