Experiências bem-sucedidas de desenvolvimento econômico mostram que crescimento e distribuição de renda caminham juntos. A noção de que é preciso primeiro “fazer o bolo crescer” para depois distribuí-lo, frequentemente associada a Delfim Netto, é equivocada. Por outro lado, a mera redistribuição de renda, sem ganhos de produtividade e progresso tecnológico, tende a produzir resultados econômicos frágeis e insustentáveis. Superar esse falso dilema exige reconhecer um ponto básico: não se distribui riqueza que não foi criada. Políticas sociais são essenciais para reduzir desigualdades e garantir coesão social, mas, isoladamente, não elevam de forma duradoura o padrão de vida. Isso depende, sobretudo, do aumento da produtividade, isto é, da capacidade de gerar mais valor por trabalhador, por unidade de capital e por área produtiva.
A questão que se coloca hoje, portanto, não é se o Brasil deve ou não distribuir renda, mas como construir, ao longo das próximas décadas, uma base produtiva capaz de sustentar níveis crescentes de remuneração do trabalho sem comprometer os fundamentos macroeconômicos e as políticas sociais. A resposta passa por uma estratégia deliberada de transformação estrutural da economia, centrada na sofisticação do tecido industrial, na incorporação de progresso tecnológico, aumento da complexidade produtiva e na integração às cadeias globais de valor em posições de maior densidade tecnológica. Para que o debate sobre desenvolvimento deixe o campo das abstrações e assuma um caráter operacional, é útil estabelecer uma referência quantitativa concreta. A renda média mensal do trabalhador brasileiro situa-se atualmente em torno de 3,5 mil reais. Uma trajetória de desenvolvimento consistente deveria ambicionar ao menos dobrar esse valor em termos reais ao longo dos próximos 25 anos, alcançando, aproximadamente, 7 mil reais mensais em valores atuais. Esse objetivo, embora desafiador, é tecnicamente viável e historicamente compatível com as trajetórias observadas em países que realizaram processos bem-sucedidos de catching-up industrial e tecnológico.















