Colonização de Marte é possível com tempo e persistência, diz cientista da NasaIvair Gontijo palestrou no SP Innovation Week e falou para o podcast do Estadão no evento. Crédito: TV EstadãoEu uso uma frase com frequência quando analiso estruturas de governança de empresas ou startups que estão em busca de capital: quem controla a narrativa controla o resultado. No mundo dos negócios, quem controla o voto controla a empresa. E, na quarta-feira, 20, quando a SpaceX protocolou seu S-1 na SEC, ficou claro que Elon Musk criou uma estrutura onde ele vai receber o maior cheque da história do mercado de capitais sem abrir mão de nada que importa. PUBLICIDADEMusk detém 93,6% das ações Classe B, com dez votos cada, conferindo 85,1% do poder de voto total. Esse controle permanece acima de 50% após o IPO, o que permite à SpaceX evitar requisitos regulatórios sobre independência do conselho. Musk exercerá controle total como CEO, CTO e presidente do conselho simultaneamente. O mercado vai entrar com o dinheiro. Musk fica com o poder. Essa é a estrutura. E o mercado vai aceitar porque o ativo que está sendo oferecido não tem equivalente em nenhuma outra empresa do planeta.IPO da SpaceX vai redefinir o que é economicamente viável em lançamento espacial, em conectividade global e em computação de alta performance Foto: Eric Gay/APDeixa eu traduzir o que está no S-1 para o que importa entender. A SpaceX não é mais uma empresa de foguetes. Há 24 anos ela era. Hoje é um conglomerado de três negócios com dinâmicas completamente distintas. O primeiro é o negócio original de lançamento espacial, que atende Nasa, Departamento de Defesa americano e clientes comerciais. PublicidadeO segundo é a Starlink. A Starlink encerrou 2025 com 9,2 milhões de assinantes e mais de US$ 10 bilhões em receita. Em fevereiro de 2026, o número de assinantes cruzou a marca de 10 milhões. Analistas do Bloomberg e Quilty Space projetam que a receita da Starlink pode chegar entre US$ 15,9 bilhões e US$ 24 bilhões em 2026. O terceiro negócio é a IA, que chegou ao S-1 carregando prejuízo de US$ 6,36 bilhões em 2025 e US$ 4,28 bilhões só no primeiro trimestre de 2026. É a aposta mais cara do portfólio e a que está mais longe da rentabilidade.O que eu quero que qualquer fundador brasileiro entenda ao ler esse S-1 é o seguinte: existem dois tipos de IPO. O primeiro é o IPO de liquidez, onde os fundadores e investidores iniciais querem saída e o mercado público é o veículo. O segundo é o IPO de combustível, onde a empresa vai ao mercado para financiar uma ambição que o capital privado já não consegue sustentar na escala necessária. O IPO da SpaceX é do segundo tipo. O prospecto indica que a SpaceX está ampliando atuação em IA e estuda sistemas de computação orbital alimentados por energia solar, com implantação potencial a partir de 2028. Os proceeds do IPO serão usados para financiar data centers espaciais e infraestrutura de computação. Data centers no espaço. Alimentados por energia solar. A partir de 2028. Esse é o destino do capital que o mercado vai colocar em 11 de junho. Não é retorno de dividendo. É aposta na fronteira mais avançada da tecnologia humana.PublicidadeO que me fascina nessa história não é o número. É a paciência. Musk fundou a SpaceX em 2002. Por 24 anos, manteve a empresa privada, enquanto a maioria dos analistas dizia que foguete privado era loucura, que a Nasa não daria contratos para startup, que o modelo não escalava. Cada uma dessas afirmações foi refutada. PUBLICIDADEA SpaceX registrou receita de US$ 18,7 bilhões em 2025, crescimento de 34% sobre US$ 14 bilhões em 2024. O número de assinantes da Starlink cresceu de 2,3 milhões em 2023 para 8,9 milhões em 2025, dobrando a receita da divisão para US$ 4,42 bilhões. Vinte e quatro anos de privacidade protegeram a empresa de pressão trimestral, de analista que não entende a tese de longo prazo, de acionista que quer dividendo antes do produto estar maduro. Quando Musk foi ao mercado, foi com uma empresa que já provou o modelo, já tem escala e já não precisa de ninguém para validar a tese.A Satélite Brasil, empresa cearense de comunicações via satélite que atende cooperativas agrícolas no semiárido, representa o que está em jogo para o mercado brasileiro nessa equação. Com a Starlink acelerando cobertura no Brasil após o IPO destravar US$ 75 bilhões de capital, o preço do serviço vai cair, a cobertura vai expandir e o que hoje é nicho vai virar commodity em três anos. PublicidadePara a Satélite Brasil, isso significa que a janela de operar num mercado com pouca concorrência está se fechando. Para os produtores rurais do semiárido que ainda não têm conectividade de qualidade, significa que ela está chegando mais rápido do que qualquer política pública entregaria.Leia outras colunas de Camila FaraniMissão Artemis II: quatro pessoas a 406 mil quilômetros da Terra reescrevem a históriaCopa de 2026 mostrará como a IA reduz erros. Prepare-se para nunca mais ver futebol da mesma formaRay Dalio tem uma leitura sobre como o poder se redistribui em ciclos de mudança tecnológica que aplico diretamente nessa análise. Ele argumenta que as empresas que conseguem capital em escala histórica num momento de transição tecnológica não competem com outras empresas. Elas redefinem as regras do setor inteiro. A SpaceX com US$ 75 bilhões frescos não vai competir com a Boeing ou com a Arianespace. Vai redefinir o que é economicamente viável em lançamento espacial, em conectividade global e em computação de alta performance. Cada setor adjacente vai sentir isso. Incluindo o brasileiro.O cronograma que o S-1 revela é preciso. Marketing da oferta começa em 4 de junho. Precificação em 11 de junho. Nasdaq, ticker SPCX. Goldman Sachs e Morgan Stanley liderando, com mais 20 bancos. Até 30% das ações disponíveis para investidores de varejo. Isso significa que em menos de três semanas o maior IPO da história vai estar precificado. O mundo vai saber quanto o mercado público está disposto a pagar pela tese de Musk. E esse número vai ser o benchmarking contra o qual OpenAI, Anthropic e todas as outras empresas de tecnologia que estão esperando a janela para abrir capital vão calibrar suas próprias ofertas. O IPO da SpaceX não é apenas um evento financeiro. É o calibrador do apetite global por risco tecnológico nos próximos 24 meses.Publicidade
Opinião | Musk vai levantar US$ 75 bi no maior IPO da história e redefinir o poder no capitalismo moderno
O IPO da SpaceX não é apenas um evento financeiro; é o calibrador do apetite global por risco tecnológico nos próximos 24 meses











