“Carla, é o oficial de Justiça, ele quer falar com você.” Foi assim, em tom de brincadeira, que Valéria da Silva, de 38 anos, anunciou à presidente da Coopamare a chegada da reportagem. Atualmente, o mantra por ali é “rir para não chorar”. A cooperativa de reciclagem mais antiga em atividade no País enfrenta uma ameaça tão concreta quanto o Viaduto Paulo VI, em Pinheiros, um dos bairros mais ricos e desenvolvidos de São Paulo, sob o qual funciona há quase quatro décadas.
Em meados de março, a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) determinou a desocupação da área. A notificação foi entregue pela Subprefeitura de Pinheiros, a apontar ocupação irregular do espaço e risco de incêndio associado ao acúmulo de materiais. O documento acrescenta que a permissão de uso foi revogada em 2023 para “proteção do bem público”.
A cooperativa contesta. Possui Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros válido até 2027 e diz nunca ter registrado incêndios desde 1990, quando se instalou sob o viaduto, após funcionar por um ano no bairro da Liberdade. Para os trabalhadores, a justificativa técnica não se sustenta, ainda mais diante da proposta de transferência para outros espaços sob viadutos.
Naquela tarde, a movimentação era intensa. Catadores entravam e saíam, enquanto os sacos com recicláveis se acumulavam. A equipe parecia trabalhar em sintonia. “Aqui a gente faz de tudo”, explica Nilzete Romão, há 20 anos na cooperativa. “Não tem isso de fazer só uma coisa.”
















