Os EUA decidiram suspender o negócio de venda de armamento no valor de 14 mil milhões de dólares (mais de 12 mil milhões de euros) a Taiwan para poupar munições para o conflito contra o Irão.A decisão foi revelada na quinta-feira durante a audição no Senado do secretário interino da Marinha, Hung Cao, que esclareceu que se trata apenas de uma suspensão, e não de um cancelamento da venda. Os EUA estão vinculados por lei a fornecer armamento a Taiwan para garantir a sua autodefesa.“Neste momento, vamos fazer uma pausa [no fornecimento de armamento a Taiwan] para assegurar que temos as munições de que necessitamos para a Fúria Épica [operação militar contra o regime iraniano], as quais temos bastantes. Estamos apenas a garantir que temos tudo, mas depois as vendas militares ao estrangeiro irão continuar, assim que a Administração o decida”, afirmou Cao na audição à comissão parlamentar.

A decisão surge pouco mais de uma semana depois da visita de Donald Trump à China, durante a qual o Presidente norte-americano não se quis comprometer com a garantia de que Washington iria continuar a fornecer armamento a Taiwan. Nesse encontro, o Presidente chinês, Xi Jinping, avisou que o estatuto da ilha reivindicada por Pequim poderá afectar a relação entre as duas potências, alertando para a possibilidade de uma colisão ou até um conflito entre ambas. O Governo chinês opõe-se ao envio de armamento a Taiwan.Para poderem manter relações diplomáticas com a China, os EUA tiveram de deixar de reconhecer oficialmente a soberania de Taiwan, cortando os laços diplomáticos oficiais (algo que Pequim exige para todos os países que desejem manter relações com a China). No entanto, Washington mantém desde os anos 1970 uma política de “ambiguidade estratégica”, cultivando fortes contactos informais com Taiwan, manifestados sobretudo através da venda de armamento de forma a garantir a sua segurança, mas respeitando o princípio de reconhecimento de “uma só China”.Nesta semana, Trump chegou a sugerir que poderia falar directamente com o Presidente de Taiwan, Lai Ching-te, para abordar a questão da venda de armamento. Uma conversa directa entre os dois líderes seria algo inédito, quebrando o protocolo diplomático em vigor há quase meio século e um factor de enorme irritação em Pequim.O Presidente norte-americano tem posto em causa a possibilidade de dar luz verde à venda de armas a Taiwan, apesar de ser obrigado por lei a fornecer armamento ao território, chegando a sugerir que poderá usar o pacote como arma negocial com a China.Nesta sexta-feira, o gabinete presidencial de Taiwan disse não ter recebido qualquer notificação acerca da suspensão da venda de armamento pelos EUA.O pacote de 14 mil milhões de dólares — a maior venda feita a Taiwan — foi aprovado pelo Congresso em Janeiro, mas é necessária a ratificação de Trump para que o negócio seja concretizado. Entre o armamento prometido estão sistemas de defesa aérea e sistemas de mísseis terra-ar, de acordo com a Reuters.A China não esconde o objectivo de alcançar a reunificação com a ilha que se desenvolveu de forma autónoma desde 1949, apesar de também reclamar a soberania sobre a China. A cisão ocorreu na sequência da guerra civil que opôs os comunistas liderados por Mao Tsetung e os nacionalistas de Chiang Kai-shek. Depois da sua derrota, as forças nacionalistas exilaram-se na ilha e governaram-na durante várias décadas construindo uma identidade própria, marcada pela profunda oposição ao regime comunista de Pequim.Desde que chegou ao poder, Xi tem subido o tom da retórica a favor da reunificação, não excluindo a possibilidade de recorrer à força para alcançar esse objectivo.